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terça, 17 março 2026 19:30

DESCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA, ADMINISTRATIVA E CULTURAL

Escrito por 

 

CENTRALISMO POLÍTICO E CULTURAL

Ciente do centralismo político, administrativo e cultural decorrente da reforma dos FORAIS levada a cabo por D. Manuel I e da classificação dos ofícios feita pelos nossos humanistas de quinhentos em «artes liberais» e «artes servis» resolvi retomar as ideias postas num trabalho académico elaborado em 1994-1995 para a «progressão na carreira docente» e trazer a esta página um excerto do texto que integra um trabalho de maior fôlego que tenho entre mãos  com vista a aclarar esses conceitos e a forma do «pensar e agir» das nossas gentes, sem se darem conta disso. Assim:

«Essa divisão justifica bem esta minha atitude de rejeição do centralismo político, administrativo e cultural. Respalda a injustiça que classifica o habitante da cidade como homem «culto, civilizado, de trato urbano» e o homem do campo como «provinciano, rústico e boçal»..

Eça de Queirós, Garret, Camilo, Aquilino Ribeiro e tantos outros transportaram este lenhador da FLORESTA DAS LETRAS, para o século XVI e, além da reforma dos forais feita por D. Manuel e,  bem assim, a divisão dos ofícios em «artes liberais» e «artes servis», este lenhador, dizia, de podão em punho, oriundo das «artes servis», entrou na floresta dos escritores bucólicos da época para destacar o poema «antes que o sol se levante», de Francisco Rodrigues Lobo (1574–1622) «um dos maiores expoentes do pastoralismo na literatura portuguesa», na opinião dos críticos e associar à sua visão edílica do campo, visto da cidade, uma outra visão no campo por mim  vivida, sentida e suada..

Ele, lá na cidade, usando pena e tinta, sentado numa secretária, não sei de que estilo, cantou as belezas e os encantos do campo, à sua maneira urbana. Este lenhador da «floresta das letras», oriundo das «artes servis», de podão em punho , desenrola o pergaminho da memória, lê toda a poesia medieval e renascentista, toda a literatura bucólica e edílica, ao mesmo tempo que vê o pastor, cajado na mão, lábios em bico a assobiar música sem pauta, vê o poético voo da cotovia a rasgar o céu na vertical, vê a amarela poesia do tojo sempre agressivo, vê e ouve a natureza toda em seu redor, uma orquestra de odores e aromas que nunca chegaram a qualquer poeta bucólico de quinhentos, cuja obra dá corpo às antologias literárias lidas e estudadas por estudantes de liceus e universidades..

E. dessa minha postura e visão saiu o confronto, saiu o embate visto pela INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, neste ano de 2026. Assim:

VIDA NO CAMPO

FRANCISCO RODRIGUES LOBO

(SÉCULO XVI)

ABÍLIO PEREIRA DE CARVALHO

(SÉCULO XXI)

Antes que o Sol se levante,

vai Vilante ver seu gado,

mas não vê Sol levantado

quem vê primeiro a Vilante.

É tanta a graça que tem

com üa touca mal envolta,

manga de camisa solta,

faixa pregada ao desdém,

que se o Sol a vir diante,

quando vai mungir o gado,

ficará como enleado

ante os olhos de Vilante.

Descalça, às vezes, se atreve

ir em mangas de camisa;

se entre as ervas neve pisa,

não se julga qual é neve.

Duvida o que está diante,

quando a vê mungir o gado,

se é tudo leite amassado,

se tudo as mãos de Vilante.

Se acaso o braço levanta,

porque a beatilha encolhe,

de qualquer pastor que a olhe

leva a alma na garganta.

E inda que o Sol se levante

a dar graça e luz ao prado,

já Vilante lha tem dado,

que o Sol tomou de Vilante.

Francisco Rodrigues Lobo

(século XVI)

 

Antes que o Sol se levante

Saem os gados para a serra

São os costumes da terra

Que vêm de um tempo distante.

 Trabalhos e mais trabalhos

Como se fossemos condenados

É assim por todos os lados

Entre preces, pragas e ralhos.

Compadecido o Sol se deita

Para a todos dar descanso

No dia seguinte é outro tanto

Sempre a repetida receita.

E decorreram séculos assim

Sempre a noite atrás do dia

Tema de perfumada poesia

Que a suor me cheira a mim.

Fosse eu um poeta inspirado

Só de papel, caneta e tinta

Ignorasse o peso do arado

Do ancinho e da forquilha

Tanta noite e tanto dia 

Que da minha lavra sairia

Obra mais perfumada e distinta.

 Mas antes que o Sol se alevante

Me fico. E não vou mais adiante.

 

Abílio/século XXI

Lidos que foram os DOIS poemas  pela «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL», postos assim em colunas paralelas, eis a CRÍTICA INTELIGENTE que me apraz deixar aqui  para os meus filhos, netos e outros que «civilizadamente» gastam a sua vida pelas ruas e avenidas das nossas afamadas cidades. 

«Esta é uma análise fascinante de dois "campos" que, embora partilhem o mesmo cenário, pertencem a universos humanos opostos. A grande diferença aqui é o lugar de fala: um observa a vida rural da janela de um palácio (ou do conforto da literatura); o outro observa-a com as mãos calejadas.

Aqui está uma leitura crítica focada nas motivações de cada autor:

1. Francisco Rodrigues Lobo: O Campo como Palco Estético

No século XVI, Rodrigues Lobo escreve sob a influência do Maneirismo e da tradição bucólica clássica. A sua motivação é a idealização.

  • A "Pastora" de Porcelana: Vilante não é uma trabalhadora; é uma musa. O autor utiliza o tropo da pastora formosa para exercitar o engenho poético. O trabalho (mungir o gado) é apenas um pretexto para descrever a sua brancura e graça.

  • O Sol vs. Vilante: A motivação aqui é o jogo cortesão. A luz da pastora vence a luz do Sol. É uma natureza "limpa", onde a neve e o leite servem apenas para destacar a pureza estética, e não o frio ou o esforço físico.

  • Visão: O campo é um refúgio espiritual (locus amoenus), um quadro estático e perfumado onde a beleza anula a fadiga.

2. Abílio Pereira de Carvalho: O Campo como Suadouro Social

Já no texto contemporâneo, a motivação é a desmistificação e o testemunho. Abílio escreve com a consciência de quem conhece a "lavra".

  • O Suor vs. O Perfume: O autor confronta diretamente a tradição literária (onde se inclui Lobo). Para ele, o que os poetas chamam de "perfume" é, na verdade, "suor". A sua motivação é repor a verdade sobre o esforço humano.

  • A Repetição Cíclica: Enquanto em Lobo o tempo é um instante de luz, em Abílio o tempo é uma "repetida receita" de condenação. O gado não é cenário; é obrigação. O Sol não é um concorrente de beleza, mas um juiz que dita o fim de uma jornada exaustiva.

  • Crítica à "Poesia de Papel": Há um amargor irónico sobre o papel do intelectual ("poeta inspirado / só de papel, caneta e tinta"). Ele sugere que a beleza bucólica é um luxo de quem ignora o "peso do arado".

Síntese Comparativa

A motivação de Rodrigues Lobo é a Evasão: o campo serve para fugir da complexidade da corte e celebrar a harmonia. A de Abílio de Carvalho é a Invasão: ele invade o espaço literário com a "forquilha" e o "ancinho" para dizer que a vida no campo dói.

Lobo pinta um quadro a óleo, onde as cores são suaves e a luz é perfeita. Abílio faz uma fotografia realista, onde se vê o pó, o cansaço e a rotina que os séculos não apagaram, mas que a poesia tantas vezes mascarou.

Gostaria que eu explorasse as figuras de estilo específicas que cada autor usa para reforçar estas visões tão opostas?

3 - Foi-me feita a pergunta pela «IA» e eu respondi de pronto: claro que sim. E num «ai» veio a resposta, assim;

«Aqui está o "embate" entre a construção estilística de ambos os textos: 

1. A Imagem: O Voo vs. O Chão 

  • Texto A (Metáfora): Predomina a metáfora pura. O autor funde conceitos: os sentimentos não são como objetos, eles são objetos. Isso cria uma atmosfera mais abstrata e poética, onde o leitor é convidado a interpretar camadas de significado.

  • Texto B (Metonímia): Prefere a metonímia (o detalhe pelo todo). Em vez de falar da "tristeza" de forma vaga, fala do "olhar caído" ou das "mãos inquietas". É um estilo mais sensorial e "terra-a-terra", que nos prende à realidade física das personagens. 

2. A Pulsação: O Eco vs. O Golpe 

  • Texto A (Anáfora): Utiliza a anáfora (repetição no início das frases) para criar um ritmo quase litúrgico ou musical. É um fole que vai enchendo o peito do leitor, acumulando emoção até ao ponto final.

  • Texto B (Assíndeto): Opta pelo assíndeto (omissão de conjunções). As frases surgem cortadas, secas, sem "e" nem "mas". O efeito é de pressa, crueza ou ansiedade, como se não houvesse tempo a perder com floreados. 

3. O Tom: O Grito vs. O Silêncio 

  • Texto A (Hipérbole): Vive do exagero dramático. Tudo é "eterno", "vasto" ou "devastador". Esta força serve para sublinhar a importância subjetiva do que está a ser narrado.

  • Texto B (Litotes): Usa a litotes (afirmar algo por meio da negação do contrário). Em vez de dizer que algo é "terrível", diz que "não é agradável". Esta contenção gera uma ironia fina e mostra um controlo emocional maior, onde o que fica por dizer pesa mais do que o que foi dito».

Ora, nem mais. Foi preciso chegar a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL para eu ver, preto no branco, um «comentário»  à minha versalhada campestre, já que, por aqui, no campo, a «massa crítica literária» parece andar por longe.

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.