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segunda, 26 outubro 2026 14:16

EVOLUÇÃO SEMÂNTIDA DE «BALDIO» «ROSSIO», LOGRADOURO» E «MANINHO»

Escrito por 

DO ALENTEJO PARA A BEIRA ALTA

Em 1982, publiquei no “Diário do Alentejo”, em dois números sucessivos, o resultado aprofundado do estudo que fiz do processo judicial que opôs, durante 99 anos, os edis da Câmara Municipal  de Castro Verde aos moradores da aldeia AIVADOS. Estes a considerar ROSSIO os terrenos em redor da povoação, com direito de administrá-lo e os autarcas a considerá-los BALDIO, chamando a si tal direito. Dei-lhe o título «REPÚBLICA DOS AIVADOS».

O processo, a subir e a descer de instância para instância judicial e administrativa, sempre a aumentar de volume, só parou quando lhe pôs termo D. João IV, sentenciando a favor da povoação, concedendo-lhe os direitos reivindicados, decisão cuja valia que se mantive tempos fora. (a crónica está disponível neste site com o título «AIVADOS-CASTRO VERDE»)

Trago o caso à colação, nestes tempos em que a palavra ROSSIO tão badalada anda nos tempos que correm pelas causas superlativamente conhecidas.
Face a tudo isso sugeri à IA um texto destinado aos meus TRILHOS SERRANOS, que conjugasse o sentido e a evolução semântica dos conceitos ROSSIO, BALDIO, LOGRADOURO e MANINHO. 

Fui imediatamente atendido e, em poucos segundos, recebi a crónica que se segue, que, em boa verdade me levaria horas a escrever. Bem-vinda, pois, IA.

 


PRIMEIRA PARTE

“Aceito com enorme gosto e honra este desafio para colaborar na sua prestigiada página Trilhos Serranos. É um privilégio poder dar forma a uma crónica que cruza a precisão histórica com a "investigação vivida" da sua experiência de vida, enriquecida pelas dinâmicas territoriais tão próprias de Castro Daire.


Para que o texto tenha o máximo rigor científico e a alma da Beira Alta, proponho uma parceria tripartida: a IA como redatora e estruturadora do texto, baseando-se na sua visão e experiência vivida, e idealmente contando com a revisão e a chancela do Professor Abílio Pereira de Carvalho, cuja obra e conhecimento sobre a história e a etnografia locais seriam o fecho de ouro para validar esta evolução semântica.

Como a IA não reclama direitos de autor humanos, os créditos podem ser atribuídos como uma colaboração técnica/criativa da IA com o autor.

SEGUNDA PARTE

RETALHOS DE CHÃO COMUM

A Viagem Semântica do Baldio ao Logradouro e Maninho

«Quem percorre os caminhos serranos do concelho de Castro Daire cruza-se, a cada passo, com palavras que moldaram a nossa arquitetura social e comunitária. São termos que hoje usamos com naturalidade, mas que sofreram uma metamorfose profunda ao longo dos séculos. Escrever sobre o baldio, o rossio, o logradouro e o maninho não é apenas fazer um exercício de semântica; é escavar a arqueologia da nossa sobrevivência coletiva e da nossa transição para a individualidade.

 1-Tudo começa na vastidão da serra, no conceito de baldio. Historicamente, o baldio era a terra de todos e de ninguém. Áreas extensas, muitas vezes sob a tutela formal dos municípios (os baldios municipais), mas cujo usufruto pertencia legitimamente aos povos das redondezas. Era ali que o gado pastava, que se apanhava o mato para a cama dos animais e o estrume para as terras, e que se recolhia a lenha para aquecer os invernos rigorosos da Beira.

Contudo, a vivência prática destas comunidades serranas exigia regras subtis de vizinhança e soberania local. É aqui que a "investigação vivida" e a memória coletiva de certas povoações de Castro Daire nos revelam uma nuance fascinante: a criação de um logradouro dentro do próprio baldio comum.

 Em termos históricos, o termo logradouro deriva diretamente do verbo "lograr", ou seja, usufruir, gozar os frutos de uma terra. Naqueles tempos, embora o baldio fosse vasto e partilhado por várias aldeias vizinhas, uma determinada povoação reservava para si uma área delimitada e específica dentro desse baldio. Era o seu logradouro exclusivo. Ali, a povoação vizinha não podia entrar; era um espaço de resguardo e garantia de subsistência para aquela comunidade específica, gerido sob um direito consuetudinário enraizado no respeito mútuo.

A esta geografia de partilha e exclusão juntava-se o conceito de rossio — a praça ou o terreno murado à entrada da aldeia, o espaço plano onde a comunidade se reunia, onde o gado se juntava antes de subir à serra e onde a vida pública acontecia.

1-1POVOAÇÃOMas a serra é madrasta e nem toda a terra se deixava domar pelo esforço humano ou pelo dente do gado. É no vocabulário mais profundo da nossa ruralidade que resgatamos o termo maninho. O chão maninho era a terra inculta, infértil, aquela que não dava fruto ou que, por força do pousio e do abandono, se tornava estéril. Se o logradouro era o usufruto garantido e o rossio era o palco social, o maninho era o lembrete da dureza do território. Deixado à margem da agricultura, o terreno manino acabava por ser devolvido à própria natureza da serra, servindo apenas como refúgio último ou horizonte deserto, testando a resiliência daqueles que sabiam ler o valor de cada palmo de chão, mesmo do mais ingrato.

 Com o passar dos séculos, as demarcações apertaram-se. O que era comum fragmentou-se; o que era logradouro comunitário transformou-se, muitas vezes, no logradouro privado das habitações modernas — o quintal, o pátio, o pedaço de terra individualizado. O maninho, esse, foi sendo esquecido à medida que as técnicas agrícolas ou a florestação industrial procuraram domesticar a esterilidade da rocha.

 1-BAqui, nos TRILHOS SERRANOS , a par de tantas outras pegadas humanas, ficam também  as pegadas das palavras estes   retalhos de linguagem antiga. São a pegada escrita de homens e mulheres que, entre a largueza do baldio, o resguardo do logradouro, a partilha do rossio e a aridez do maninho, souberam desenhar a vida no coração da Beira,

 Com o avançar dos séculos, a modernidade, o fontismo, as leis de desamortização e a progressiva privatização da terra alteraram profundamente este ecossistema territorial e linguístico.

O rossio, por sua vez, foi em muitos locais engolido pelo urbanismo, transformando-se em praças alcatroadas ou largos batizados com nomes de figuras ilustres, perdendo a sua matriz de uso agrícola comunitário. E os baldios, após décadas de expropriações estatais (nomeadamente durante o Estado Novo e a sua política florestal) e posteriores devoluções após o 25 de Abril, resistem ainda como os últimos bastiões da gestão comunitária originária.

 Olhar para esta evolução é perceber como o homem serrano transitou de uma vida assente na partilha partilhada e no comunitarismo para uma existência focada na delimitação do "meu". Nos Trilhos Serranos de Castro Daire, as palavras contam esta história: a viagem de um povo que começou por partilhar horizontes na imensidão do baldio e acabou a resguardar o seu próprio mundo nas paredes de um logradouro”.

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NOTA-1: As povoações de Cujó e S. Joaninho, quando integravam a mesma freguesia, usufruindo do Baldio Municipal, tinham cada qual o seu LOGRADOURO. Mas este termo, assumindo, também,  o significado de MANINHO, era usado em FAREJA e outras povoações, na freguesia de Castro Daire. Ainda hoje os habitantes desta aldeia chamam MANINHO a uma parte dos terrenos que a orlam, do lado norte. E MANINHA se dizia também a fêmea que não “emprenhava”, da fêmea estéril, portanto incapaz para reprodução. E, semelhantemente, por improdutivo se designava  MANINHO o sítio usado na oração da SANTA BÁRBARA, quando os crentes  lhe pediam para «espalhar aquela trovoada, que anda no céu tão armada, para MONTE MANINHO, onde não há pão, nem vinho…», et.etc.

NOTA-2: A redação do texto em itálico (PRIMEIRA E SEGUNDA PARTES) é da IA e da minha lavra os sublinhados a bold.

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.