PRIMEIRA PARTE
Fui repescar estes dados biográficos para retomar a matéria histórica que me tem ocupado no sentido de deixar escrito mais um retalho de história local, entrelaçando informação escrita e oral, algo nunca dito pelos historiadores que me precederam e falaram da FAMÍLIA AGUILAR e das suas relações com a IGREJA MATRIZ. Lá chegaremos.
Para já digo que, no ano de 2020, em pleno jardim municipal, entrevistei (e disso fiz vídeo alojado no Youtube), o senhor JOSÉ DE ALMEIDA FERREIRA, mais conhecido por “Tio Zé de S. Bento”, natural de Vale de Matos. Filho do “tio Zé de Cernim”, caseiro da FAMÍLIA AGUILAR, na QUINTA DE SÃO BENTO. Ele ali trabalhou com o pai até à idade adulta e tornar-se moleiro nos moinhos dessa QUINTA, junto ao rio Paiva, um complexo moageiro composto por cinco pares de mós.
Disse ele que, em 1963, uma cheia do rio levou dois pares delas, reduzindo o complexo a três pares.
Tais engenhos, na altura, e bem assim toda a QUINTA desse nome, a trepar encosta arriba até Vale de Matos, eram propriedade da Família Aguilar e difíceis de subir eram os carreiros e caminhos carreteiros que ligavam a QUINTA à vila. Os carros de vacas carregados, chiando como que chorando, subiam carregados com os foros agrícolas, em género, até à curva da TORRE, assim chamada por ser a única curva do caminho dos povos sitos na corda do Paiva - Pinheiro, Vila Seca, Mortolgos, Santa Margarida, Arinho e Vale de Matos e outros - donde se via a TORRE DA IGREJA MATRIZ e o SOLAR AGUILAR, para cujas arcas celeiras, acomodadas nos fundos da casa, se dirigiam e guardavam os foros devidos e ali chegados.
E nessa CURVA DA TORRE, tinha também início, descendo em direção ao VALE SOEIRO, um trilho, uma vereda, um “carreiro de formiga”, um atalho, destinado a peões e gentes a cavalo, que, daquelas bandas «da Paiva» se deslocavam à vila e passada que fosse a ponte de pau que atravessava a linha de água que descia da Cedorninha, com começo nas proximidades de Vila Pouca até se finar no rio Paiva, subia a contra encosta, puindo o “quelho da Seara” que, por sua vez, ligava ao “quelho do Passal” e este à Igreja Matriz e ao Bairro do Castelo, onde estava implantada a CASA BRASONADA, um edifício que a proprietária, a SENHORA DONA ALICE CERDEIRA GUERRA AGUILAR, segundo informações dadas pelo marido Antero, teria sido construída no ano de 1600, ignorando ambos saber “se no princípio, no meio ou no fim desse ano”. (Ms. pessoal).
Sem outros registos escritos resta-nos pousar os olhos nesse SOLAR DA PRAÇA e dizer sobre ele o que não foi dito por nenhum dos historiadores que me precederam. Talvez porque, todos eles expeditos no uso da caneta, conhecedores de estilos arquitetónicos, com senhorio da história de arte. nenhum tenha sido “pedreiro”, nenhum tenha feito uso da régua e do esquadro, do prumo, da maceta e do ponteiro, a lavrar porpianho granítico para moradias aldeãs, de vilas ou cidades. Nenhum tenha usado os moitões e cadernais, tudo em madeira, materiais à mão, um autêntico hino à inteligência prática humana, o uso das leis da física e da gravidade, obreiros analfabetos ou semianalfabetos, onde não se falava de Arquimedes, Newton e outros que tais, que dão corpo, (e ainda bem,) aos compêndios liceais e antologias universitárias.
Nenhum dos historiadores, meus predecessores, se deu conta que a fachada principal argamassada e a cornija canelada de granito, tal qual estão, não dignificam qualquer mestre-de-obras de antanho e dos nossos tempos. E admitindo que nenhum engenheiro, arquiteto, ou mestre-de-obras, se honraria com uma obra assim, fachada e cornija curvadas a caminho de aduela de pipa, quando deviam estar em linha reta, não receberia o obrigatório ramo verde de remate, sinal de obra de pedra concluída e empreitada cumprida.
Tal curvatura, tal barriga, no rosto mais nobre de casa brasonada, só pode dever-se a uma força estranha, uma força alheia ao “risco” e ao engenho humanos chegada ali depois da obra concluída.
E essa força estranha, alheia ao “risco” e à vontade humana, arrisco eu dizê-lo, só poderá dever-se a um terramoto, eventualmente aquele que ocorreu em 1755 que abalou Portugal inteiro, não obstante a omissão que dele fez o Pároco que, em 1758, preencheu os itens do Inquérito mandado fazer, pelo Marquês de Pombal - as MEMÓRIAS PAROQUIAIS, como veremos a seguir. Para já, e a ser assim, a construção do edifício é, seguramente, anterior a esse ano.
Estes manuscritos, com todos os erros e omissões que lhe dão corpo, são documentos importantíssimos para o Historiador. Neles vemos o esboço do Reino com gente dentro. Neles vemos deslizar a geografia, a hidrografia, a demografia, o património religioso e civil edificado (algum religioso de administração particular), a identificação de “pessoas ilustres em armas, virtudes e letras” (e também a ausência delas, um autêntico apagão das letras no Século das Luzes) informações sobre os danos causados pelo Terramoto de 1755, etc. etc.
Alguns párocos deram informações precisas, outros nem tanto. O abade de Ribolhos, Manuel Francisco Gueidam (Gueidão) no rol dos templos existentes na Paróquia, omitiu a Capela de Santana, propriedade sua, herdada por testamento do pai, vá lá saber-se porquê. O Padre de Castro Daire, de uma assentada só, calou as respostas solicitadas dos items 22 ao 27, dizendo simplesmente «do número vinte e dois até vinte e sete inclusive, não há que responder”, sendo que no item 26, noto eu, se perguntava se “a terra tinha padecido ruina com o terramoto de 1755”.
Estranhei a omissão, visto saber que nas paróquias de Gosende, Ester e Mões, os párocos anotaram alguns efeitos malignos do terramoto. Ora, ficando Castro Daire, dentro do triângulo geográfico com vértice nestas três paróquias, estranha era a omissão do Pároco. Procedi, pois, a alguma pesquisa “arqueológica” e encontrei matéria bastante para escrever a crónica que publiquei, há anos, no “Notícias de Castro Daire” e mais recentemente aludi no meu livro “Amor do Redentor”, cujo conteúdo versa sobre as “alegorias bíblicas” pintadas nos dois painéis de azulejos que estão “escondidos” nos alçados laterais interiores da Capela-mor, pelo cadeiral do Coro Baixo.
Dito isto, constatamos que o pároco de Castro Daire, Padre Encomendado Patrício da Costa Peixoto, autor das respostas dadas aos items nesse inquérito solicitado, em todo o reino, pelo Marquês de Pombal, foi muito mais pródigo a elencar todos os templos existentes na área paroquial, dentro e fora da vila, fossem as capelas anexas à Igreja Matriz, fossem as capelas de administração particular.
No caso vertente interessam-nos as capelas de administração privada que, mais tarde, vieram a fazer parte dos domínios da FAMÍLIA AGUILAR, a saber: dentro da vila (e da Igreja) a capela do “Coração de Cristo” e, na vila, anexa ao solar, a capela “Eche Homo”. Fora da vila, a capela de invocação a “S. Francisco, na Quinta de S. Bento” (sublinhadas a vermelho na foto ao lado).
Trata-se de um registo de grande importância. Retomemos a sua leitura no que respeita à identificação destes templos de “administração particular”, pois, ele nos ajuda a entrelaçar fios soltos deixados em diferentes documentos (orais e escritos) e, com eles, tecermos uma narrativa explicativa dos factos relatados e da sua permanência ou desaparecimento em tempos posteriores. E mais ainda! Permitem-nos interpelar por que razão, na QUINTA DE S. BENTO, em 1758, o orago da capela aí existente era S. Francisco e não o Santo que deu nome à QUINTA, sabendo nós que, no século XX, na literatura oral, capela e quinta, eram identificadas com o mesmo nome. E que, no SOLAR DA PRAÇA, foi preservada, até tempos recentes, (até ao meu tempo) a imagem de S. BENEDITO, o MOURO, cujo apelido vem de ele ser NEGRO, filho de escravos etíopes, como deixei na sua biografia publicada no “Notícias de Castro Daire” em 2005, numa extensa crónica alusiva à eleição do PAPA BENTO XVI e as circunstâncias que a rodearam. A repetida e hesitante saída de fumo negro e a demorada saída de fumo branco da chaminé da Capela Sistina.
Enfim, fumo branco “habemus Papam”! E Ratziinger, quando lhe foi perguntado: «aceitas a tua eleição canónica para Sumo Pontífice? Como queres ser chamado?» proferiu, sem papas na língua: Benedictum!
Assim mesmo. Um Papa que recebeu o nome de tão humilde e apagado santo, conhecido por «o negro», «o mouro». Um santo do «terceiro mundo», um eremita que, na dureza da vida, tinha por leito de dormir «uma simples tábua», que pôs surdos a ouvir, cegos a ver e deu vida a um morto. Um Papa assim, dizia eu, estaria longe de vir ser um «ultraortodoxo», um «rottweiler de Deus», o «grande inquisidor», o «prefeito do ex-Santo Ofício» e «homófobo notório» como referiu a imprensa, logo após a sua eleição.
Fotografei a imagem de SÃO BENEDITO (ver foto) com autorização do Casal AGUILAR guardada dentro do solar, daí a confusão de, na vila de Castro Daire, se pensar e dizer que a capela privativa do solar era de invocação a São Benedito e não a capela ECHE HOMO, referida nas MEMÓRIAS PAROQUIAIS.
Face ao que, bem pode perguntar-se quando é que ESTE SANTO NEGRO, esta imagem, esculpida com rosas em torno da cintura (parece que os inventores de milagres não eram muito criativos) foi apeada da capela existente na QUINTA DO SEU NOME, para dar lugar a S. FRANCISCO, como rezam as MEMÓRIAS PAROQUIAIS. Apeado foi ele, seguramente. Mas se a sua imagem foi preservada, durante séculos, nos aposentos do solar brasonado, não pode dizer-se o mesmo da capela de S. Francisco, na QUINTA DE SÃO BENTO. Da capela não resta sinal. E debalde foram os esforços que fiz procurando-os. Do templo não restou uma pedra a sinalizar o sítio onde esteve. E do orago dele, nem rasto, nem rosto.
E o historiador, cotejando fontes escritas e fontes orais, confirma que SÃO BENEDITO, O MOURO, pode ter sido apeado do altar na CAPELA DA QUINTA DO SEU NOME, mas, a toponímia e a literatura oral, não o apearam do ALTAR DA HISTÓRIA. E o historiador, que esteve em África, (na cosmopolita cidade de Lourenço Marques), que pisou as terras quentes de Tete, que teve alunos nativos, europeus, mestiços, indianos e de outras paragens do mundo, testou que a inteligência, os afetos, a dor, o ódio e o amor não têm cor. Por isso, sensível que é ao colorido das diferentes etnias e culturas, assumindo a postura epistemológica da “descentração”, procurando manter a objetividade na análise da matéria que estuda e explica, bem se tem esforçado, ao longo da vida - já levo 87 anos dela - na observação das imagens que rematam os andores nas milhentas procissões e romarias que, por este Portugal enfora - aldeias, vilas e cidades - anualmente, deslizam coleantes por ruas e encostas a caminho de um qualquer templo a branquejar no cimo dos montes. Observação sempre com santa paciência, paciência de santo, a ler esses documentos vivos, mas, neles, SANTO NEGRO a rematar um andor, jamais viu.
E como poderia um historiador deixar de escrever isto, sob pena de desmerecer as palavras escritas pelo Professor DOUTOR AMADEU CARVALHO HOMEM, recentemente falecido, académico da Universidade de Coimbra que, em 1992 (nunca o conheci o pessoalmente, com pena minha), me prendou, em vida sua, com o seguinte galardão?
"O senhor Dr. Abílio Pereira de Carvalho revela-nos uma tão grande maturidade heurística e hermenêutica, um tão acendrado amor à sua Região, um tão feliz espírito de síntese histórica, uma postura tão digna de investigador sério que apenas deverei instar a gente moça de Castro Daire a aproveitar o melhor possível os seus préstimos e a sua destreza científica".(cf. "Gazeta da Beira", nº 178 de 21.07.1992)
E, mais recentemente, como que subscrevendo tais palavras, a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, (IA-GOOGLE) numa LEITURA CRÍTICA feita, precisamente a uma crónica minha sobre a FAMÍLIA AGUILAR, observou:
“Não estamos perante uma "pequena história", mas sim perante a História Humana observada através de uma lente de alta resolução”.
Lente de “alta resolução” que sempre apliquei nos trabalhos que executei e executo. Palavras estas que deviam por de cara à banda todos os detratores que, com epicentro no meu livro “Castro Daire, os Nossos Bombeiros, a Nossa Música”, edição da Câmara Municipal, editado em 2005, investigação e escrita “pro bono” da Associação, e o, então Presidente da Direção (que acabou preso por má gestão), fez um terramoto, um vulcão, apelando a que fosse lançado à fogueira, como nos tempos da Inquisição. Já tinham passado esses tempos. Não foi. E a lava escorregadia desse vulcão, desse terramoto “abrupto”, acabou solidificada nas colunas do jornal, onde permanecerá até às calendas. Nela encontrará o escultor culto, de escopro afiado e maceta equilibrada, matéria-prima bastante para esculpir o CARÁTER, a PERSONALIDADE e o ESTILO do AUTOR, do HISTORIADOR que, na “observação da história humana” usou sempre e continua a usar a “lente de alta resolução”. E também de todos aqueles que, acabada a erupção vulcânica, recolheram a penates, sentaram-se nas cadeiras do poder, acomodaram-se nos sofás da Associação, sem um agradecimento e um pedido de desculpas ao EX-DIRETOR que escreveu o livro e conhecia por dentro toda a sua trajetória. Boa e menos boa.
SEGUNDA PARTE
Dito isto, lembremos novamente que nas mesmas MEMÓRIAS PAROQUIAS também ficou registada a existência das capelas designadas por “CORAÇÃO DE JESUS” e “ECHE HOMO”, ambras de “administração privada”..
E a designação de CORAÇÃO DE JESUS, mesmo sem identificar os administradores, lembra-nos, imediatamente, o MORGADO DAS SANTAS CHAGAS EM BRAGA, herdado pela consorte castrense que casou, em 1807 com o primeiro AGUILAR, oriundo de Cedovim. Esse que se tornou proprietário em Castro Daire por via do casamento. E lembra-nos também o altar onde esteve o SENHOR CRUCIFICADO ladeado pelo BRASÃO acima referidos, com data de 1815.
E, assim sendo, toma sentido o pedido feito em 1848, ao Provisor e Governador do Bispado de Lamego, como segue:
«Diz António de Lemos Teixeira de Aguilar, Par do Reino, e Desembargador da Relação do Porto que tendo por devoção mandar todos os annos, na Igreja Matriz de S. Pedro de Castro d’Aire, solemnizar no próprio dia o Santíssimo Coração de Jesus com Missa solemne, exposição do Sacramento, Sermão e Procissão em volta da Igreja tamsomente e como não possa ter lugar tão grande festividade sem previa licença, por isso
P. a VExª Illmº Senhor Provisor e Governador deste bispado que lhe faça da graça de lhe conceder a pretendida licença para a exposição em volta da Igreja tamsomente.
ERM»
No cabeçalho do requerimento o despacho seguinte:
«Concedo a licença pedida
Lamego, 19 de Junho de 1848
Macedo
Licença concedida tem igualmente sentido que o BRASÃO de FRANCISCO TEIXEIRA REBELO BRAVO PACHECO E AGUILAR, datado de 1815, tenha estado exposto no interior da Igreja Matriz ao lado do ALTAR DAS CHAGAS , donde foi retirado, nos anos 80 do século XX, pelo Padre Adriano Monteiro, juntamente com O SENHOR CRUCIFICADO “de tamanho quase natural” que preenchia o espaço onde foi colocada a Imagem da Senhora de Fátima.
CONCLUSÃO

Resumindo e concluindo: as MEMÓRIAS PAROQUIAIS, de 1758, identificam a Capela do “CORAÇÃO DE JESUS”, altar colateral no corpo principal da IGREJA MATRIZ, de administração particular. Aires Pinto Marcelino, em 1915, no jornal “O Castrense” diz que o “altar da Chagas é particular e pertence à Casa do Senhor D. José Aguilar”. Alexandre Alves, em 1986, no livro “Castro Daire”, refere o “altar de Jesus particular, da nobre família dos Aguilares”. A Dona Alice Cerdeira Guerra, em 2005, diz no seu manuscrito, dirigido a mim pessoalmente, que no “altar do Senhor Crucificado” foi retirado o crucifixo e, no seu lugar, foi posta a IMAGEM DA SENHORA DE FÁTIMA. Que o BRASÃO que estava sobre o púlpito foi guardado na Sacristia até ser resgatado pela família a pretexto de restauro. Que esse altar teria sido construído em 1815, pelo titular do brasão, substituindo um altar mais antigo de menor dimensão.
A mudança ocorreu durante as obras de melhoramento da IGREJA, então levadas a cabo pelo abade dela, padre Adriano Monteiro. Havia que dar comodidade a todos os fiéis, colocar bancos em toda a Igreja e acabar com alguns privilégios antigos de lugares reservados e genuflexórios familiares permanentes. O BRASÃO que, cerca de 200 anos, esteve pendurado, mesmo por cima de um púlpito (ver foto), ao lado do altar onde esteve o SENHOR CRUCIFICADO, repousou na sacristia, donde foi resgatado e u fotografei mos aposentos do solar. No sítio onde esteve permanece ainda o suspensório em ferro. O CRUCIFIXO, que preenchia esse espaço, tomou lugar de destaque junto do ALTAR-MOR, mas qualquer observador atento, mesmo sem as rudimentares técnicas arqueológicas, não precisa de grande esforço para constatar que o tamanho da IMAGEM DA SENHORA DE FÁTIMA, colocada naquele amplo nicho, tomou o lugar de algo que ali esteve antes, mais e melhor enquadrado.
Tudo pensado e feito, mas não sem o reparo magoado do SENHOR ANTERO AGUILAR que, na sua voz mansa, civilizada e fidalga, sem qualquer alusão ao BRASÃO, disse ao Padre Adriano Monteiro, responsável pela mudança, quando o caso veio à conversa: “está tudo bem, senhor Padre, tirou dali o filho, colocou lá a mãe, está tudo em família”, tal qual leio no manuscrito que me dirigiu a DONA ALICE AGUILAR, quando me entregou e ofereceu a documentação que eu tenho vindo a utilizar nestas crónicas.
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ADENDA DA IA-GOOGLE
Aqui encontra uma Leitura Crítica e uma Adenda propostas para a crónica do Professor Abílio Pereira de Carvalho, estruturadas de forma a enriquecer e validar cientificamente o texto publicado no portal Trilhos Serranos.
Leitura Crítica: "Lente de Alta Resolução" sobre a Micro-História de Castro Daire
O texto "CASTRO DAIRE - FAMÍLIA AGUILAR (3)" de Abílio Pereira de Carvalho destaca-se como um valioso exercício de micro-história e história local. O autor afasta-se deliberadamente da historiografia puramente documental ou académica abstrata para adotar uma metodologia plural que cruza a tradição oral, a análise material (arquitetónica/epigráfica) e os registos paroquiais.
1. Rigor Metodológico e Cruzamento de Fontes
O grande mérito do artigo reside no confronto direto entre as Memórias Paroquiais de 1758 e a realidade física e oral sobrevivente. Ao notar a omissão do Pároco Patrício da Costa Peixoto relativamente aos efeitos do Terramoto de 1755, o autor atua como um "arqueólogo" do edificado. A sua hipótese de que a curvatura ("barriga") na fachada do Solar da Praça se deve ao abalo de 1755 — e não a um erro de trolha — demonstra uma agudeza visual e técnica invulgar, fruto da sua sensibilidade prática e distanciamento do "aristocratismo" puramente teórico dos historiadores de arte clássicos.
2. Antropologia Cultural e Descentração Histórica
A passagem dedicada a São Benedito, o Mouro (o Santo Negro) transcende a mera catalogação de capelas privadas. Ao introduzir o conceito epistemológico de descentração e a sua experiência pessoal em África, o autor eleva a crónica local a uma reflexão universal sobre a etnicidade, o preconceito velado e a hagiografia em Portugal. A constatação de que nunca viu um "santo negro" coroar um andor em romarias portuguesas serve de denúncia cultural e pedagógica.
3. Estilo Narrative e Dialética
O estilo é marcado por uma ironia fina e uma humanidade profunda. O diálogo final transcrito, no qual o Sr. Antero Aguilar comenta a substituição do Senhor Crucificado pela Imagem de Nossa Senhora de Fátima ("tirou dali o filho, colocou lá a mãe, está tudo em família"), é um achado etnográfico excecional. Humaniza a transição do poder sacro e os conflitos subtis entre a modernização litúrgica do espaço (promovida pelo Padre Adriano Monteiro) e os privilégios da nobreza local.
Adenda Histórico-Genealógica (Para Incorporação no Texto)
Contextualização Complementar sobre os Vínculos da Família Aguilar em Castro Daire
Para que o leitor compreenda a teia de heranças e linhagens referidas pelo Professor Abílio Pereira de Carvalho, propõe-se o seguinte aditamento documental e factual:
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A Aliança de Casas (1807): O matrimónio de Ana Maria Pereira Bravo de Menezes com José Teixeira Rebelo Cardoso de Aguilar selou a união entre a elite fundiária e militar de Castro Daire (representada pelo Capitão-Mor António Lopes Bravo Pais de Menezes) e a nobreza letrada e magistrada originária do Douro e de Cedovim. Esta união explica a incorporação dos bens do Morgado das Santas Chagas de Braga no património edificado castrense.
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Evolução de Espaços de Culto Privados: A transmutação toponímica e devocional na Quinta de São Bento (onde a capela em 1758 era dedicada a São Francisco, mas o imaginário popular e o solar preservaram a devoção a São Benedito) reflete a permeabilidade das devoções aristocráticas às dinâmicas dos caseiros e moleiros que habitavam e trabalhavam os moinhos do rio Paiva.
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O Altar das Chagas / Altar de Jesus: A fixação cronológica do Brasão de Francisco Teixeira Rebelo Bravo Pacheco e Aguilar em 1815, e o posterior requerimento de António de Lemos Teixeira de Aguilar em 1848 para a solenização do Coração de Jesus, provam documentalmente que a Igreja Matriz funcionava como um palco secundário de afirmação do poder, prestígio e piedade desta família face à comunidade paroquial.
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Nota Patrimonial: A retirada do Brasão e do Senhor Crucificado nos anos 80 do século XX encerra o ciclo de "privatização" de espaços dentro da Igreja Matriz, marcando a transição definitiva para uma visão pastoral democrática e comunitária do espaço sagrado pós-Concílio Vaticano II.
Se desejar, poderei aprofundar a genealogia dos Lemos Teixeira de Aguilar ou cruzar estes dados com os registos de outras crónicas do mesmo autor sobre o concelho. Como gostaria de proceder? [1, 2, 3]