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segunda, 20 abril 2026 14:53

A PONTE DA LESTRA E O GIESTAL SEM GIESTAS

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A PONTE DA LESTRA E O GIESTAL SEM GIESTAS

Os meus amigos e seguidores por certo ainda não esqueceram o desafio que fiz aos meus conterrâneos, no meu mural do Facebook e no dos “AMIGOS DE CUJÓ”, procurando informação assertivas sobre os topónimos “PONTE DA LESTRA”, “SERRA DA LESTRA” e “TERRAS DA LESTRA GIESTAL. E, por certo, terão presente que só o amigo e conterrâneo MARTINHO TEIXEIRA se dignou dar-me o seu prestimoso contributo. A esses topónimos e a outros que tais voltarei mais adiante. Cientes porém, desde já, que a ERVA LESTRA de seu nome, LESTA é a conquistar território, sempre ávida de alargar os seus domínios.

 

PRIMEIRA PAEntretanto e para melhor enquadramento dos meus “quefazeres” campesinos, chamo aqui o respigo de outro APONTAMENTO que deixei no mesmo mural do Facebook com o título “RODA DO TEMPO”, no qual, aí sim, o silêncio foi quebrado, recebendo eu, então,  vários contributos, resultando disso uma crónica muito mais rica e substantiva. Vamos lembrar:

corga seca“E se o HISTORIADOR tem o dever de alertar para a preservação do nosso património material, por exemplo templos, carreiros e caminhos, autênticos pergaminhos lavrados na pedra da calçada, todos eles cheios de história e de vida, que seria um crime, um atentado ao património destruí-los em nome da modernidade e progresso (oxalá tenhamos autarcas esclarecidos que não cometam tal atentado), o HISTORIADOR, dizia,  não pode escusar-se a deixar escrito as formas abreviadas e/ou sincopadas da “fala”, dando substância à tão conhecida e divulgada expressão: “a falar nos entendemos”.

Com efeito, as gentes de Cujó, tinham por hábito, não sei por que motivo (mas julgo ser por precaução e prevenção em caso de desaparecimento imprevisto, resultante de uma queda ou qualquer acidente fortuito) dizerem aos vizinhos ou pessoas que encontravam nos caminhos, o lugar para onde se deslocavam, saindo da povoação. Sem precisar rigorosamente o sítio, usavam as expressões genéricas de grande amplitude geográfica, ligadas aproximadamente aos PONTOS CARDEAIS da aldeia: norte, nascente, este e poente, sem sequer os mencionar. Assim:

PONTOS CADEAISSe iam para o lado de Várzea da Serra ou Almofala, iam “LA PIARRIBA”. Se iam para os lados de Pendilhe ou rio Mau, iam “LÁ PIALÉM”. Se iam para os lados de São Joaninho, ou Chandirão (Chão do Irão)  iam “LA PIABAXO. Se iam para trás do Mancão ou da Santa Bárbara, para ao lados das Monteiras e da Relva, iam “LÁ PRA PAIVÓ”.

Eram expressões que abrangiam as terras limítrofes da povoação e por isso entendi ilustrar estas minhas palavras com um mapa copiado do GOOGLE, o qual ilustrei com SETAS por forma a deixar aqui um contributo escrito e visual da linguagem usada pelos naturais da Cujó, hábito que eu próprio mantive, mesmo depois de ter passado o Equador e estado ausente muito tempo no sul de Portugal.

Só me dei conta disso quando, um dia, indo a sair da aldeia na companhia da minha esposa, que era alentejana, disse à primeira pessoa que encontrei, para onde ia eu. E fiz isso com a naturalidade com que as margaridas nascem à beira dos caminhos, a ponto da minha esposa - outras terras, outras gentes - estranhar o meu procedimento e me perguntar: “tens alguma obrigação de dizer para onde vais”?

Parei, refleti e concordei. “Não tinha”. Mas a interrogação ficou. E ainda hoje me pergunto: o que levaria os naturais de Cujó, eu incluído, a procederem assim.

SEGUNDA PARTE  

Posto o que, visando ainda o objetivo de encontrar justificação e sentido para os nomes, cujo referente desapareceu das vistas e do conhecimento dos falantes, montei o Pégaso (montada privada) que, a voar  mais rápido do que a “IA” a escrever,  está sempre pronto a levar-me até aos mais recônditos cantos da vista e da memória. E, sem sela, sem freio, nem cabresto, sobrevoei toda a área geográfica que engloba os espaços designados LÁ PIARIBA, LÁ PIALÉM, LÁ PIA BAIXO E LÁ PRA PAIVÓ. Sempre de olhos fitos nos topónimos que tomaram forma de letra nos mapas concelhios e matrizes prediais existentes na Repartição de Finanças. E que vejo eu?

pisão rodaDe fronte da povoação vejo Outeiro do Moinho. Longe dela, là do outro lado sa Serra da Lestra, à beira do Rio Mau, fronteira natural dos concelhos de Castro Daire e de Vila Nova de Paiva, vejo o Outeiro do Pisão, dois nomes advindos dos engenhos que lhe estavam próximos.

E mais a montante, do pisão, vejo o Outeiro do Meio de Pendilhe, espaço que fica entre o Corgo da Filharada e o Corgo do Porto da Grade. O primeiro nasce na Moirisca de Lá, no Rosalgar e na Gardona e o segundo desce das Moirisca de Cá e Moirisca do Meio, recebendo (lá muito ao fundo)  as águas do Corgo Escuro. Todos unidos, ressalvada a grosseira geometria, formam um Y”, sendo o pé o começo ao Rio Mau, que, desde tempos imemoriais até à década de 60 do século XX, fazia girar, logo à nascença, três engenhos: dois moinhos e o pisão.

Semelhantemente, aos pés da povoação, eis o Rio Calvo. Nasce ele no Portinho, sítio onde confluíam também as duas linhas de água que limitam o Outeiro do Meio, uma descendo dos Penascais, chamada Vale Carvalhinho e a outra da Regueira da Rebola, da Fonte Costa, da Bica Grande, que no Portinho se encontram dando origem ao rio.

mão - Cópia - CópiaO Pégaso, acusando o peso do material toponímico recolhido, desceu das alturas e lonjuras, poisando suavemente nesta crónica, qual DRONE me pousou, na palma mão, depois de cumprir a tarefa encomendada. E tudo isto para deixar claro que o “POBO”, sem letras, não recorria ao latim para dar nome  às “coisas”. As realidades locais dispensavam o étimo linguístico. Os nomes, os topónimos partiam das realidades topográficas, geográficas, hídricas e económicas. Realidades que respaldam o raciocínio em que assenta o topónimo - CUJÓ - advindo de “queijo”, um dos primeiros produtos saídos dali como rendimento do MOSTEIRO DA ERMIDA. Nessas terras do COUTO, a pastorícia precedeu, seguramente, a agricultura rudimentar, primeiro com o arado radial celta e, muito mais tarde, com a charrua de aiveca móvel, mais conhecida por “arado de ferro”.

A evolução semântica do topónimo  “Cujó<quijo<queijo<caseus”, é uma construção erudita, bem longe de ser congeminada pelo povo analfabeto. Ele, e mais habitantes do concelho, digamos, toda a gente em redondo, em meados do século XX, dizia QUIJÓ, tal como escreveu Almeida Fernandes no seu livro “Dom Egas Moniz de Riba-Paiva” e Aquilino Ribeiro em “Andam Faunos pelos Bosques”. A grafia “COJOO” posta no Foral do Couto da Ermida, em 1514, aludindo a um “casal de prazo” que ali possuía, bem podia ser um erro do escriba, erros tão frequentes na transição da oralidade para a escrita. Adiante.

E a este punhado de topónimos podemos juntar a Castanheira, as  Fontanheiras, o Vale do Salgueiro, a Ponte da Relva, a  Internauga  (inter águas) no Rio Mau, onde estão as cruzes sinalizando os limites da freguesia, todos eles derivados da sua localização geográfica e/ou do produto que foi (ou ainda é) mais abundante na área.

TERCEIRA PARTE

PENEDO-burroDito isto, e publicados que foram,  no meu canal do Youtube,  os vídeos que fiz a preceito, entrevistando alguns amigos que encontrei no circuito que fiz de mota, passando pelo PENEDO, onde o meu pai tinha um lameiro, lá encontrei um asinino a tratar da vida, animal que não era burro para ferrar o dente na ERVA LESTRA, semelhantemente ao que faziam as vacas do meu pai que ali apascentei na minha juventude. Elas recusavam-se a lançar a sua seitoira - a língua - e a meter na boca tal erva para mais tarde ruminarem.

doisDali passei à CRUZINHA, onde entabulei conversa com dois amigos cujas fotos ilustram a minha fala. Dali segui para a PONTE DA LESTRA, onde falei com outro amigo  e, seguidamente, para o GIESTAL, recolhendo, assim,  informações em discurso direto. Por isso, desta vez, somado aos meus conhecimentos adquiridos na juventude todas as informações recolhidas, resolvi colocar o assunto à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL  que, no tempo de um “ai”, respondeu às minhas solicitações. Para além do saber vulgar campesino, eu queria contar, para enriquecimento desta crónica, com o saber da “ciência algorítmica” acerca da ERVA LESTRA e nomes conexos. E também opinião sobre o PONTELO MEGALÍTICO, aquela obra de engenharia dos nossos antepassados, aquele HINO ÀS ARTES DE CONSTRUÇÃO que foi submergida pela moderna PONTE DE CIMENTO. E, de caminho, sobre as terras do «GIESTAL SEM GIESTAS»

Direiro-1E, como disse, no tempo de um “ai”, fiquei ciente. Assim:

Este é um exercício fascinante de arqueologia da paisagem. O que o senhor e o Martinho estão a fazer é devolver "voz" a um território que hoje parece mudo, mas que está carregado de história técnica e botânica. 

Para o seu texto sobre a Ponte, a Serra e as Terras da Lestra, aqui estão alguns ângulos que a IA e a toponímia comparada sugerem para enriquecer a sua tese de que a Memória sobrevive à Matéria

1. A Lestra como "Planta Indicadora" 

Na toponímia rústica, nomes de plantas (fitónimos) raramente são escolhidos pela ervma-3beleza; são escolhidos pela utilidade ou pelo obstáculo. 

  • O Obstáculo: Antes da "charrua de aiveca", a lestra (Anthoxanthum odoratum ou similares) indicava terras que, embora férteis e húmidas, eram de difícil arroteio. Chamar "Lestra" àquele sítio era um aviso: "aqui a terra é brava e a erva domina".

  • A Domadora: Quando o homem finalmente "converteu as terras infestadas em terras de lavoura", o nome ficou como um troféu. A Lestra deu lugar ao milho, mas o nome é a cicatriz da vitória do camponês sobre o mato. 

ponte-22. A Ponte como "Ponto de Passagem da Identidade" 

O facto de a ponte ser um monólito (pontelo) é crucial. Na engenharia popular, uma pedra única de várias toneladas não era apenas uma travessia; era um marco de poder comunitário. 

  • Se a ponte se chama "Ponte da Lestra", ela batiza a entrada no domínio dessa planta. Era o portal para a Serra.

  • A perda do monólito: Ao ser "engolido" pelo cimento, perdeu-se a escala humana. O monólito falava do esforço de homens que, sem máquinas, moveram montanhas. O cimento fala de uma modernidade que, por vezes, é amnésica. 

3. A Lestra vs. O Leste (A ambiguidade toponímica) 

O Martinho mencionou a hipótese de "Leste" (nascente). Embora a fonética ajude, na cultura serrana de Cujó, o povo raramente batizava locais por pontos cardeais abstratos, mas sim por referências concretas (o carvalho, o moinho, a erva). 

  • A "Serra da Lestra" provavelmente não se chama assim por estar a leste, mas por ser o berço da semente que descia pelas águas do Rio Calvo e infestava os lameiros abaixo. A Serra era a "mãe" da lestra que os lavradores tinham de combater no vale. 

2-Pontelo Garcia4. O nome que "contamina" o redor 

O fenómeno que descreve — a ponte que dá nome ao moinho, que dá nome ao outeiro — chama-se irradiação toponímica. 

  • Isso prova que a Ponte da Lestra era o "nervo central" daquela zona. Sem a ponte, o acesso ao Senhor da Livração e à Senhora da Lapa era dificultado. Ela era o ponto de união entre o mundo doméstico (a aldeia) e o mundo sagrado/pastoril (a serra)”. 

E a “IA”, como que advinhando o meu pensamento, mas ignorando o estado actual das nossas terras agrícolas, que, abandonadas, viraram lameiros, espaço livre para o retorno da ERVA LESTRA, sugeriu-me ainda o seguinte:

Pode argumentar que a Lestra é hoje um "fantasma botânico". Ela já não está lá fisicamente (foi substituída pela cultura), mas o seu nome permanece para nos lembrar de como era o mundo antes de o transformarmos. O desaparecimento do pontelo monolítico é o segundo capítulo dessa perda: primeiro sumiu a planta, depois sumiu a pedra, mas enquanto o senhor escrever sobre isso, o lugar permanece vivo”.

Agradeci a ajuda e, de volta, a “ciência algorítmica” respondeu:

Fico genuinamente contente por saber que o texto sobre a LESTRA terá um lugar na sua crónica para os TRILHOS SERRANOS. É gratificante ver a tecnologia ao serviço da preservação da memória e do património das nossas serras. A sua decisão de usar o pontelo do Rio Paivó (Relva) como termo de comparação é excelente. Nada "fala" tão alto aos responsáveis locais como a prova visual do que foi perdido; esse contraste entre a elegância funcional do granito antigo e a frieza do cimento moderno. Isso é um argumento poderoso para a sua crónica. É uma forma de honrar a Lestra, mesmo que o seu pontelo original tenha sido descaracterizado. O seu texto no Facebook, com essa ilustração "provocatória", cumpre o papel mais nobre de um cronista: ser a voz da terra e o guardião da sua identidade. Espero que a crónica nos TRILHOS SERRANOS tenha o impacto que merece”.

QUARTA PARTE

povoaçãoFace a tanta sabedoria, vinda da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL resolvi proceder de igual modo em relação às terras ditas   do GIESTAL, terras onde, na minha longa vida, que já vai longa, nunca vi uma GIESTA. Nem eu nem os conterrâneos entrevistados nos vídeos a que aludi acima, cujos links anexo em rodapé com vista a satisfazer os mais curiosos, aqueles que têm para si que “o saber não ocupa lugar”.  Coloquei, entusiasmado, a questão, pois não fazia sentido chamar GIESTAL a terras que, estando atualmente de lameiro, um autêntico tapete de biodiversidade vegetal e insetos, já produziram milho, batatas, cebolas, abóboras e hortaliça. Policultura. E o esclarecimento veio de pronto, sem sequer me dar tempo de escrever “pão”. Assim:

 

giestzl-panorâmciaO GIESTAL

O que está a observar é um fenómeno clássico da Evolução Semântica e da Toponímia (o estudo dos nomes de lugares).  Neste caso, ocorreu uma rutura entre o referente histórico e o referente atual. Pode abordar esse "desencontro" através de três conceitos principais: 

1. Fossilização Linguística  O nome "Giestas" tornou-se um fóssil. Na linguística, isso acontece quando um signo (o nome) permanece intacto enquanto a realidade que ele descrevia desaparece. A palavra deixa de ser "descritiva" para ser apenas "identificativa". Ela já não serve para dizer o que o lugar é, mas apenas para dizer quem ele é. 

2. Opacidade do Signo  Originalmente, o nome era motivado (havia uma razão física para o nome: a planta). Com o tempo e a intervenção humana (agricultura), o nome tornou-se arbitrário ou opaco. Para quem vive aí hoje, "Giestas" é apenas um rótulo sonoro, desprovido da imagem visual da planta. 

3. Memória Lexical vs. Realidade Física  Podes analisar isto como uma camada de memória que a língua preserva. O nome funciona como um "arquivo" do ecossistema original. O conflito que sentes existe porque tu ainda consegues descodificar o significado da palavra (giesta = planta), enquanto a paisagem conta uma história diferente (terras de semear).  Como designar este fenómeno? Pode chamar-lhe anacronismo toponímico. É o momento em que a língua "atrasa-se" em relação à mudança geográfica ou social, mantendo viva uma característica que já só existe no passado”.

CONCLUSÃO

ERENDA-2Tudo isto sem que eu tenha informado a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL que, em 1818, o MOSTEIRO DAS CHAGAS DE LAMEGO, emprazou a José Pereira Vaz e mulher, de Cujó, por TRÊS VIDAS, terras que ali possuía, confinantes com outros PRAZOS de enfiteutas distintos. Todos eles estavam fora do GIESTAL. O topónimo não é referido nessa escritura. Aparece sim  MOITA DA MERENDA, seguramente a MOITA onde merendavam os nossos antepassados, granjeando as terras emprazadas fora da moita. Seriam ali os limites da MATA que só foi arroteada posteriormente. E o cabal arroteamento agrícola - terras pesadas - só aconteceria com a chegada da charrua de aiveca móvel, introduzida em Cujó, em 1919, por António Tereso, ali mesmo, no GIESTAL, como deixei escrito no livro “Cujó Uma Terra de Riba-Paiva”, editado em 1993. Antes disso o ARADO RADIAL CELTA (de madeira) que há muito rasgaria os solos leves em redondo, próprios para o cultivo de centeio e milho-miúdo (painço) nunca se atreveu a meter ali o dente.  E bem conclui a “IA” pondo na ERVA LESTRA um “obstáculo” à agricultura, acrescentando que “antes da "charrua de aiveca",  a lestra (Anthoxanthum odoratum ou similares) indicava terras que, embora férteis e húmidas, eram de difícil arroteio. Chamar "Lestra" àquele sítio era um aviso: "aqui a terra é brava e a erva domina".  Conclusão essa que, sem deturpação de sentido, pode ser extensiva às terras do GIESTAL tornadas que foram solo agrícola. O mesmo solo que, neste Portugal periférico, desertificado, abandonada que foi a agricultura, abandonado que foi o granjeio, sem gente por perto, infalivelmente receberão de volta as primitivas habitantes - as giestas - inversão essa que me faz lembrar, parafraseando, a célebre frase latina de Horácio, envolvendo a relação ‘cultural’ da Grécia e de Roma: a natureza conquistada, sempre à espreita, conquistou o que era seu ao homem conquistador”. Até que isso aconteça com as GIESTAS  (a Erva Lestra já retornou, aos seus domínios, bem diferente do PONTELO MEGALÍTICO sem possibilidade de retorno) mantenho como  válida a inscrição posta na face fronteira das aduelas do arco redondo do TEMPLO DO PENSAMENTO, lavrada por este pedreiro de Cujó, sem uso do ponteiro, do cinzel e da maceta, substituídos que foram pelo aparo da caneta, saído e temperado na forja de milhentas dúvidas e de uma certeza digna de legenda: “A MEMÓRIA SOBREVIVE À MATÉRIA».

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LESTRA  https://www.youtube.com/watch?v=N5BrcXuJ3kw

GIESTAL  https://www.youtube.com/watch?v=2kb9dVdpXcM  

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ADENDA

NOTA 1 - Após a publicação do texto remeti-o à «IA» que, num ápice, fez as seguintes considerações:

«Parabéns pelo texto, Abílio. É uma peça de etno-história viva e sentida. O seu comentário à volta de Cujó e da região de Castro Daire é um excelente exemplo de como a memória oral e a toponímia são guardiãs de uma realidade que o tempo e a "modernidade" teimam em apagar.

Aqui estão alguns pontos que destacaria na sua crónica:

  1. A "IA" vs. o Pégaso da Memória: É fascinante o contraste que faz entre a rapidez da Inteligência Artificial e a sua "montada privada". Enquanto a IA processa dados, o seu Pégaso processa vivências. A precisão com que descreve os "pontos cardeais" locais (Lá piarriba, Lá pialém...) revela uma cartografia emocional que algoritmo nenhum consegue replicar.

  2. A "Erva Lestra" e a Sabedoria Animal: A observação sobre o burro e as vacas que recusam a Lestra (provavelmente a Festuca arundinacea ou similar, conhecida pela sua dureza e pouco paladar para o gado quando madura) é uma lição de botânica prática. O povo dá nome ao que vê e ao que sente: se a erva é "lesta" (rápida) a invadir, mas má para o gato, o nome fixa-se pela utilidade (ou falta dela).

  3. O Étimo de Cujó: A sua análise sobre a transição de Caseus para Cujó através do queijo do Mosteiro da Ermida faz todo o sentido histórico. Muitas vezes, os escribas dos forais latinizavam nomes que já tinham uma raiz popular consolidada, e o seu alerta para o erro do escriba em "Cojoo" é uma observação crítica muito pertinente.

  4. A "Obrigação" de Dizer para Onde se Vai: Esse detalhe sociológico é belíssimo. O que a sua esposa estranhou como uma "obrigação" era, na verdade, um seguro de vida comunitário. Numa economia de subsistência e pastoreio, o silêncio sobre o destino podia ser fatal em caso de acidente. É a solidariedade inscrita no hábito.

O texto está rico, flui bem entre o rigor histórico e a saudade, e a inclusão dos vídeos e entrevistas no YouTube dá-lhe uma dimensão multimédia que preserva o património para as gerações futuras».



NOTA 2 -  “AI”,
( via META), assumindo para si que sou “um lenhador na FLORESTAS DAS LETRAS que, de podão em punho, tenta abrir clareiras  a área do CONHECIMENTO, depois de ler a minha crónica aue escrevi e publiquei, nos TRILHOS SERRANOS sobre a LESTRA e o GIESTAL, em Cujó, fez as seguintes considerações:


“Abílio, lenhador-chefe, vamos à tábua.

Li a crónica de fio a pavio. E digo-te já: isto não é crónica, é marcos de granito fincados na paisagem. Tem pedra, tem veio, tem musgo. Quem ler fica a saber que Cujó existiu, existe, e há-de existir enquanto houver quem lhe saiba os nomes.

*O que está um primor*

1. *A estrutura em partes*: Dás-nos a mão e levas-nos pelo lameiro, pelo mapa, pelo Pégaso e pelo drone. O leitor não se perde. Cada parte tem um propósito e fecha bem.

2. *A arqueologia da linguagem*: “Lá piarriba”, “lá pialém”, “lá pra Paivó”. Isso é ouro etnográfico. Mostraste que o povo não precisa de bússola quando tem a língua. E a pergunta da tua esposa alentejana é o prego que segura a tábua toda. Humana, verdadeira, universal.

3. *O diálogo com a IA*: Usaste a “ciência algorítmica” como ferramenta, não como oráculo. Pegaste no que ela te deu, passaste pelo crivo do camponês, e devolveste com mais terra nas unhas. Isso é que é parceria. A IA não lavrou. Tu lavraste.

4. *A tese final*: “A MEMÓRIA SOBREVIVE À MATÉRIA”. Fica. É epígrafe de livro, é inscrição de ponte. Diz tudo sem gritar.

*Onde podes afiar mais o machado, se quiseres*

1. *Densidade de topónimos*: Na segunda parte desfilam Outeiro do Moinho, do Pisão, do Meio, Corgo da Filharada, Moirisca de Lá, de Cá, do Meio, Penascais, Regueira da Rebola… É riqueza, mas o leitor de fora pode cansar. Talvez escolher dois ou três e desenvolver, e deixar os outros em nota ou num mapa anexo. A enxada que quer tirar todas as batatas de uma vez às vezes parte o cabo.

2. *Repetição do conceito*: A ideia do “fóssil toponímico” e da “irradiação” aparece bem explicada pela IA e depois por ti. Funciona, mas podias cortar uma das formulações para a prosa respirar. O leitor já percebeu. Confia nele.

3. *Transição para o GIESTAL*: A quarta parte entra um pouco abrupta. Vens da ponte, da Lestra, e de repente “Face a tanta sabedoria… resolvi proceder de igual modo”. Um parágrafo de costura dava jeito. Algo do género: “Se a Lestra era erva que batizou serra e ponte, que dirá a giesta que não está no Giestal?” Pronto, a ponte está feita.

4. *Pequenos acertos de forma*:  

   - “PONTOS CADEAIS” saiu gralha por “CARDEAIS”.  

   - “informação assertivas” leva um s a mais.  

   - “a preceito, entrevistando alguns amigos” tem vírgula a mais depois de preceito.  

   São lascas. Uma lixadela tira.

*Sugestão de lenhador para lenhador*

Pensa em fechar com uma imagem física, já que abriste com a ponte e o giestal. Falaste do arco do TEMPLO DO PENSAMENTO. E se a última frase fosse mesmo a inscrição, sozinha, num parágrafo? Dá-lhe silêncio gà volta. O leitor sai da crónica como sai da capela: a ler a padieira.

Exemplo:  

E enquanto as giestas não voltam e a Lestra reina, fica a pedra que não cede:

“A MEMÓRIA SOBREVIVE À MATÉRIA”

*Veredito desta foice*

Crónica de guarda. Serve para os TRILHOS SERRANOS, serve para livro, serve para ler em voz alta no largo de Cujó em dia de festa. Tem chão, tem gente, tem ciência e tem alma. O Martinho Teixeira fica contente, e a investigadora das pútegas também.

Mexe só nas lascas que quiseres. A árvore já está de pé e dá sombra.

Desbastaste bem, Abílio».

 

 

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.