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segunda, 15 fevereiro 2016 17:16

SANTA MARGARIDA - COVELINHAS EM 1258

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Em 1258 Santa Margarida chamava-se «COVELINHAS»

Nas inquirições de D. Afonso III, com data de 1258, lê-se que Mauro Pelágio jurou que "(...) Linares et Faregia et Baltar et Faregias, Felgosa, Felgosia, Moastium, Os Braços, Covelias et Lamelas et Barrial de Homicio tote iste aldeole sunt de Castro et de suo termino"(1)

 

João Inês Vaz, no tratamento que dá às origens do nosso concelho no livro "Castro Daire", segue de perto este documento e diz que "Castro Daire abrangia no século XIII as "aldeolas"de Fareja, Baltar, Farejinhas, Folgosa, Mosteiro, Braços de Cá e de Lá, Covelas, Lamelas, Mezio e Felgosia, que não sabemos localizar (sic)" (2) .

Este autor, dizendo não ter localizado "Felgosia", não emitiu qualquer opinião sobre "Linhares" e "Covelias", "aldeole" que figuravam também nas Inquirições. É preciso, pois, que se diga algo mais sobre essas "aldeole".

Onde se localizavam? Deixaram elas de existir? Existem ainda, ou delas restará somente o topónimo?

Vamos saber isso acompanhados do leitor que conhece muito bem o concelho e, como tal, a situação geográfica das "aldeias" que estão próximas da vila.

Estamos nos finais do século XX. Pespeguemos os olhos no excerto das Inquirições que acima transcrevemos, feitas no século XIII. Sigamos a mão do "escriba" e fixemos a sequência gráfica que, em 1258, ele dá à identificação das "aldeole" que nomeia a partir de Castro Daire. Sigamos agora a pé, voltados a nascente: muito perto da vila, eis a quinta dos Linhares, ali mesmo à saída. Nela se fizeram, recentemente, a Escola Secundária e Centro de Saúde. Para além do topónimo nada mais resta do "casali" (3) medieval referida nas Inquirições. Sigamos em frente: eis Fareja, depois Baltar e logo a seguir Farejinhas. Flectindo à direita e um pouco para Sul, já na vertente do Paiva, eis Folgosa. Retrocedendo em direcção a Castro Daire logo encontramos a quinta de Folgosinha e, já mais perto da vila, o Mosteiro. Novamente em Castro Daire podemos dizer que nada mais fizemos do que seguir exactamente o itinerário gráfico e geográfico seguido pelo "escriba" que nomeou todas estas "aldeole". E neste nosso passeio passamos pelos Linhares (o casal que Inês Vaz não referiu) e Felgosia (a Folgosinha actual), a quinta que Inês Vaz não localizou. Partindo novamente da vila e sempre com os olhos postos no texto que transcrevemos, viremo-nos agora para norte. Avancemos: eis os Braços, logo a seguir Covelias, depois Lamelas e finalmente o Mesio.

Ora, confirmado que está que a sequência gráfica das "aldeole", nomeadas no circuito anterior, corresponde, com rigor, à sua localização geográfica actual, temos de acreditar que entre os Braços e Lamelas ficará Covelias, a terra que se tornou a razão desta nossa pesquisa no sentido de sobre essa povoação se espargir a luz da História Local.

Essa povoação desapareceu? Ou mudou simplesmente de nome? Para respondermos a estas perguntas sigamos a metodologia que nos levou a descobrir que a Gandivao medieval (dada como desaparecida por João Inês Vaz) se tornou, algures no tempo, a Póvoa do Montemuro, tal como já demonstramos em estudo anterior, publicado no "Boletim Municipal" e no "Notícias de Castro Daire".

E se Gandivao se tornou Póvoa do Montemuro em que é que se terá tornado Covelias, aldeia sua contemporânea?

Para sabermos isso, lendo as Inquirições, comecemos por verificar que 10 das testemunhas inquiridas eram naturais de Covelias. Uma era de Fareginhas e quatro tem omissa sua naturalidade. Covelias não era, pois, um "casali" tipo Linhares, nem um povoléu tipo Folgosia, tal como sugere o diminuto número de testemunhas que foram ouvidas e eram dali naturais. Chegados a este ponto atentemos na parte das Inquirições que referem os topónimos identificadores das terras enquadradas no termo da aldeia. Assim:

- "Martinus Johannes, quondam judex juratos dixit, quod Martinus Joahanniis et Pelagius de Rota de Covelias dederunt in vita sua ecclesia Sancti Petri de Castro unam bonam vineam in Covelias videlicet vinieam de Lousenia (...)"

- "Martinuns Johannes dixit quod Johannes Pelaggi et Pelagius Pelagii testaverunt eidem eclesia (Igreja de Castro Daire) duas leyras forarias Regis de jugata in termino de Covelias in loco que dicitur Thaas (...)"

- "Johannes martini de Covelias juratus dixit, quod maria Veegas dse Covelias testavit eclesia de Castro duas Leyras forarias Regis de jugata in termino de Covelias, et una jacet in Valle Guterri, et alia jacet in fine de Rozadas (...)"

- "Dominicus Johannis dixit, quod Pelagius Perro testavit ecclesia de Castro unam bauzam bonam in termino de Covelias in loco, qui dicitur Ameal sub Peso (...)"

- "Johannis martini de covelias juratus dixit, quod Johannes Johannis de Covelias dedit hermitagio Donni Roberti unam vineam in termino de Covelias in loco, qui dicitur As de Roorigo (...)"

- "Petrus Johannis de Covelias juratus dixit, quod Johannes Laurencii pater ejus et maria Menendi uxor ejus testaverunt hermitagio unum sautum in termino de Covelias in loco, qui dicitur Cabanas (...)"

- "Dominicus Michaelis juratus dixit, quod Maria Petri mater ejus testavit ecclesia de Castro unam leyram de hereditate foraria Regis in termino de Covelias in loco, qui dicitur Petra Fenduda (...)"

- "Johannes Johannis de Covelias juratus dixit, quod ipse in vita sua dedit ecclesia de Castro unam vineam forariam Regis in termino de Covelias in loco, qui dicitur Rota (...)".

- "Johannes Michaelis de Covelias juratus dixit, quod Petrus Michaelis frater ejus testavit hermitagio Donni Roberti unum sautum in termino de Covelias in loco, qui dicitur Mouzeleyra (...)"

E com estes dados na mão, convencidos que, por força da relação do homem rural com a terra, os topónimos medievais mostrariam ainda o seu vigor, qual sinete de gente humilde a marcar o pedaço de terra donde gerações e gerações de camponeses tiraram o pão de cada dia, fomos a Santa Margarida, a provável Covelinhas medieval. Ali, tal como fizeram os comissários régios, em 1258, falámos com as pessoas idosas e idóneas, conhecedoras dos sítios, dos montes e das terras onde têm gastado a vida. O resultado foi o que se apresenta no seguinte quadro:

INQUIRIÇÕES DE 1258 ACTUALMENTE

Lousenia Lousenha

Thaas (*) Chãs

Valle de Guterri Vale Cuterra

Rozadas Roçadas

Ameal sub Peso Ameal

Peso

As do Roorigo Rodrigo

Cabanas(**) Cabanas

Pedra Fenduda(***) Pedra de Nª Senhora?

Rota Roda (?)

Mouzeleyra Moreira?

Como se vê, os topónimos que, nas Inquirições de 1258, designavam as terras localizadas «in termino» de Covelias, são os mesmos que continuam a designar as terras em torno de Santa Margarida. Mais, tal como Gandivao ficou a identificar propriedade rústica nos limites da Póvoa do Montemuro, também o topónimo Covelinhas ficou ao lado de Santa Margarida recusando-se a deixar as redondezas. No mapa com que ilustramos este artigo pode ver-se a localização aproximada de cada uma das terras referidas, sendo certo que mesmo chegadinhas à povoação se encontram ainda e também identificados os sítios do Rodrigo, (As do Roorigo?) da Roda (a Rota?) e do Moreira (Mouzeleyra?).

A conclusão é óbvia: algures no tempo, a povoação de Covelinhas mudou de nome e não fora os topónimos das terras referidas nas Inquirições de 1258 nunca saberíamos isso. Daí que, estando hoje as populações alertadas para preservação de tudo quanto é património cultural se deva incluir na onda a preservação dos topónimos locais. E os topónimos locais arquivados na memória de gerações só podem passar para livros, mapas ou cartas geográficas depois de ser feita investigação local. Eles são um suporte valioso para a História Local? Quem duvida? E todo o topónimo que figure em livro ou mapa sem correspondência com a entidade que designa, está errado.

Urge investigar e corrigi-lo. Urge assumir a postura científica de que nenhum topónimo passa a escrito por via de um qualquer relâmpago de inspiração divina, como sugere a cena do filme "Moisés" no momento em que, no Monte Sinai, são escritas as "Tábuas da Lei".

cf. notas n a crónica sobre a «Povoa do Montenuro» neste site

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.