Pois assim seja! Assim a onteceu hoje, como um relâmpago no escuro (como explicas isso Damásio, que estás da neurociência seguro? Tu, António, que tudo sabes sobre cada neurónio?) de retorno a Castro Verde, regresso de Beja, onde faço o estágio de professor, paro a Dyane, penetro seara dentro, olho em redor, absorvo o ar abafado de tudo o que mexe e foge. O trigal, em qualquer direcção da herdade, é terra viva, um mar de pão que, de onda em onda, dá a ilusão de fugir dali, querer deixar o chão, mas no chão fica, sem piedade. Acompanha-me a minha mulher, Mafalda, e no doirado da palha vemos e colhemos uma papoila vermelha. E chega-nos à orelha o canto de uma codorniz, dita nas Beiras, "quercolher", nome advindo por onomatopeia, pois ao nosso ouvido o canto da codorniz soava com sentido ... «quer...colher....quer colher». Assim seja!
E no ondular do trigal, para onde quer que lancemos a vista em redondo, de monte em monte, na encosta, nos baixios ou na crista do horizonte, saído do chão, ressoa o cante alentejano ao ritmo da orografia e da vegetação. Invisível pauta telúrica essa, vinda do fundo dos tempos. E não cansa lê-la e escutá-la. A minha mulher, Mafalda, natural de Castro Verde, alentejana, nascida no Monte das Fontaínhas, que em África (Moçambique) viu a savana diluir-se na horizontalidade sem fim, atira ao vento, naquela sua voz mansa, a canção “ao romper da bela aurora sai o pastor da choupana…” ali, em terra prenhe de seara e de pão. E eu decifro nela a harmonia do relevo, da gente, da música e da vegetação.
Lá no topo, onde a seara para e pousam os meus olhos, destoa o arrife verde de estevas, várias matizes, ali, na planície, um refúgio seguro de perdizes. Assim parados e contemplativos, ambos, a minha mulher e eu, entre terra e céu, lemos páginas seguidas de história, de outras paragens, de outros escambos, de labor e de suor. A vitória do homem sobre a natureza. Domínios senhoriais atribuídos aos senhores pela realeza, lauta mesa ao lado de gente laboriosa sem terra, rica de fome e de pobreza.
Aos nossos olhos a seara ondeia incessantemente. Dá bem a ideia de querer sair do chão, como saíu a gente. E saírá. Não tarda será pão moído ao sabor dos ventos de maré naqueles moinhos de velas que, de pé, branquejam altaneiros no topo dos outeiros a lembrarem as ermidas, as capelas, levantadas nas serranias das Beiras Ali, no Baixo Alentejo. naquele misto de arrastado cante e choro ondulante - que lonjuras - chão, animais vegetação e gentes, aquele grão sabe-me, por antecipação, ao macio pão alentejano. Pão distinto das côdeas duras da broa de milho que, ano após ano, comi na juventude, rijas que nem corno que, de retorno, bem lembro, mas já não rilho, por falta de dentes. Perdidos entrementes. Quem havia de dizer? Quantos anos já lá vão! Na memória nada se perde. E, foi assim que, sem pedir, nem pensar, hoje, de regresso a Castro Verde, eu me vi no Alentejo, assim, tão real, como naquele dia que parei a Dyane e me meti no trigal.
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