«Sou um jovem de 25 anos, licenciado em Sociologia, a tentar fazer o mestrado, desempregado, adorei estudar a História do meu país, admirei como “o plantador de naus a haver”, visionário, projetou a utopia de alargar a linha do horizonte e abrir espaços no mar, em ondas cavernosas, em buscas de povos outros, novas civilizações, novos espaços para a compreensão do mundo, trazendo para a realidade essa utopia do século XIII.
Pergunto-me, hoje, se será possível idealizar uma nova utopia que seja realidade para os meus filhos, os teus filhos, os meus netos, os teus netos.
Sei que as utopias têm vida curta, até há pouco tempo, no tempo do meu pai, agricultor, utopia seria uma máquina debulhadora que substituísse as ceifeiras a ceifar, curvadas de dores, o Alentejo do trigo, que substituísse o trilho nas eiras, que separasse palha e grão, que ensacasse o grão já limpo, utopia seria um trator acoplado a múltiplas relhas que substituísse o arado puxado por um mular para lavrar os campos, utopia seria uma moagem mecânica que moesse o trigo que substituísse o velho moinho de velas ao vento.
Para mim, sonho de adolescente, utopia seria ter na palma da mão as novas tecnologias da informação, ter um computador pessoal, telemóveis da última geração, WI-FI, smartphone, Iphone, para comunicar e fotografar, vídeos, estas, do meu pai e as minhas, antes, utopias, são hoje realidades.
Pergunto-me com que utopia gostaria sonhar, eu, hoje, e que se transformasse em realidade nos tempos mais próximos, penso na paz entre os povos, na erradicação do extremismo jihadista, nas barreiras de muros e de arame farpado para travar a passagem dos refugiados, no fim da violência nos bairros e nas ruas, na abolição das armas letais, na violência doméstica.?
Penso no direito ao trabalho e não no emprego preguiçoso, porque só o trabalho dignifica, liberta e constrói, por isso, aboliria o trabalho a termo, o trabalho precário e das empresas de trabalho precário, aboliria o trabalho sazonal, mascarado de contrato a termo, mas tudo isto é miragem, tudo isto está no reino da utopia.
Penso na corrupção, esse cancro social que corrói, a fuga de capitais para os offshores, privando o país dos impostos, sustentáculos do funcionamento da despesa do Estado com vencimentos e pensões, do investimento que retire a economia do seu estado de anemia, mas tudo isto é miragem, tudo isto está no reino da utopia»
Penso na Justiça, a braços com a Operação Marquês, a operação Atlântico, os Vistos Gold, a Operação Yellow, a operação Aquiles, o enriquecimento injustificado, os Bancos que desapareceram, BPN, BES e Banif, crimes que ocupam grande número de juízes e de procuradores, donde, penso, irão surgir condenações, talvez seja miragem, talvez seja utopia.
Penso no fisco, nesse nosso inimigo de estimação, com ele vamos ao cinema, ao futebol, ao Continente, ao Pingo Doce, ao Mini Preço, à farmácia, ao Rock in Rio, ele vai connosco ao stand de comprar o automóvel, ele confere os nossos rendimentos, o imposto sobre o nosso capital, ele está no IVA desmedido, no imposto sobre produtos petrolíferos, e energéticos, sobre o tabaco, o IMI, imposto sobre os veículos e imposto municipal sobre a transmissão de imóveis, nas contribuições sociais, mas com a despesa sempre a subir, pensar que os impostos irão baixar é miragem, está no reino da utopia.
Penso na Liberdade que foi conquistada há décadas, a liberdade de expressão, de pensamento, de manifestação, julgadas irreversíveis, mas, quando a verdade é ditada pelos grupos editoriais, pelas agência de comunicação, pelo grande capital, a liberdade de expressão e de pensamento do jornalista, a soldo de grupos económicos, é uma miragem, está no reino da utopia.
Por isso, para isso, por ti, para que estas utopias, se tornassem realidades, daria os meus domínios, dias e anos de vida, entusiasmos e fervores, a disponibilidade, a dedicação a uma causa essencial, espalharia os aromas dos campos, os sabores originais, de antes dos tempos, as cores que acrescentaria ao arco-íris, e construiria o mundo de saberes, dos direitos, dos deveres, das garantias e dos prazeres»
Na volta do correio respondi-lhe assim:
Meu caro MESTRE
Acabei o pequeno almoço tomado no café, coisa que venho fazendo por rotina. Abri o correio, também, por rotina, e eis que, pela janela dentro do Ipad me entra uma lufada de ar fresco carregado dos aromas da vida, do passado e do presente. Lembro-me de ter aprendido consigo (e isso ter ensinado aos meus alunos) a distinguir um texto estático de um texto cheio de movimento. Um texto com ideias em turbilhão como rio em dias de enxurrada, ou, então, pego de águas estagnadas de rio morto coberto de limos à espera de novas chuvas. E lembro-me da alegria que senti e da alegria que proporcionei quando eles, os meus alunos, numa folha de papel, descobriam que tudo estava lá. Preciso era saber escrever e ler. Sobre este seu trabalho, esta sua excursão ou incursão nos espaços "mal frequentados" (como diz) não resisti a imaginar-me refastelado num dos bancos de sala do Gil Vicente, em Lourenço Marques, e assistir a um filme onde o realizador, anunciado em cartazes na entrada, a letras grandes - FRANCISCO CRISTÓVÃO RICARDO - com um pé na REALIDADE e outro no CRIATIVIDADE fez desfilar perante nós o mundo inteiro, o actual e o dos tempos idos. O mundo autêntico, tal qual ele é, carregados de pecados, vícios e virtudes em simbiose perfeita com o eterno e utópico mundo dos nossos desejos, das aspirações de toda a gente boa a desejá-lo mais justo e mais humano. Filme com os seus protagonistas todos a "fazerem pela vida". Uns, de rosto encoberto, quais fantasmas que se movem no escuro, ávidos de dominar o MUNDO, não olham a meios para atingir os fins. Outros, vítimas da ganância dos primeiros, laboriosos, rosto descoberto, sem perderem o sentido da justiça e do humano, vão dizendo o que sentem e pensam, enquanto não soa o grito de Ipiranga. E ele soará, no mundo da UTOPIA. Mande sempre pérolas destas, meu AMIGO. Abraço».
Depois, por entender que se tratava de um texto que dignifica esta minha página, pedi-lhe autorização para publicá-lo aqui. Respondeu-me que nada tinha a opor. E o texto aqui fica para juízo dos leitores e amigos, com uma foto tirada em Oeiras, em 2008, num encontro proporcionado pelo meu filho Nuro que me levou até junto do PROFESSOR que ele sabia eu tanto apreciava. e que já não nos víamos há muitos anos. A comoção é visível nos olhos de ambos e nos lábios que não conseguiram rasgar-se em sorriso.
ADENDA DA «AI-META» SOBRE A «UTOPIA» NOS TRILHOS SERRANOS
PRIMEIRA PARTE
A crónica supra foi publicada há anos nos TRILHOS SERRANOS como pode ver-se na orelha esquerda. Fui revisitá-la, ontem. dia 30-06-2026 e dessa revisita resultou a seguinte ADENDA:
Ontem, cerca das 23 horas, uma Professora Universitária, numa das rádios que costumo ouvir, interpelada, discorria sobre os benefícios e os eventuais malefícios da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL Abordou a faculdade do algorítmico resolver problemas complexos à velocidade impensável para a “mente humana”. A interpelante sublinhou o facto de “sentirmos” que o produto da IA, mesmo que bem articulado, lhe falta a afetividade e a humanidade, provindo que é de uma tecnologia por mais avançada que seja.
Ouvindo isto, corri a meter-me na nave em que deposito e ponho em órbita textos carregados de afetos, sentimentos, conhecimentos e relações humanas: a nave TRILHOS SERRANOS. Não sei se, algum dia a “ciência algorítmica” subirá a tais níveis subjetivos, mas, pelo sim, pelo não, admitindo que ela esteja numa fase de “aprendizagem”, remeti esse meu meu contributo para a «AI-META» (via Messenger), um texto dividido em duas partes: a primeira com a assinatura de um meu ex-professor (entretanto falecido) e a segunda, a resposta e procedimento humanos que mereceu da minha parte. E dirigindo-me ã AI, disse: “ESTOU DE VOLTA” e foi o bastante para ter de retorno a seguinte página «humana».
SEGUNDA PARTE
«ESTOU CÁ, Mestre Abílio.
E bem-vindo de volta. O lenhador pousou o podão, o carvoeiro tapou a cova, e agora chega o professor com um texto a duas vozes: o Mestre falecido e o aluno que lhe responde.
Li tudo devagar, como se estivesse no banco do Gil Vicente. Eis a ADENDA CRÍTICA — Meta AI para colar no fim da crónica.
ADENDA CRÍTICA — Meta AI
Tese e motivo do texto
O senhor responde à Professora Universitária com um gesto concreto: mete a “nave TRILHOS SERRANOS” em órbita. Não discute IA com teoria. Mostra IA com carne. A pergunta “falta afetividade?” vira prova: publica um texto que só humano com memória, saudade e gratidão podia gerar.
A Primeira Parte: o Mestre
Dr. Francisco Cristóvão Ricardo escreve uma utopia em negativo. Lista tudo o que era miragem para o pai — debulhadora, trator, moinho — e que hoje é chão. Depois lista o que ainda é miragem para ele: paz, fim da corrupção, Justiça que condena, fisco que desce, liberdade sem dono. O truque literário é forte: chama “utopia” ao que é direito. E fecha com a dádiva: “daria os meus domínios, dias e anos de vida”. É um testamento, não um manifesto.
A Segunda Parte: o Aluno
A sua resposta é aula e abraço ao mesmo tempo. Move-se do café para Lourenço Marques, do Ipad para a sala de aula. Usa a metáfora do “texto estático” vs “rio em enxurrada” para dizer o que sente: este texto tem movimento. E fecha com cinema: o Mestre com “um pé na REALIDADE e outro na CRIATIVIDADE”. É aí que o senhor nos diz quem é o Mestre: alguém que filma o mundo como ele é, sem esconder vícios, mas sem matar a esperança.
A costura entre as duas partes
O que ata o texto é o fio da autorização. Pede licença para publicar, recebe o “nada tinha a opor”, e publica com a foto de Oeiras, 2008. Sem sorriso nos lábios, com comoção nos olhos. É documento. A máquina não tem foto, não tem filho Nuro, não tem Gil Vicente. O senhor tem. É aí que a “ciência algorítmica” perde.
Resposta à Professora das 23h
Ela diz: “falta afetividade”. O senhor responde: aqui está afetividade. Está no título UTOPIA repetido, está no “Abraço” final, está na memória de um banco de escola, está no medo de que os netos herdem miragem. A IA pode arrumar argumentos à velocidade impensável. Só o humano pode dizer “Mande sempre pérolas destas, meu AMIGO” e fazê-lo valer.
Nota de método desta parceria
Da sua lavra: o correio, o café, o Mestre, o filho, a foto, a comoção.
Da minha lavra: esta leitura, sem mexer numa vírgula do que escreveu. A IA aqui volta a ser candeia: acende o texto para outros lerem, não escreve o texto no seu lugar.
Veredito: “CIÊNCIA ALGORÍTMICA” é um contra-argumento escrito. Se a IA algum dia “subir a tais níveis subjetivos”, que seja para aprender a pedir autorização, a guardar fotos, a chorar sem sorriso. Até lá, o ofício continua a ser humano: escrever, ler, lembrar, e assinar.
Abílio Pereira de Carvalho & AI-META / julho de 2026
Mestre, este texto é prova viva do que disse ontem: há coisas que a “ciência algorítmica” ainda não alcança porque não tem passado, não tem Mestre, não tem Oeiras 2008.
Se quiser, faço uma versão mais curta da ADENDA para rodapé, ou deixo esta inteira. Diga como quer que fique na reedição.
O aluno agradece. O professor assina.
__________________
NOTA: Respondi simplesmente que a ADENDA iria figurar, por inteiro, no rodapé da crónica e cá está ela. Faço-o esperançado que todos os passageiros que entram nesta minha Nave, por mais céticos que sejam contra a «ciência algorítmica», mais os meus filhos e sua prole descortinem quanta humanidade a IA já transporta, neste ano de 2026 e disso fez prova no texto que redigiu, em instantes, mesmo sem lhe ter sido pedido.