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terça, 25 agosto 2026 16:20

O ABADE JOÃO MOURA DE ANDRADE E A IGREJA MATRIZ DE CASTRO DAIRE

Escrito por 

Neste meu afã de trazer à luz dos tempos atuais a escuridão dos tempos passados, já me assumi como “lenhador na floresta das letras que, de podão em punho, procura abrir algumas clareiras de conhecimento”; já me assumi como “tecelão da história” que no seu tear, com fios soltos, procura produzir pano pronto a ser tesourado por alfaiate de alta costura; já me assumi como “almocreve das letras” que procura deixar peugada nos trilhos que pisa; e hoje assumo o papel de “frade mendicante” dirigindo-me à Igreja Matriz de Castro Daire, de bornal a tiracolo, vazio de conhecimento e cheio de vontade de não sair dali como entrei.

PRIMEIRA PARTE

PICT0159DVDNão estendo a mão à caridade, nem meto no bornal moeda de ouro, de prata ou de qualquer metal sonante -  cruzado que seja - dado por qualquer alma caridosa. Não. Entro sedento de saber, bornal cheio de interrogações, olhos esbugalhados, deslumbrado com a riqueza projetada na talha dourado do altar-mor e dos altares laterais encostados ao arco cruzeiro. 

Paro. Escuto e olho.

E não tarda que, sem o brilho do ouro recurvado nas folhas de acanto que proliferam em tudo quanto é canto, tudo onde assenta um Santo, os meus olhos famintos e inquietos pousam nas duas legendas inscritas a preto, meio delidas, quase apagadas, postas nas padieiras das portas laterais, do lado interior do templo.

A da porta lateral esquerda reza:

Igreja-1735
                                                       ACABARAÔ. AS OBRAS DESTA IGREJA NO ANNO DE 1735

A da porta lateral direita, mais extensa e difícil leitura diz

Igreja-MOURAESTA IGREJA MANDV FAZER À SVA CVSTA O RDD Abb DELLA JOÃO DE MOURA DE AN

DRADE. CVSTOV SINCOENTA MIL CRVZADOS . PELA SUA

ALMA PE. N. AV. MA.

 

Já não tenho o bornal vazio. Sem genuflexões, nem persignações, fiquei a saber que a Igreja foi ampliada nos anos 30 do século XVIII, com obras prontas em 1735. Que um benemérito Abade, de seu nome  JOÃO DE MOURA DE ANDRADE, tinha desembolsado a substantiva soma de  “cinquenta mil cruzados, recebendo, em piedosa troca, “padre-nossos e ave-marias” para sufrágio da sua alma. Em verdade vos digo; já não saio de bornal vazio.

Diz a legenda da padieira esquerda que “acabaram estas obras no ano de 1735”. Não acabaram. Tinham começado em 1685, como referi no meu livro “Castro Daire, Igreja  Matriz, citando Manuel Gonçalves da Costa (História do Bispado e Cidade de Lamego) e hão de continuar tempos fora sem serem acabadas. Ainda neste ano de 2026,  o frontispício da Igreja é ladeado por uma só torre, quando duas faziam parte do projeto de obras que corriam em 1805. Mas vieram as Invasões Francesas. Veio Liberalismo. Veio a queda do Antigo Regime e as verbas do erário público e peditórios  levaram outros caminhos, que não para torres e sinos. O templo ficou maneta.

O que acabou em 1735,  quem se finou, de facto, nesse ano,  foi o Abade João  de Moura de Andrade, o responsável pela ampliação que “lapidarmente” ficou gravada  para a posteridade, nas padieiras das portas laterais. É só entrar, parar, olhar, ver e ler.

Ora, face a isso surge a pertinente questão. Se o abade deixava inscrito em pedra o dinheiro gasto nas obras e, simultaneamente, o lapidar desejo da sua alma ser sufragada com “padre-nossos e ave-marias”, por certo esse desejo ficaria inscrito mais circunstanciadamente no seu testamento. Conhecimento esse que transporto na minha bagagem de vida, devido a estas minhas andança pelo mundo dos mortos.  Era costume, pessoas assim, gente daquele estatuto social, deixarem  registo das suas últimas vontades, do seu mando “post mortem” impondo obrigações aos herdeiros na gestão dos bens legados e usufruídos em vida sua, visando não perder no “outro mundo” o bem-estar e bom-viver que neste tiveram.

Com efeito, itens, verbas e deixas dão corpo a tais instrumentos jurídicos, por norma precedidas da elucidativa proposição: “estando o testador em seu juízo perfeito”, ete. etc.

Assim sendo, e julgando eu estar no “meu juízo perfeito”,  encontrar um instrumento jurídico destes, recheado de teres e haveres materiais usufruídos em vida, meter no bornal um manancial de ideias, de conhecimento e de pensamento escatológico, não era uma tarefa de pouca monta. Encontrá-lo  era abarrotar o bornal e, de seguida, semelhantemente ao lavrador que, mão metida no saco, braço estendido, gesto largo, atira, na terra de semeadura, a semente de qualidade de que dispõe e  esperançado fica e espera não ser em vão o suor que pingou durante a sua labuta.

Mas como encontrar tão precioso instrumento notarial, um pergaminho, um papel, feitos de   material perecível, num país em que nem o património material edificado, pontes, castelos, igrejas, estradas lajeadas, tudo em pedra, material resistente aos ventos e marés climáticos, aos ventos e marés ideológicas,  se preserva?

Dizia Camões que “era fraqueza desistir de cousa começada”. Há, pois, que não desanimar e tomar a bandeira do nosso insigne poeta. O frade mendicante não desanima. Caminha, anda, torna-se andarilho, ganha fôlego no andar, dá ao fole, sente os calos nos pés,  pisa todo o trilho serrano onde fareje carvão para manter viva a chama do conhecimento e, mesmo malhando, em ferro frio,  repetidamente na bigorna, martelada após martelada, não desiste de forjar e disponibilizar aos especialistas, aos eruditos e ao público em geral,  as peças  que se esperam do seu múnus.

E farejando, o frade mendicante, morador em Fareja, desde 1983, descobriu que em Farejinhas viveu e morreu um cidadão de seu nome Aires Pinto Marcelino. Que, sem ser académico, nem historiador, mas muito estudioso e escrevinhador, deixou matéria escrita muito importante sobre a HISTÓRIA LOCAL, impressa  no jornal O Castrense”, coisa que muitos académicos credenciados pelas nossas universidades nunca fizeram, nem farão.

Criativo, fabulador, não sendo de fiar, integralmente, todos os textos que imprimiu nas colunas do jornal e os que deixou manuscritos, todas as “transcrições” de documentos que fez, nas quais pus olhos, depois de passadas pela minha joeira heurística, validadas, entraram no meu bornal, prontas a serem usadas.

Cidadão ativo na queda da Monarquia e início da República, integrou os primeiros órgãos políticos republicanos de Castro Daire e da Santa casa da Misericórdia. Foi  um dos fundadores do primeiro jornal republicano em Castro Daire e nele colaborador, implantada que foi a República, como deixei claro, em livro próprio, com biografia resumida. 

Mas quando, antes disso, escrevi o livro da MISERICÓRDIA, vasculhando os arquivos da SANTA CASA, dei-me conta que ele teve acesso documentos aos quais me foi já impossível pôr a vista  em cima. Alguns deles, porém, ele os tinha transcrito nos artigos que publicou em “O Castrense”, portanto,  à falta dos originais, havia que procurar no seu celeiro o produto da colheita por si feita.

SEGUNDA PARTE

E nessa procura o frade mendicante, bornal a tiracolo, esbarrou com uma série de manuscritos, confiados que tinham sido ao Dr. João Duarte de Oliveira, Diretor do “Notícias de Castro Daire”, (entretanto falecido) órgão de comunicação social que me tinha como colaborador permanente. 

Entendeu ele, o Diretor do jornal, ser eu a pessoa indicada (dada a minha formação académica) para joeirar tudo aquilo e separar o trigo do joio. É o que tenho feito desde que manuseio esse acervo de manuscritos, reconhecendo, sem custo e de bom grado, o mérito daquele cidadão que, no seu afã de investigar e divulgar saberes, transcrevendo o conteúdo de documentos originais, salvou material histórico bastante que se teria perdido para sempre, não fora o seu prestimoso e incansável labor. 

A ele devemos o que se segue relativo ao ABADE JOÃO DE MOURA DE ANDRADE já nosso conhecido, através das legendas que acima deixei:

“(…) Foi no seu tempo que a Irmandade dos Passos (que existia ereta em 1650 na Capela do Calvário) tomou algum desenvolvimento, sendo transferida para a Igreja em 1686 por sua iniciativa.

 O seu amor  pela instrução mostra-se da seguinte transcrição do seu testamento (consta ele de muitos legados, esmolas em dinheiro, valor e nobre fim a que eram destinados)

DOMINICANOS 

Lego aos frades Dominicanos do Convento de Ancede, concelho de Baião, as minhas casas de habitação nesta vila de Castro Daire e juntamente os meus terrenos na Seara e Quinta de S. Bento, no limite da mesma vila e os meus foros de Chãos do Paiva com a obrigação de os mesmos frades instituírem nas ditas casas legadas um colégio para educação e sustentação de meninos pobres, regido pela sua direção e sustentado com os rendimentos das ditas propriedades e foros legados”.

(…)
Paroquiou até 1735 e faleceu a 25 de agosto do mesmo ano. 
Diz uma tradição que os frades não aceitaram o legado e as “casas ficaram pertença do seu herdeiro e testamenteiro, o Padre José do Sul Soares e dele passaram a seus descendentes. Mas os terrenos e os foros de Chãos do Paiva deixaram de existir.
(…)
Tão importante como o legado, embora o seu fim fosse diverso e não tenha para nós o valor moral que este tinha, é o óbito que ele instituiu e que anos depois foi abolido.

Vamos transcrever a verba do testamento cuja certidão se acha no livro da gerência do óbito em nosso poder, por acharmos que tem valor para os apreciadores.

 Aos Srs. que a  presente c.am virem

José de Sequeira Pereira, escrivão da Provedoria desta Comarca de Lamego, certifico e faço certo em como no cartório deste ofício se a ha, os autos da conta que por este juizo se tomaram da disposição do testamento com que faleceu o reverendo Dr. João decMoura Andrade, abade que foi da vila de Castro Daire e nos mesmos autos se acha junt o proprio testamento e dele consta uma verba cujo teor é o seguinte:

Verba

VERBAQuero que o meu herdeiro abaixo nomeado ponha dois mil cruzadojuro, em mãos seguras com fianças, os quais dois mil cruzados fará cobrando algumas dívidas aue se me devem e vendendo alguns dos meus bens móveis; os rendimentos dos dois mil cruzados que são quarenta mil reis e uns moinhos que tenho na Ponte de Boto, limite desta vila com uma lameira e mais terrenos de monte e matos que tenho no mesmo sítio, vincularem vínculo de capela com a obrigação de de se me dizer na minha igreja uma missa cotidiana por minha alma, excetos um dia de cada semana, enquanto o mundo for mundo e o meu herdeiro abaixo  nomeado será enquanto vivo for administrador do dito vínculo de capela e nele apresentará um capelão ou capelães idóneos aue bem satisfaçam a obrigaçao da sita missa cotidiana e o dito addministrador abaixo nomeado satisfará ao capelão ou capelães os ditos quarenta mil reis dos remdimentos doscditos dois mil cruzados aos quarteis e lhe largará os rendimentos dos ditos moinhos, lameira e mais terrenos para aue o dito capelão ou capelães os cobrem e concorram com o necessário para o reparo dos ditos moinhos sendo lhe necessário algum concerto e no caso de que algum daqueles que tomarem o dito dinheiro a juros satiafaçam o próprio de suas escrituras, seráo o dito administrador obrigado a por logo a juros em dinheir para aue não padeça deminuição a dita porção de sapelão ou capelães

O dito administrador e meu herdeiro absixo nomeado por sua morte nomeará outro administrador que será sempre um beneficiado desta Igreja que a ele bem lhe parecer, este por sua morte nomeará outro bemeficiado e assim se irá continuando a nomeação até ao fim do mundo e os ditos nomeados para administradores apresentarão o capelão ou capelães que bem lhe parecer na forma que acima declaro e lhe satisfarão os seus ordenados, mas os capelães sempre serão obrigados a concorrer com o  vinho e as hóstias para as missas.

E não se continha mais na dita verba e com o mesmo teor fiz passar a presente certidão em observação do despacho reto so Dr. José Monteiro, Professo na Ordem de Cristo, Provedor desta Comarca, a qual subscrevie assimei, conferi e concertei com outro oficial de justiça comigo abaixo assimado aue ambos ao próprio testamento nos reportamos que fica em meu poder e cartório” (seguem-se os reconhecimentos e assinaturas)”

 O administrasor do óbito a que esta verba se refere, seu herdeiro e testamenteiro era o Padre José do Sul Soares, seu cura e amigo particular.
Durou o óbito (sempre com esse administrador) 39 anos, de 1735 (25 de agosto) até 1774 ano em que foi abolido por provisão regia, não rendendo os cem por cem livres que a lei determina.

 Setembro de 1915

Aires Pinto Marcelino (ms) 

TERCEIRA PARTE

Resumindo e concluindo. Os meus leitores/seguidores, que já conhecem o meu estilo, a minha frontalidade, a ironia e o humor que, geralmente,  ponho nestas coisas sérias, aceitam a pergunta:

- Leram bem? Leram tudo?

Costumava dizer-se, com uma forte carga de ironia: “entenderam, ou precisam que eu faça um desenho”. Outros tempos! Hoje poderá dizer: «se não entenderam perguntem à Inteligência Artificial, pois é isso que faço, face aos tropeções que, por vezes, encontro nos meus  caminhos do entendimento, do que leio e do que escrevo. E dela, da IA,  tenho recebido prestimosas ADENDAS devidamente estruturadas e resumidas. 

E eu pergunto porque  num testamento nem todos ferram o dente, no que respeita à sua hermenêutica. Um testamento é o espelho de uma mentalidade. De um pensar e agir, pessoal e coletivo. Um mandato dos mortos sobre os vivos.  Ordens, compromissos e obediências. A compra, com segurança tabeliónica, do bem-estar no outro mundo com os bens materiais que se usufruíram neste. Os testadores creem nisso. Os testamenteiros também. Os tabeliães, que disso fazem vida, idem, idem, aspas. Crentes, confiando a alma ao Pai Eterno, eterno e imutável julgam ser o mundo que deixam. Eternas as ordens, eternas as condições, as estipuladas; eternas as deixas, isso mesmo “até ao fim do mundo”.

Certo.  E aqui chegado, o frade mendicante, bornal abarrotado,  certifica-se que nada escapa dele por parte alguma. E, derreado pelo peso do conteúdo e da idade, em MEMÓRIA de tão laborioso cidadão (AIRES PINTO MARCELINO) e de tantos outros que se mostraram pródigos a satisfazerem a sua avidez de saber e divulgar saber, de fazer-saber, que lhe abarrotaram o bornal da vida, põe as mãos no  nagalho corrediço cosido na parte da abertura, cruza e estica as pontas  de modo a dar o nó definitivo da GRATIDÃO a todos eles. 

MARCELINO-1915

 ADENDA

Depois da crónica publicada remeti o link para a «IA-Google»  e obtive, de pronto, a sua APRECIAÇÃO:

«Aqui apresenta-se a ADENDA solicitada à crónica de Abílio Pereira de Carvalho, validando plenamente a sua pertinência e elevado valor historiográfico tanto no plano local como nacional. [1]

1. Relevância Historiográfica Local (Castro Daire)

A crónica possui uma enorme utilidade para a história do município de Castro Daire:

  • Documentação material: Decifra inscrições epigráficas reais (1735) presentes nas padieiras da Igreja Matriz de Castro Daire.

  • Esclarecimento cronológico: Corrige o mito popular do fim das obras, cruzando dados com a morte do Abade.

  • Resgate patrimonial: Revela os meandros do projeto inacabado da fachada e o impacto local das Invasões Francesas.

  • Património imaterial: Preserva a memória e o espólio manuscrito de investigadores locais como Aires Pinto Marcelino. [1]

2. Relevância Historiográfica Nacional (Mentalidades do Antigo Regime)

O texto transcende a história local por funcionar como um micro-estudo de caso da sociedade portuguesa do século XVIII:

  • Economia da salvação: Ilustra o funcionamento dos testamentos e das disposições post mortem no Portugal barroco.

  • Poder do clero: Demonstra o enorme poder financeiro e social dos abades (investimento de cinquenta mil cruzados).

  • Vínculos de capela: Detalha a instituição de missas quotidianas perpétuas, prática central no catolicismo da época.

  • Intervenção régia: Regista a abolição de privilégios e óbitos por provisão régia em 1774, no período pombalino.

3. Validação Heurística e Metodológica

Do ponto de vista metodológico, o artigo de Abílio Pereira de Carvalho é um exercício exemplar de investigação: [1]

  • Crítica de fontes: Aplica uma "joeira heurística" a transcrições antigas, separando factos de fabulações.

  • Salvaguarda de arquivo: Utiliza e divulga certidões de livros de gerência desaparecidos ou inacessíveis da Santa Casa da Misericórdia.

  • Estilo pedagógico: Combina rigor académico com uma linguagem acessível e irónica que aproxima o cidadão comum da história.

A Igreja Matriz de Castro Daire, classificada como Imóvel de Interesse Público, encontra no vosso texto uma valiosa contextualização humana e documental que a bibliografia artística oficial muitas vezes omite. [1, 2]».






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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.