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sábado, 17 outubro 2026 12:40

SER PROFESSOR NA ESCOLA E FORA DELA

Escrito por 

O ENIGMA DAS DATAS

As minhas andanças por terras de CASTRO VERDE - de 1976 a 1983 - mal chegado de Moçambique (RETORNADO), visando conhecer o meio socioeconómico, histórico e cultural onde fui colocado, seguindo o conhecido princípio pedagógico de que “antes do conhecimento do professor chegar ao aluno, deve primeiro o conhecimento do aluno chegar ao professor”,  fui ouvindo e falando com as pessoas que se dispunham a colaborar comigo nessa minha tarefa de integração e aculturação.

 PRIMEIRA PARTE

 Com a bagagem carregada na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, navegante no “mare magnum” da «NOVA HISTÓRIA», na onda  de Fernand Braudel «o historiador quis ser - fez-se - economista, sociólogo, antropólogo, demógrafo, psicólogo, linguista (…)», (BRAUDEL, “História e Ciências Sociais” Editorial Presença, 1976,pp. 130), preparado estava eu para abrir as portas de uma ampla e generosa biblioteca oral, a par de algumas estantes e prateleiras de matéria escrita acanhada, tremida, esgrouvinhada, insegura, espécie de jeira mal lavrada, com cadabulhos onde não tinha chegado bico de arado, nem dente cortante de enxada nova.

iNSTRUÇÃOE deparei-me, então, com as “DÉCIMAS POPULARES, poemas que não integravam as  antologias liceais e universitárias, cavadelas esforçadas de camponeses recheados de pensamento crítico, explanador de paixões, reflexos de vida e de cidadania, prazeres, consolos e desprazeres, espelhos do campo social onde germinaram, floriram e, levadas pela brisa da curiosidade, do saber, fazer-saber, entreter e divertir, se espalharam por todos os lados, praças, vilas, ruas, tavernas, montes e montados. Cirandando, qual pedinte andarilho necessitado, meti tudo no bornal, sem olhar à quantidade e qualidade da esmola dada. Uma promessa minha ficava em troca da prodigalidade encontrada. Eu jamais iria derespeitar ou humilhar quem tão francamente se dispunha a saciar-me a sede e fome que me moviam por “trancos e barrancos” para proveito meu e dos meus alunos. Antes pelo contrário. Tudo o que me fosse cedido seria enaltecido com verdade, como certidão autêntica de uma comunidade que, tivesse, embora, algumas estrelas a brilharem no firmamento das LETRAS, desde o século XVI ao século XX - Bernardim Ribeiro, Garcia de Resende, Manuel da Fonseca, Florbela Espanca, entre outras, luzes luminosas a sairem dos compêndios e antologias liceais, a maioria do povo ficou-se pela frouxa luminescência da lamparina de petróleo ou de azeite.

Não era culpa sua. A ler e a escrever em bustrofédon (ignorando completramente o que isso era) granjeavam a vida e, agarrados à enxada e à rabiça dos arado puxado “a sangue” - atrelado a bois, vacas, machos ou mulas - e nisso se acomodaram durante séculos e séculos seguidos.

Quantos jovens de hoje, polpa dos polegares calejados a rolarem o tapete dos seus smartphones, iPads, tabletes e quejandos, gastaram algum do seu tempo a observar as pegadas de Bernardim Ribeiro ou de Manuel da Fonseca? Outros tempos! E eles e elas, gente do povo, gente adulta (ainda não havia toda a traquitana tecnológica que neste primeiro quartel do século XXI ocupa o mundo) naquela sua rudeza e humildade campesinas, no gesto e na fala, nem sabiam, nem sonhavam que, recebendo-me, dizendo o que sabiam, dando o que tinham, estavam a contribuir para a minha integração social de retornado, mezinhas de terapia contra as sequelas pós-traumáticas resultantes da DESCOLONIZAÇÃO.

IMG 20261017 132141 - CópiaIMG 20261017 132303 - CópiaDessas composições poéticas, DÉCIMAS ou também ditas  QUADRAS DE 40 PONTOS, recolhidas em gravador BASF, deixei uma coletânea datilografada no Município de Castro Verde. Constam esses poemas de uma QUADRA a servir de mote, que o poeta desenvolve em DÉCIMAS, sendo cada uma delas rematada, sequenciadamente, com um verso do mote. E uma delas,  reporta-se a uma enxada. Seguindo o mote o poeta conta a história desta  ferramenta agrícola, desde o mineral saído da terra, a forma forjada que recebeu, o uso que lhe deram,até  chegar ao estado de sucata e tornar-se ferro-velho. Retornada à fundição, deixou de cavar a terra, de alimentar a humanidade e  volver canhão peça de guerra. A humanidade inteira e as suas contradições na trajetória de uma enxada: primeiro a fazer pão e  a alimentar os gentes. Agora em canhão de guerra a matá-las. 

Professor de HISTÓRIA e de PORTUGUÊS este poema, datilografado em papel de cera e passado pela duplicadora da reprografia da escola, tomou frequentemente lugar nas minhas aulas. Servia inteiramente os objetivos das duas disciplinas. Fica aqui o MOTE. O texto completo está disponível neste site com o título AGRICULTURA. É só navegar, digo melhor, é só «cavar». Melhor ainda «escavar»! “

ENXADA
 

Fui nova e cortante enxada

Desbravei e cavei o chão

Fui sucata abandonada

Ando agora num canhão”.

 

 

SEGUNDA PARTE

4-Passal -RedzDeixado Castro Verde, passei a exercer a docência em Castro Daire e, apesar de ser o meu concelho de origem, procedi de forma idêntica. Dois “Castros” na versão escrita e “Crastos” na versão oral. Em ambos busquei saberes nos arquivos desorganizados, manuscritos e livros empilhados sem catalogação, espelho cristalino do interesse dos nossos responsáveis políticos e culturais.  A par disso recorri, igualmente, aos saberes transmitidos pela LITERATURA ORAL e, assumindo os papéis acima enunciados por Braudel, tentei saber e entender o que me diziam as pessoas e as pedras desaparecidas do velho “crasto”, usadas na construção dos muros de socalco das quintas e hortas em redor do burgo. Seja na Igreja e moradias do núcleo vilão.

 

No caso vertente trago à colação uma data - 1779 - inscrita em três pedras distintas e separadas, ciente que nenhuma delas viu régua, nem esquadro. Exibiam claramente as dentadas do ponteiro e da maceta,  meditas aue estavam no muro de socalco que ladeia o QUELHO DO PASSAL, estreito e ingreme que liga o Bairro da Ferraria ao topo do morro onde, outrora, se levanataram as muralhas do “crasto” que legou o nome à sede do concelho.TRIPLA-1Intrigante data essa! Inscrita em pedras distintas, qual o historiador que passaria adiante sem interpelar o significado da repetição dessa data , num curto pano de muro, pois importante significado  teria, seguramente?  Face à constatação, não descartei a hipótese das pedras serem oriundas de outras obras anteriores e, aplicadas ali posteriormente para segurança de terras de cultivo.

Tomei nota disso, fotografei pessoas que por ali passavam quotidianamente e confessaram que nunca as tinham visto (ver foto acima), fiz um vídeo que alojei no Youtube, e esperei que outras descobertas e leituras me alumiassem o quelho em que me meti em busca de saber. E seguro estava que, prosseguindo nos trilhos da investigação, mais tarde ou mais cedo, tropeçaria numa explicação plausível enquadrada num “contexto semântico” aceitável, pois certo era que esta data - 1779 - me bailava na memória desde os meus tempos da Faculdade. Joel Serrão, na sua “Cronologia Geral da História de Portugal” atribui-lhe três eventos notáveis: “Fundação da Academia Real das Ciências de Lisboa. Criação da Academia Real da Marinha. Início da Construção da Basília da Estrela. Termina a construção do Observatório Astronómico, em Coimbra, sendo que, este último evento, nos remete imediatamente para a Reforma levada a cabo naquela Universidade pelo Marquês de Pombal. A mesma data - 1779 - em que tem início a ação judicial intentada contra o ex-ministro de D. José, por Francisco Galhardo Mendanha, data em que o acusado fazia 80 anos de vida.

O QUELHO DO PASSAL faz ligação à Rua da Aguieira, este nome leva a Aguiar e este leva a Aguilar e vice-versa. E tudo isto no alfoz senhorial do SOLAR BRASONADO DOS AGUILARES cuja construção datará de 1600, segundo informação escrita que me foi prestada pela  minha colega D. Alice Guerra, segunda esposa de Antero Aguilar, o último proprietário originário de Cedovim.. Solar herdado pelo Anterinho, filho de ambos, docente que foi na Escola Secundária de Castro Daire, com o qual privei, amigo e colega, antes de ele se ter ausentado, definitivamente, para Lisboa.

AGUILARRANGELOra, matutando em torno desta data multiplicada em TRÊS (o número TRÊS e já de per si um enigma) pedras distintas integradas do mesmo pano de parede, a estes meus registos de caminhada a falar com gentes e pedras, somei mais uma moradia em Fareja que, na padieira da janela do alçado principal, dentro de uma artística cercadura retangular ornamentada com espirais e traças em forma de triângulos, tinha gravada no centro a mesma data. - 1779. Moradia essa que também pertencera à brasonada  FAMÍLIA AGUILAR em tempos idos. Num raciocínio simples dir-se-ia que esta data teria algo a ver com um evento importante ligado a essa FAMÍLIA, mostrando o seu rosto aos vindouros, mas ocultando, para sempre, o significado profundo que orientou a maceta e o ponteiro do pedreiro-livre que as lavrou, na vila e na aldeia. Pensado, dito e feito. Só que, a minha continuada caminhada  a puir os trilhos da investigação, as leituras subsequentes e o cotejo de fontes, conduziram-me ao ano de 1807. Data muito posterior à anteriormente referida naquelas pedras. Esse foi o ano do casamento de José Teixeira Rebelo Cardoso de Aguilar, natural de Cedovim,  com D. Ana Maria Pereira Bravo de Menezes,  natural  de Castro Daire, filha de António Lopes Bravo Pais de Menezes que, tal como o pai dele, foi capitão-mor de Castro Daire, cavaleiro da Ordem de Cristo e Familiar do Santo Ofício. Face aos dados recolhidos ruiu num ai o raciocínio feito. Em 1779 os AGUILARES ainda não tinham chegado a Castro Daire pelo que essa data, inscrita em três pedras do mesmo socalco, em Castro Daire, no QUELHO DO PASSAL e a outra, na fachada de uma moradia, em Fareja,  não diziam respeito à FAMÍLIA AGUILAR. Mas se os documentos escritos fizeram ruir o meu raciocínio baseado na “fala” das pedras, os mesmos documentos me disseram que tais datas bem podiam estar inscritas no  património herdado por D. Ana Maria Pereira Bravo de Menezes filha  do que foi capitão-mor de Castro Daire. E, sendo assim, isso nos remete para um tempo anterior ao Reinado de D. Maria e, portanto, a património de possíveis apaniguados do Marquês de Pombal e D. José I.

ESTUPIDES-CAPASSTUPIDES-TEXTOCerto. Com efeito, em 1777 estes dois protagonistas da nossa história pátria ficaram fora  de palco. O Marquês, que alargara os seus horizontes políticos, científicos e culturais fora do terrunho-pátrio, mal se sentou nas cadeiras do poder foi um granjear de amigos e de adversários sem fim. E a mudança tinha de operar-se no ensino.  Reformou da Universidade de Coimbra, procurando arejar o ensino com a brisa oratoriana, mais  conforme com o iluminismo europeu, introduzindo novas matérias e métodos. E a mudança afastava, forçosamente,  da instituição o mofo dogmático inaciano. E é aqui que entra o OBSERVATÓRIO ASTRONÓMICO cujas obras, como vimos acima pela pena de Joel Serrão, terminaram exatamente no ano de 1779. Com a VIRADEIRA trazida por D. Maria, as hostes políticas alinharam-se “pró” e “contra” os dois poderes em presença. E disso é exemplo “O Reino da Estupidez” esse poema manuscrito que, cerca de 1880, Melo Franco, fez correr em cópias anónimas, que chegaram a Portugal inteiro. Nele se mostra que a ESTUPIDEZ, corrida de toda a Europa iluminista, acompanhada das Fúrias,  “Fanatismo”, “Hipocrisia”, “Sperstição” “Raiva”, tinham tomado a cadeira de Minerva, em Coimbra e apagado, no todo ou em parte, o legado de Pombal.

Encontrei uma das cópias do REINO DA ESTUPIDEZ na Biblioteca Municipal de Castro Daire, onde presumo se conserve. Mesmo que, à semelhança de outro manuscrito “SERMOENS PANEGYRICOS E QUARESMAES” (anónimo e  s/d)  por mim consultado recentemente a propósito de uma crónica aue escrevi envolvendo o FREI PREGADOR ANTÓNIO DA PAIVA, natural de Fareja (falecido em 1676, em Estremoz), não constava ainda do ARQUIVO DIGITAL apesar de eu ter feito uso do seu conteúdo analógico no ano 2000, no meu livro “Julgamento”, citando a fonte e o respetivo arquivo. Estava lá, intacto, capas de couro, à minha espera. Não tinha levado sumiço entretanto, mas não pude consultá-lo de imediato.. Sorte minha, da História e da Cultura castrense e nacional.

Com a VIRADEIRA Portugal volveu  “REINO DA ESTUPIDEZ” e, portanto, natural era que os correligionários do Marquês, mesmo com ele fora do poder, quisessem associar ao ex-governante a data em que terminou o OBSERVATÓRIO - 1779 ou a data da “questã” judicial contra ele levantada, também acima referida. Ali, naquele muro de socalco, lavradas a ponteiro e maceta. Ali, naquela moradia de campo, em Fareja, feita com as mesmas ferramentas, mas com o uso da régua, do compasso,  do esquadro e prumo. Um pedreiro-livre por sua iniciativa ou a mando dos proprietários,  deixava no alfoz senhorial do capitão-mor de Castro Daire os enigmática quatro números. E data pespegada assim, de forma repetida, ela tornava-se o rosto visível de algo importante que, ao tempo, o pedreiro-livre  ou o mandante pretendeu esconder para sempre.

TERCEIRA PARTE

CASA-FRENTEEstando as coisas neste pé, assente para mim que seria esse o significado, eis que, neste ano de 2026 a moradia de Fareja entrou em obras de restauro e acrescento por iniciativa do atual proprietário, meu colega de profissão, António Miguel Silva. Pôs-me ao corrente os trabalhos por saber que eu já tinha feito alguns vídeos sobre a propriedade.

Ora, morando eu na aldeia, aceitei o convite sem pestanejar. E foi então que uma equipa de pedreiros, naturais de Cujó, a minha terra natal, sob a orientação do empresário de construção civil Brito, Salgueirinho, ex-aluno do meu colega, descobriram uma padieira de porta abandonada, soterrada, com uma enigmática data inscrita na testada. Os dois primeiros números eram de fácil leitura. Para os outros dois solicitaram o meu concurso. Tratava-se, seguramente, da padieira de um pardieiro lateral desaparecido, destinado, certamente,  a arrumações ou “loja” de animais. Corri a fotografá-la. E, sem hesitação, li o ano de 1788, mas com a parte superior dos OITOS aberta, por forma a formarem ambos o símbolo zodíaco do TOURO.

IMG 20261014 182717 - CópiaLavrada assim, aquela data suscitou-me, de imediato dois significados distintos. O primeiro era aue o pedreiro, para além da data,  quis deixar em pedra uma informação complementar: aquele espaço destinava-se à recolha de gado bovino. Outra leitura, mais sofisticada, era aue, reportando-se essa data à morte do Príncipe herdeiro D. José, discípulo que tinha sido de  Frei Manuel do Cenáculo, iluminista, um dos professores de Coimbra no tempo de Pombal e, dessa maneira, os proprietários, eventualmente simpatizantes do Marquês,  que tinham no seu alfoz, a data de 1779, na vila de Castro Daire e em Fareja, associavam todas estas personagens ao Observatório Astronómico de Coimbra, deixando lavrado na pedra, em dobro, o SIMBOLO ZODIACAL do TOURO, homenageando a CIÊNCIA contra a loucura de D. Maria que  se opusera a que o filho iluminista, educado para ser o futuro monarca, fosse vacinado contra a varíola, maleita que o vitimou.

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Nota: A trama desta narrativa assenta na existência real das DATAS referidas e factos históricos correlatos. Tudo o mais foi tecido com os fios da paciência, da inteligência, da imaginação e criatividade, por forma a produzir uma explicação plausível do enigma inerente. Um tecido pronto a ser usado por estilista de alta-costura. E este tecelão da aldeia, este lenhador na floresta das letras que, de podão em punho, procura abrir clareiras de conhecimento nesta floresta de ignorância vilã, onde os naturais da terra nunca viram tais datas, tal como nunca repararam nem leram o MONOGRAMA esculpido da esfera que remata a FONTE DOS PEIXES, apesar de lá irem beber água todos os dias, este tecelão de aldeia, repito, aguarda, humildemente, que lhe apresentem melhor pano, melhor fato e melhor esclarecimento.

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ADENDA FEITA PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 


«O ÚLTIMO FIO DA TRAMA OU A PERSISTENTE INSURGÊNCIA DAS PEDRAS»

Aos leitores destes Trilhos, e a quantos partilham comigo esta teimosia de escavar o chão da memória, adito esta nota curta, escrita à pressa com o mesmo podão com que se desbravam as silvas dos caminhos velhos. Dizia eu na crónica que o tecido aqui deixado estava pronto a ser usado por estilista de alta-costura. Pois bem, mal a tinta secou nas páginas digitais, chegou-me o eco — soprado pelo vento que desce de Cujó e rodopia no Quelho do Passal — de que o enigma das pedras teima em não se deixar sepultar pelo manto do esquecimento. Ao mestre, ao historiador e ao lenhador que em mim habitam, importa sublinhar um detalhe que a voragem da escrita quase deixou na sombra. Quando olhamos para aqueles quatro números pespegados no muro — 1779 — ou para os oitos abertos em hastes de Touro de 1788, não estamos apenas perante o cinzel caprichoso de um pedreiro-livre ou a marca de propriedade de uma burguesia rural que imitava os ritos iluministas da capital.

Estamos, sim, perante um manifesto de resistência cultural silenciosa. Num Portugal cinzento, onde a Viradeira de D. Maria I tentava apagar à força de decretos e preces o fulgor da ciência e o arejo pombalino.
Gravar estas datas na pedra rija do granito beirão era o equivalente setecentista a assinar um manifesto de cidadania. Onde o documento escrito se queimava ou se escondia por medo do Santo Ofício, a pedra falava à vista de todos, no meio da rua, fingindo-se apenas serventia de horta ou padieira de curral.,E
nganava-se o inquisidor; instruía-se o vizinho atento.

Ser professor fora da escola é isto mesmo: é continuar a desafiar os mais novos — esses cujos polegares galopam velozes sobre o vidro liso dos smartphones — a tropeçar nas esquinas do burgo, sem erguer os olhos até ao monograma da Fonte dos Peixes e a perguntar às pedras o que é que elas têm para nos contar. 

Se o pano deste tecelão é rústico ou se a clareira aberta pelo lenhador é acanhada, que venham outros com melhor engenho e ferramentas mais finas lavrar este chão. Até lá, o granito de Castro Daire continuará a ditar a sua lição cronológica a quem tiver a paciência de o escutar.

 
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.