LIÇÃO DE HUMILDADE

 Do Facebook e do que penso sobre este espaço, já dito em crónica anterior,  nunca exclui a minha pessoa, como já dei provas sobejas com a polémica extraída da página do PSD, resultante de uma pergunta que nela fiz (que ficou sem resposta) acerca de um candidato seu à «UNIÃO DE FREGUESIAS MAMOUROS, ALVA, RIBOLHOS».
Ora, não ficando aí tudo esclarecido, retomei o assunto na minha página que teve o desenvolvimento que aqui se repõe, não antes sem eu dizer que, entretanto me chegou a casa, por correio tradicional, mais um livro do aquiliniano confesso e provas dadas, Dr. Lima Bastos, com o título «O Retrato de Aquilino» e subtítulo «Pintura Sobre Palavras». Com dedicatória pessoal amistosa, o autor, em «nota preambular», informa os leitores tratar-se de um trabalho que junta a prosa dos seus quatro primeiros livros «num volume com certo aparato gráfico – parece que até lhe dão o nome de «edição de prestígio», arre diabo!». 

TRADIÇÃO E A MODERNINDADE -1

Se é citadino, se, de quando em quando, ciranda por estes «trilhos serranos» se ainda não se cansou do uivo solitário deste lobo ibérico em vias de extinção, suba cedinho ao topo da serra do Montemuro e verá levantar-se, lá para os lados da serra da Nave, o Sol num resplendor de cor, de energia e de vida.
E quando esse braseiro de Vulcano tomar altura a iluminar o mundo verá também as velhas muralhas, verá o que resta do Muro que, implantado neste Monte, não se sabe desde quando, deu o nome à serra: monte do muro, mais tarde,  Montemuro.

HISTÓRIA LOCAL - POLÍTICA LOCAL

O Facebook tem sido para mim uma plataforma de leituras, de estudo humano, dúvidas, interrogações e algum entretenimento. Sobre isso já disse q.b. no texto específico, colocado no meu site «trilhos serranos», com o título «FABEBOOK -1». Cabe agora trazer aqui o exemplo no qual eu próprio sou protagonista, por virtude de ter feito uma pergunta no «momento certo e no lugar certo», pergunta que ficou sem resposta e, em vez disso, deu origem ao «bate-papo» que se segue, transcrito integralmente da página que o PSD mantem no Facebook e, cujo remate, hoje mesmo, é o «comentário» de António Martinho dos Santos Teixeira. Outros que, eventualmente venham depois, já não podem integrar esta crónica.

O Facebook tem sido para mim uma plataforma de leitura, de estudo humano, de dúvidas, interrogações e algum entretenimento. Espaço democrático e amplo, ágora grega dos nossos tempos, onde toda a gente pode exprimir livremente a sua opinião e os seus gostos e desejos. Autêntico confessionário onde os crentes correm a expor os seus pecados e virtudes diários. Desnudam-se todos, gente exótica de povos ditos «civilizados», gente aborígene de povos ditos «primitivos». Coexiste aqui gente livre e libertina com puritanos que gritam aqui d'el Rei em defesa dos valores instituídos e quase perdidos.  Mortos-vivos fechados em catacumbas, grupos secretos, iniciados e treinados para dizerem mal dos ausentes, impossibilitados de ripostarem aos mexericos contra eles que dão felicidade aos iniciados admitidos na seita. Coexistem igualmente surdos-mudos com seres bem falantes, oratória fácil, tribunos encartados no saber político e/ou académico, no saber das ciências e das letras, relação de professores com alunos e vice-versa, banca de trabalho de poetas e escritores, onde todos expõem, escutam e auscultam assuntos sérios, bibliotecas de sabedoria, como marca distinta de estantes vazias ou recheadas de banalidades e coisas fúteis. A felicidade está ao alcance de cada mão, segundo o seu desejo, a sua opção.

COMÉRCIO LOCAL

Há uns tempos, fui à histórica loja «Ferreira Pinto» (perto do coreto) e comprei tecido bastante de serrubeco para umas calças que mandei fazer a um alfaiate local.  Próprias para me protegerem do frio nas viagens de mota, quis mandar fazer outras, mas o José Carlos (Carlinhos para toda a gente amiga) disse-me que já não vendia esse tecido. E, aproveitando a sua experiência sobre tecidos, uns que acabaram e outros que surgirem, contou-me uma «estória manhosa» digna de nota.
Antigamente, disse-me ele, as peças de fazenda eram todas de «pura lã»  e quando a indústria passou a fornecer o mercado com peças metade de lã e outra metade de polyester ou similar, nem todas os clientes aceitavam a novidade. Exigiam «pura lã» e mais nada. O «fioco» não teve saída. Tecidos feitos a partir da tosquia dos animais que conheciam na serra, traziam selo de garantia, os outros sabia-se lá de que eram feitos.
Não. Tecidos, só de «pura lã», que os serranos conheciam desde a tosquia à tecelagem.
Nisto, como em tudo, sobretudo nos meios rurais, cientificamente pouco atreitos a mudanças, as novidades não têm o caminho facilitado.

«É FRAQUEZA DESISTIR DE COUSA COMEÇADA»
Luís Camões

 Na saga da preservação das fontes e águas públicas perdidas entre silvedos e barrocais, à semelhança da Fonte de Nossa Senhora, no Alto da Lapa, e também a Fonte da Lavandeira, de que já falei em artigos anteriores e vídeos colocados no Youtube, começo esta crónica com as mesma palavras que escrevi sobre a Coluna Secular e o Cruzeiro de Alminhas, à entrada da Sobreira, palavras que levaram à alteração da obra feita e, com isso, à salvaguarda do nosso património material e imaterial histórico. Assim:

Acabei de ler um texto no Facebook  cujo autor se lamentava de haver gente que só se lembra dos Bombeiros como da Santa Bárbara: dos Bombeiros quando há fogo e da Santa Bárbara quando troveja. Esse texto não deixou de «bulir» comigo e levou-me a  transcrever para aqui parte do capítulo «NA HORA DO RESCLADO» do meu livro «Castro Daire, Os Nossos Bombeiros, A Nossa Música», editado em 2005. Isto para que o autor do texto, escrito num momento muito dramático para as corporações dos soldados da paz,  saiba que há quem se lembre dos BOMBEIROS não apenas nos momentos de aflição, pois (em Castro Daire)  também há quem tenha consumido anos a estudá-los e a oferecer-lhes «grátis» uma obra que, como foi notório e público na imprensa local, em vez de ser lida, e acarinhada pouco faltou para acabar numa fogueira. Mas isso é «fogos» de outros tempos. Ora façam o favor de ler e calculem as horas, dias e anos dedicados à investigação de uma obra de 500 páginas, assim rematada:

A COERÊNCIA 

1 - Em tempo de campanha eleitoral convém ter memória, para lembrar aos candidatos aquilo de que falaram, do que prometeram, do que cumpriram e não cumpriram. E quando memória se não tem, não há outro remédio senão recorrer-se a documentos, artigos e crónicas publicadas ao tempo e assim sermos fieis às ideias e aos factos que se prestam a comentar quatro anos depois. Dito isto, à semelhança do que já fiz trazendo a terreiro a serra do Montemuro como bandeira turística partidária de todos os partidos concorrentes às cadeiras municipais, hoje transcrevo do meu velho site para este novo (actual e activo) parte da minha primeira crónica que teve por assunto principal o PROGRAMA do MIC, que no acto da sua apresentação, no Largo do Coreto, cujo apresentador  sintetizou os seus objectivos colocados a seguir entre aspas.

DEBATES ENTRE CANDIDATOS

1-1 - O PRIMEIRO DEBATE

Estive a ouvir com atenção o debate entre o candidato do CDS-PP e do PSD que teve lugar na Rádio Limite, hoje, com início às 19 horas. Felicito o moderador e os candidatos pela forma cordata e civilizada como eles apresentaram as suas ideias para o concelho. Prestei especial atenção ao capítulo da CULTURA e ambos falaram do Grupo de Teatro do Montemuro e, quanto baste, dos grupos folclóricos e das bandas filarmónicas que existem no Município. E por se ficarem por aí, lembrei-me de transcrever algumas palavras que o Presidente da Câmara de Castro Verde (Alentejo) escreveu no editorial de "O Campaniço", o Boletim Municipal daquele concelho, que me é remetido sempre que sai. Assim diz ele: «temos um município que não confunde formação, cultura e educação com foguetório, apitos e flautas». 
Claro, que eu penso como ele. A formação, a CULTURA e a educação, não se podem confundir com «FOGUETÓRIO, APITOS E FLAUTAS». Transcrevo estas palavras pois elas vem mesmo a calhar para mostrar o conceito de CULTURA que os dois candidatos apresentaram. Só para reflectirem.
Nota: este texto foi colocado nas páginas do CDS-PP e do PSD, (dos dois candidatos em presença) logo após o término da primeira parte do debate. 

DEBATE NA RÁDIO LIMITE

1 - CULTURA

Estive a ouvir com atenção o debate entre o candidato do CDS-PP e do PSD que teve lugar na Rádio Limite, hoje, com início às 19 horas. Felicito o moderador e os candidatos pela forma cordata e civilizada como eles apresentaram as suas ideias para o concelho. Prestei especial atenção ao capítulo da CULTURA e ambos falaram do Grupo de teatro do Montemuro e, quanto baste, dos grupos folclóricos, das bandas filarmónicas que existem no Município. E por se ficarem por aí lembrei-me de transcrever algumas palavras que o Presidente da Câmara de Castro Verde (Alentejo) escreveu no editorial de «O Campaniço», o Boletim Municipal daquele concelho, que me é remetido sempre que sai. Assim diz ele: «temos um município que não confunde formação, cultura e educação com foguetório, apitos e flautas».

1 - Numa altura de eleições autárquicas (neste ano de 2013), após o primeiro debate feito na Rádio Limite pelos candidatos do CDS-PP (Carlos Rodrigues) e do PSD (Luís Alberto da Costa Pinto), explanado que foi o seu conceito de CULTURA, circunscrito aos Grupo de Teatro do Montemuro, ranchos folclóricos e bandas filarmónicas, injusto seria eu para com o antigo presidente da Câmara João Matias e presidente da Assembleia Municipal, Dr. João Duarte de Oliveira, não trazer à colação as palavras por eles proferidas, em 1995, na sessão de lançamento do meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura». Faço-o tão-somente para produzir um documento histórico, já que a história não se faz sem documentos e eles nos revelam o que pensam os homens e os conceitos pelos quais guiam os seus procedimentos, pessoais e políticos. 

Na ordem cronológica da «Imprensa Local» de Castro Daire, entrou um jornal que tinha por título «Castro Daire». Nasceu em 30 de Novembro de 1917 e era seu Director e Editor Alfredo Semedo. Dizia-se «Órgão mensal, independente, defensor dos interesses locais».

Creio ser de inteira justiça repor aqui, na integra, o texto que, em 1997, publiquei  no «Notícias de Castro Daire», referente ao bate-chapas, Victor Amando Monteiro dos Santos, vulgarmente conhecido por ZAPA, agora falecido e cujo óbito referi no meu «estado» do facebook, no dia 17 do corrente. Às vezes marginalizado, senão mimosedado com dichotes devido às suas excentricidades, é em memória dele que o faço e também para divulgação do fabuloso poema que ele recitou, servindo-se do martelo e do tais como instrumentos musicais a marcar ritmo do trabalho e da recitação. Assim:

Neste ano de 2013, ano de eleições autárquicas, reportando-me ao entrecruzar de objectivos programáticos dos vários partidos concorrentes às cadeiras dos órgãos municipais e de freguesia, em 8 de Agosto do corrente ano, escrevi o seguinte na minha página do Facebook, com remissão para o meu site:

«(…) como as intenções e objectivos genéricos expressos nos programas se entrecruzam e misturam, à semelhança dos elementos que integram as listas do PSD, do CDS, do PS  (em eleições passadas e presentes), seria bom que se aclarassem ideias e valores, já que os partidos políticos, em geral, e em Castro Daire, em particular, deixaram, há muito, de serem instituições agremiadoras de pessoas identificadas com o mesmo ideário político e social, para serem unicamente trampolins de pessoas que deles se servem para atingir os seus fins e interesses pessoais. Depois queixam-se da Democracia Representativa chegar ao que chegou e do descrédito dos políticos».

Há uns anos, por força de integrar uma Associação Recreativa e Cultural concelhia, fui convidado a participar num jantar de aniversário, tal como ouros sócios. Entre eles estavam dois amigos que comigo se sentaram à mesma mesa. Comemoração bem comida e bem regada, nesta, como em todas as festas, os convidados, barriga cheia, vão desaparecendo sorrateiramente e com eles se vai o alarido do convívio, dos odores e efeitos etílicos que preencheram a sala. Eu e os meus dois amigos, ficámos. E notei que, à medida que passava tempo e o tinto mudava de vasilha, aumentava a alegria e a eloquência. Eu destoava claramente do trio. Eles bebiam e falavam e eu somente ouvia. A conversa entre eles variava de assunto para o outro com a rapidez com que uma borboleta se move de flor em flor, resultando daí que muitas dessas conversas não tivessem sentido, nem conclusão. O que não era para admirar!

Hoje, estava eu nos sanitários do  Jardim Público, em Castro Daire, quando entraram dois amigos a cavaquear sobre algo que metia uma mulher aposentada, com choruda reforma. Eles iam ao que se sabe e, lado a lado, virados para o WC, diz um para o outro:

- Alguém anda a comê-la!

- A quem, à reforma?

- Não, a ela.

- Que chatice, já não a encontro

.- Quem a reformada?

- Sim, sim, ela está reformada, mas não é aquela de que falávamos.

- Quantos anos tem, ó ti Jaquim?

- Oitenta e nove. É por isso que ela se me escapa. Mas não desisto, hei de apanhá-la.

- Com essa idade, é melhor desistir, ó ti Jaquim.

- Não desisto, não. Nem que tenha de arranjar um alicate de pontas, senão mijo nas calças.

Saí. Eles lá ficaram a falar das duas "reformadas" e vi-os, mais tarde, sentados num dos bancos do jardim. O herói, de oitenta e nove anos, fazia jus ao tempo. Bigode e pêra à António José de Almeida, suspensórios, bengala, estava ali, uma figura da Primeira República, arrancada aos álbuns de fotografias da época.  E, ainda por cima,  a falar pelos cotovelos. Republicanos? Gente tesa, gente tesa. Lembrei-me da conversa ouvida pouco tempo antes e perguntei-me a mim próprio o que pensaria e faria eu quando chegasse aquela idade de reforma.

Abílio, 12/08/2013

REQUALIFICAÇÃO DO JARDIM PÚBLICO

Em 14 de Fevereiro de 2012, partilhei na minha página do facebook o desenho que ilustra este apontamento, com a devida explicação e razão de ser dadas nessa altura. A partilha recebeu, de imediato, vários comentários de «amigos», e de munícipes atentos, sempre interessados naquilo com que vou preenchendo nessa minha página, bem como de alguns esclarecimentos meus suplementares.
Ora, como estamos em tempo de eleições autárquicas, achei oportuno relembrar o assunto aqui, neste meu site (outro espaço de comunicação que mantenho com o mundo) para o caso de algum dos candidatos interessados na requalificação do Jardim Público, aproveitarem algo da ideia publicada ou a rejeitarem por terem outra mais consentânea com os tempos e com a dinâmica e vida que aquele espaço merece, tirando de lá aquele mamarracho a que chamam «quiosque». Aí vai, tal qual:

PERGUNTAR NÃO OFENDE

1  - Tenho lido os textos produzidos pelas candidaturas dos pretendentes às cadeiras do Município. Mas, por razões óbvias, tenho-me focado mais nas palavras de Luís Alberto da Costa Pinto (também conhecido por Aveleira) publicados no desdobrável que me foi metido na caixa do correio e no jornal «Notícias de Castro Daire». Tenho feito isso pela simples razão de, não obstante ele ter sido presidente da Junta da Freguesia de Pinheiro, há uns anos atrás, ter agora emergido nas hostes do partido da chaminé (PSD), que só nas últimas eleições autárquicas, depois de muitos anos à frente do Município, com o Dr. César da Costa Santos, o senhor João Matias e a Engª Eulália Teixeira, à cabeça,  viu fugir-lhe o poder para Fernando Carneiro, cabeça da lista do PS.

FONTE DA NOSSA SENHORA – OUTEIRO DA LAPA

 No meu livro «Lendas de Cá, Coisas do Além» editado em 2004, escrevi, entre outras, a «Lenda da Nossa Senhora» e refiro o penedo a que ela se ligava, sito no outeiro do alto da Lapa, entre Lamelas e Vila Pouca. Publiquei nesse livro uma foto tirada em 1999, aquela que também aqui publico hoje (foto 1),  onde vemos a água a esguichar do penedo, terreno baldio, não muito distante da EN2. Chega-se lá, ainda hoje, a partir desta estrada, por um caminho rural perdido entre pinheiros, silvedos, giestas  e mais abundante vegetação natural.
O penedo original com as «covinhas»  e as marcas das ferraduras do burrinho (ver vídeo alojado no Youtube com o título «Penedo de NSenhora» em Lamelas) desapareceram.
Foi dinamitado nos anos sessenta do século XX e, em 1999, apresentava ainda o aspecto que mostra esta foto de que sou autor.  Mais uns anos passados e a autarquia, a fim de melhor explorar a água como suplemento ao abastecimento domiciliário de Vila Pouca, procedeu à necessária captação e canalização, desde a nascente até ao destino.
Foi aproveitamento de pouca dura. A água foi abandonada e não tardou que os matagais do outeiro, hoje sem a pastorícia de outrora, tudo engolissem, fazendo desaparecer, temporariamente, as obras e a lenda, com as águas a correrem nos canos subterrâneos ou em céu aberto, até se perderem na valeta da EN2.

O ANCIÃO E  «A MOLEIRINHA»

Estava eu, no dia 18 do corrente,  à  volta de um prato de sardinhas assadas na brasa, quando se aproximou de mim um ancião, pediu licença pela interrupção, e perguntou-me se eu era aquele senhor que escrevia no jornal. Que lia sempre os meus artigos e tinha notado a  minha ausência, nos últimos tempos. Que sim, senhor, era eu mesmo, gosto em conhecê-lo. Quem é?
Um pouco marreco, voz insegura, notoriamente mouco, olhar vivo e penetrante, sorriso desdentado, estava à minha frente uma carrada de anos em forma de homem muito magro e visivelmente de letras gordas.
Eu queria oferecer-lhe um livro. Sim, senhor, obrigado. E meio assustadiço, colocou-me ao lado do prato das sardinhas um opúsculo com o título «A MOLEIRINHA», capa decorada com uma pequena e tosca figura de barro, saída, seguramente, de um ignoto barrista que molda imagens à proporção da sua imaginação e engenho. Voltou a pedir desculpa pela interrupção e foi sentar-se numa mesa próxima. Ouvi-o pedir o almoço e vi o esforço da empregada para fazer-se ouvir a informá-lo dos pratos do dia.

DE CABO A RABO

Num tempo em que as palavras perdem sentido na boca dos políticos e de alguns eruditos facebookianos, lembrei-me, vejam só, de dois diálogos ocorridos numa loja de ferramentas agrícolas, entre vendedor e clientes.

1 - A GADANHA

Um desses diálogos ocorreu em torno do cabo de uma ganhanha de segar feno, das antigas, cabo de madeira que terminava em bisel, onde a gadanha se lhe unia por meio de um aro metálico mais  uma cunha de madeira. Dizia uma senhora, na sua condição de mulher sozinha em casa:

- Compro-lhe este, é jeitosinho, tem um perno à medida de minha mão,  mas tem de ir a minha casa encabá-la, que eu sozinha nãofaço isso.

- Está bem, onde é que mora? Eu vou lá encabá-la, mas só o faço a si, pois já viu o que seria de mim, se fosse atender todas as clientes que me pedissem para ir a sua casa encabá-la?
- É um grande favor e só lhe peço isso porque o meu marido está na França, pois se cá estivesse quem a encabava era ele.

2 - A ENXADA

Um outro cliente regateava o preço de uma enxada e, mirando-a daqui e dali, a largura da pá, a medida do olho, qualidade do aço, acabou por dizer ao comerciante:


- Eu levo a enxada por esse preço, mas tem de me dar o rabo.

- Ora essa, dar-lhe o rabo, isso é que não dou.

- Pronto, se não me dá o rabo, fique lá com a enxada. Agrada-me, tem bom olho, mas para que a quero eu, se não me dá o rabo?

O cliente desandou porta fora e comerciante ficou a murmurar:

 Dar-lhe o rabo, era o que faltava!

Este comerciante de ferragens e ferramentas agrícolas, com loja aberta em Castro Daire, era um homem espirituoso, sempre pronto a aproveitar e fazer piada com o que "viesse à mão" no quotidiano da vida. Daí, ter-se virado para mim e dizer-me:

- Já visto isto? Aquela mulher, com o marido em França, pediu-me para eu ir a casa dela encabá-la. Este agora, queria que eu lhe desse o rabo. Se isto continua assim, vou mas é mudar o ramo de negócio.

Não mudou, não senhores. Aposentou-se fazendo piada com os ditos, com as expressões genuínas  e sãs, saídas da boca da gente simples do campo, mais preocupa em ter ferramentas boas e seguras para granjearem o pão, do que com a polissemia das palavras. Isso é para gramáticos e linguistas que, sabendo de cor todas as parónimas, antónimas e sinónimas, não sabem o que é uma gadanha, um engaço e uma enxada. Em boa verdade não sabem, nem sonham, o que é lavrar um campo de semeadura da cabo a rabo. Isso é para políticos que somam leis e mais leis a esmifrar impostos de rabo a cabo. Nisto, é tudo a eito. Comem todos.

É por tudo isso que me agrada passar a letra redonda estes dois diálogos, ocorridos numa vila rural, e mostrar a pobreza e a riqueza da língua, ora na boca dos eruditos, ora na boca dos simples.

Abílio/2013

A SUA VIA SACRA

Saído das berças sitas nas «terras quentes» de Mirandela, gerado no útero de onde saíram, espaçados a compasso das estações do ano,  mais sete irmãos, entenderam os pais que o caminho daquele rebento, escola primária feita, seria o Seminário de Vila Real (somente Seminário, sem distinção de Menor ou Maior) onde, no dizer do actual homem adulto inconformado por ter sido expulso, se «entrava porco e saía salsicha», pronta para entrar no mercado.

HORIZONTES DA MEMÓRIA
 
Num dos programas que vi  "Horizontes da Memória" do professor Hermano José  Saraiva,  ele tratou da figura de Alfredo Keil. O homem e o seu tempo. Aproveitando uma exposição que teve lugar no Palácio da Ajuda,  relativa à sua vida e arte dessa figura histórica, destacou as sua volumosa e diversificada obra de pintura, as óperas que escreveu e levou a palco em Portugal e no estrangeiro, e, sobretudo a importância de «A Portuguesa», nascida de um entusiasmado e fulgurante fôlego contra o Ultimatum inglês, de 1890, letra e música numa  correspondência harmónica e calorosa com os ânimos nacionais que, contra tal política de Sua Majestade, se levantaram no país inteiro.
 
Aconteceu que, estando a Monarquia Portuguesa no seu estertor, "A Portuguesa" (que viria a ser o Hino Nacional) foi imediatamente aproveitada pelos Republicanos, cantado em tudo quanto era reunião, comício, ajuntamento, taverna e colectividade, a pontos do autor desse, então,  Hino Subversivo, que tinha sido acarinhado pela Coroa e vendido, até, alguns dos seus quadros aos membros da família real, de protegido passou a perseguido e, no dizer do professor, cito de memória, Alfredo Keil, por «não ser aderente» deixou de  «passar na via verde da auto-estada do poder», sendo obrigado a «pagar portagem» e sujeito às consequências que sofrem os perseguidos.
 
Pois bem, caiu a Monarquia, veio a República, chegou a Democracia, passou muito tempo,  e esse exemplo dos «não aderentes à via do poder», isto é, os que se excluem intencionalmente do grupo dos «compadres e amigos» são obrigados a pagarem a «portagem», tudo  por não alinharem com as asneiras do PODER, serem críticos do PODER, avessos que são a fazer vénias, ajoelharem, pôr as mãos, gestos tão próprios dos crentes, e, ipso facto, se recusam a dizer «que sim, que sim», a imitar aquela imagem de Santo Hilário que, numa igreja  ali para os lados do Minho, abana afirmativamente a cabeça, respondendo convenientemente à pergunta do pregador mancomunado com o sacristão que puxa uma corda corrediça  sob manto do Santo, para surtir os efeitos desejados e deixar embasbacados e convencidos os crentes, ignorantes de toda a marosca.
Vejam só o tempo que passou! E vejam como tão pouco se mudou!
Castro Daire, tá bonito, tá!
 

Dos muitos quilómetros de linhas escritas que, durante anos, deixei impressas nos jornais e nos livros sobre a história local,  cultura, usos, costumes e  gentes montemuranas, são poucas aquelas que envolvem a minha pessoa, ainda que, por vezes, tenha ilustrado o tema sobre que discorri com a minha experiência pessoal e os conhecimentos que advêm da universidade da vida, tal como fiz nos meus últimos "estados", respondendo à bisbilhoteira pergunta da máquina: "que estás a pensar?"

Neste  meu afã de lidar com letras e com pessoas de letras (tão raras por estas bandas), as letras que mais gostei de escrever, envolvendo a minha pessoa, foram aquelas que, há bem pouco tempo, "postei" no mural de um amigo, aqui, no Facebook com o título GRATIDÃO, um sentimento que muito prezo, pois acho a INGRATIDÃO uma atitude humana execrável. Eu, aos 74 anos de idade, senti-me muito feliz a escrever esse texto, pois eram palavras há muito sentias e devidas publicamente a esse amigo, PROFESSOR da Universidade de Coimbra, que, há muitos anos, não nos conhecendo nós pessoalmente de lado nenhum, ele, sem me perguntar quem eu era, donde vinha e para onde ia, produziu publicamente  "juízos académicos" sobre alguns livros meus, valorizando-os,  o que muito me sensibilizou e honrou.

Julgo até ser essa a dimensão humana que dá distinção e gabarito a uma pessoa de "pensamento", uma pessoa que não banca a intelectual e que, servindo-se das LETRAS, reconhece o mérito onde o há, incapaz de  cometer a INGRATIDÃO de ignorar, ou fingir ignorar, os créditos e os méritos que encaixam na bitola de valores pela qual afere o trabalho alheio e o seu próprio.

Semelhantemente, nessa linha de pensamento e acção, atento ao meio que me rodeia, senti-me igualmente feliz e humano, quando, há muitos, muitos anos, deixei em letra redonda, o mérito que vi nalguns trabalhos publicados, a falarem do Montemuro e suas gentes,  sem olhar ao nome e assinaturas dos seus autores. Aconteceu ter escrito até algumas dessas minhas apreciações valorativas, antes de conhecer pessoalmente alguns deles, o que,aliás, releva a objectividade da minha análise. Valorizei o trabalho pelo seu valor intrínseco e não empurrado pela subjectividade da amizade, esse sentimento humano sempre traiçoeiro,  capaz de empurrar para o elogio fácil e enganador,  que bem pode surtir efeito contrário ao "reforço positivo" de Skiner, no sentido de ajudar as pessoas a ganharem confiança em si próprias e aperfeiçoarem os trabalhos que produzem.

MÉDICO-sines0000Procedi assim impelido pela honestidade intelectual que, por caracter e formação, me impus a mim próprio. Não o fiz para ser agradável com os seus autores, pois não sou nada dado a palavras e discursos de conveniência, destituídos de verdade e autenticidade, tão ao gosto de pessoas que incham com elogios fáceis, hipócritas, sacristas, cruz alçada, desvanecidos com loas e ladainhas que anunciam à distância a procissão que passa.

Pois é, dos muitos quilómetros de linhas escritas que, durante anos, deixei impressas nos jornais e nos livros, falando da minha terra, da sua cultura e das suas gentes, diferentemente de outros que por aí se passeiam e perdem na flora montemurana, nunca confundi " toda a planta com orégãos"  para usar a ironia daquele médico de Sines, em 1850, Francisco Luiz Lopes, referindo-se aos clínicos da capital,  dizendo que eles ignoravam completamente as plantas medicinais que os rodeavam e com as quais se faziam os fármacos. (cf. «Breve Notícia de Sines», 1850, pp. 78)

É tudo uma questão objectividade, de estatura, moral, humana e ética  (não só poética) face ao nosso semelhante e à qualidade da produção intelectual publicada. As LETRAS não são TRETAS e o papel delas é estarem viradas para CULTURA dos povos, do crédito e mérito dos trabalhos produzidos e não apenas para o CULTO do umbigo daqueles ou daquelas que com letras lidam e, numa atitude narcísica, mais não vêem que a si próprias.

 

 

 

1 -AUTO DO VAQUEIRO

 Pavoneando-se no palco do país, os protagonistas que todos conhecemos, desunham-se para convenceram a plateia que são insubstituíveis e que a farsa  está para ficar e durar. Sem eles é o fim do mundo.

A plateia não acredita nisso, apupa-os, dá pateadas no soalho, exibe cartazes mandando-os para a rua. Face ao pateado,  um deles, muito a custo, bate em retirada, reconhecendo em testamento, feito no seu juízo perfeito e "atempadamente", que não podia continuar no auto, pois não acertava uma no papel que lhe foi distribuído. Com "gag" atrás de "gag"  deixou o lugar vago que foi imediatamente ocupado por alguém especialista em finanças, que não podia alegar virgindade nos contratos "swaps". Foi então que, num repente, outro dos protagonistas, sabido que se farta,  habituado a contorcionismos vários, bateu com a porta, recusando-se a representar ao lado de tal figura. A triste figura. Foi o aqui d'el Rei. Era o fim da farsa. 

No dia 16 do mês passado "postei" aqui, neste meu espaço, um texto sobre  a CENSURA, texto que tinha publicado no mensário "Lamego Hoje" do mês de Setembro de 1987. Fi-lo  por razões que respeitam ao que se vai por aí dizendo e praticando, nestes tempos,  relativamente à expressão livre e responsável do pensamento.

Também já deixei neste meu espaço uma referência à urticária que me causam aqueles que, nos blogs, se refugiam no ANONIMATO para exprimirem as suas opiniões, com o receio, diz-se por aí, se serem perseguidos, caso se identificassem com os nomes próprios.

Mas já mostrei, também aqui, que começava a compreender e a ter uma certa simpatia por esse seu resguardo, uma vez que, conhecendo eles a MENTALIDADE dos que detém o poder, das duas, uma: ou recorrem ao anonimato para poderem dizer o que pensam sem receio de serem perseguidos, ou ficam calados, surdos e mudos, para não serem incomodados.

1 - Já começaram a aparecer nos lugares estratégicos da vila, nos cruzamentos das estradas e aldeias, os CARTAZES com as palavras de ordem e as fotos dos candidatos autárquicos. E também já começaram a achegar às caixas dos correios dos munícipes alguns "desdobráveis" com as "promessas" que eles dizem cumprir, caso venham a ser eleitos.

2 - Como ainda não desisti do exercício da minha cidadania, que não apenas meter o voto na urna de 4 em 4 anos, quero deixar aqui matéria para reflexão de todos os candidatos, a fim de nenhum deles poder dizer que a ignoravam. É matéria que eu já trouxe a público, quer através de escritos, quer através de vídeos colocados no Youtube, mas nunca é demais "bater em ferro frio", tanto mais que se trata de matéria de relevante interesse para o concelho. Matéria de interesse público. De que se trata?Aí vai:

PRIMEIRO

P'ra que toda a gente veja
O pinheiro de S. João
Esta velha tradição
Que se mantém em Fareja

Esta quadra, que figura, anónima, no painel de azulejos colocado na sede da Associação Recreativa e Cultural de Fareja, é da minha lavra e sintetiza uma velha tradição desta aldeia.

Ontem, dia 23 de Junho, cumpriu-se, mais uma vez, parte dela. Foi a «erguedela do pinheiro». Essa tradição está dividida em três partes, que são a) corte, derrube e transporte do pinheiro; b) descida do pinheiro velho; c) erguedela do novo. Toda ela consta no Youtube, em três vídeos que lá coloquei. Neles poderá o leitor «admirar» o volume do pinheiro e as técnicas artesanais utilizadas na tarefa.

De currículo público lacrado, recostado nesta minha cadeira da terceira idade, eu mantenho-me sempre atento às gentes que me rodeiam e comigo falam. Esporadicamente leio os "textos" anónimos que falam tanto da política e políticos locais, que nem todos os galos do campo a anunciarem as manhãs. 

Leio e reflito sobre os NOMES e a razão da sua existência. Não é preciso fazer grande pesquisa para sabermos que os "nomes" servem para identificar as COISAS e as PESSOAS

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