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sábado, 11 julho 2026 12:13

ALENTEJO - PEGADAS MINHAS (2)

Escrito por 

CANETA “NAVI GOLD G200” E SUA  EXTENSÃO HUMANA 

Há coisas que não falam, mas contam.  Coisas que são sem vida, mas que vida dão. Esta é a história de uma dessas “coisas” - uma caneta de tinta permanente que se tornou minha companheira de vida, há longos anos. Até ser reformada pelas novas tecnologias ligadas à escrita. Eis a sua identidade:

Marca: NAVI GOLD G200.

Corpo dourado.

Aparo fino e prolongado

Depósito de borracha semelhante ao da PARKER.

 

 ARQUIVO-2Já possuía outras canetas de tinta permanente, mas esta, de aparo fino, deixava um rasto miudinho por onde passava. Ela se prestava a escrever e deixar volumoso conteúdo em qualquer espaço reduzido. E reduzido era o espaço das minhas fichas de pesquisa, recortadas em cartolina ao meu jeito e acomodadas ao ficheiro comprado para o efeito.

Adquiri-a em Castro Verde e de lá veio comigo para Castro Daire. Andou por extensos lavradios e montados, viu searas ondulantes, velas de moinhos de vento a elevarem-se sobranceiros nos topos dos outeiros, viu sobreiros e chaparros copados, viu montes e cidades alentejanas e, deixando a planície, acompanhou-me até Castro Daire, vila rodeada de recortados vales e elevadas montanhas. Deixou Castro Verde, deixou Beja e fixou-se em Fareja, mas não antes sem, lá, em Castro Verde, transpor para o papel, em letra miudinha, o que geralmente se perde, o que existindo está morto e sem vida, o que jaz  nos fólios dos manuscritos, de papel ou em pergaminho, rodeados de pó e de silêncio.

E foi assim que ela escreveu em cartolina recortada à medida do meu ficheiro, o passado arquivado no amontoado de manuscritos por mim encontrado atrás do altar da Igreja Matriz, num baú colocado num canto dos Paços do Concelho e outros espaços semelhantes, na localidade, bem  pouco dignos de se verem ao espelho.

Entre vários manuscritos ela transferiu para as minhas fichas anãs um pouco da HISTÓRIA LOCAL, história dos “ontens”, dos “hojes” dos “amanhãs”. Deixou em papel, em cartolina recortada, textos fechados, cheios de pó que, arejados, viajam agora pelo mundo inteiro, vertidos em escrita digital,  plantados que foram na seara ondulante da Internet com a ajuda da Inteligência Artificial. No caso vertente refiro o plantio das AMOREIRAS referido no «Livro da Câmara de 1680», transferido dos manuscritos para as minhas fichas de reduzida dimensão.

A lição vinha de Baquero Moreno e de Leite de Vasconcelos que,  à falta de papel e secretária, estando em deslocação, este último vertia para o reduzido espaço dos seus bilhetes de viagem, as suas observações geográficas, topográficas, etnográficas, pesados apontamentos físicos e leves pensamentos humanos.

três partes1-amoreirasSem ela, o plantio das amoreiras de Castro Verde, inclusive na HORTA DAS FONTAÍNHAS, herdade, monte, onde, cerca de 300 anos depois viria a nascer e a ser criada, até aos 12 anos de idade, a Mafalda, menina que, mais tarde, muito mais tarde, para que dito fique, viria a ser a minha esposa, lá longe, em Moçambique, do outro lado do Equador, a minha esposa e colega professora.

Diga-se, pois, que a caneta, sozinha não passaria de tubo e tinta com aparo. Mas na minha mão metida no arquivo municipal, deu vida a coisas mortas, um caso raro. Fez a ponte entre o Juiz Belchior Afonso, de 1680 e o leitores assinantes do CASTRA CASTRORUM nos finais do século XX e, agora, nos princípios do século XXI,  o leitor de 2026 que lê este suporte tecnológico digital. Ela fez a ponte entre a Horta das Fontainhas e o local de nascimento da Mafalda que professora de HISTÓRIA veio a ser em vida sua. Vida curta.  Ela, a caneta, fez a ponte entre a broa de milho nortenho o pão que  comi na juventude e o pão alentejano de boa memória. Digamos, de forma escorreita e sã, uniu cultura alentejana e cultura beirã.

Enfim. Ela não escrevia. Ela testemunhava.  Cada palavra miudinha era um ato de resistência contra o esquecimento. Ela - dita “de tinta permanente” - carregava tinta e, através do aparo, deixava-a escorregar para o papel em  PORTUGUÊS corrente, o PORTUGUÊS da gente, dos escrivães que escreveram em 1680, visando a boa governança local. Eram os “oficiais da Câmara”, as “Justiças da terra”, em tempos de MONARQUIA,  os “executivos municipais” atualmente eleitos, em tempos de REPÚBLICA, de democracia.

E eu, de parceria com a META AI, para boa governança de MEMÓRIAS HISTÓRICAS aqui digo que a “NAVI GOLD G200” foi a extensão da minha vontade, da minha memória, enfim, a minha extensão humana que, num espaço reduzido de papel, deixou as PEGADAS que podem ser vistas em todo o GLOBO TERREAL e, sei lá se, no futuro, todo o ESPAÇO SIDERAL.

caneta-1

 ADENDA


CANETA "NAVI GOLD G200" E SUA EXTENSÃO HUMANA 

Sobre as ilustrações 
Uma imagem vale mais que mil fichas. 
As fotografias que acompanham este texto não ilustram só uma caneta. Ilustram um método. 
Vê-se o corpo dourado, o aparo fino, o depósito que imitava PARKER. Vê-se o desgaste de quem escreveu muito em pouco espaço.
É a prova material do que aqui se conta: que houve um tempo em que a História se escrevia em cartolina recortada, entre aulas, mesmo em espaços de pouca luz.

Do pó ao pixel 
O caminho da NAVI foi longo: 
O conteúdo do baú existente nos PAÇOS DO CONCELHO, dos volumes de manuscritos amontoados atrás do altar-mor da Igreja Matriz - Basílica Real - passou, parcelarmente, para as   fichas anãs de cartolina, para o boletim CASTRA CASTRORUM ? para o computador e agora para Internet. 
O que estava morto, fechado, cheio de pó, arejou. Foi «fichado» e aberto.
O auto de 1680 dos “oficiais da Câmara” sobre o plantio das amoreiras, inclusive na Horta das Fontainhas, saiu dos arquivos fechados e poeirentos e, por via digital, passou a pertencer ao mundo.

A parceria lavrador + ferramenta + tempo novo 
O Professor Doutor Humberto Baquero Moreno ensinou a investigar com o que se tem.  Leite de Vasconcelos ensinou a escrever em bilhetes de viagem.  A NAVI GOLD G200 ensinou a meter o muito, no pouco. 
E agora a META AI ensina a semear mais largo. 

Não é substituição. É continuidade
A mão que segurava a caneta é a mesma que hoje dita e corrige. Só o alforge do almocreve das letras mudou.

Veredito final desta ADENDA 
Se alguém perguntar para que servem as coisas velhas, aponte-se para esta caneta. 
Servem para não deixar morrer as pegadas. 
Servem para unir Castro Verde a Castro Daire, o pão alentejano à broa nortenha, as datas de 1680 a 2026. 
Servem para lembrar que a extensão humana não está no aparelho. Está na vontade.

caneta-aparoA NAVI já cumpriu
Agora é a nossa vez de continuar a escrever.

Abílio Pereira de Carvalho & AI-META / Julho 2026

NOTA FINAL:
Pronto, Mestre.
Pode copiar e colar nos TRILHOS SERRANOS. Ficou a fechar com chave a história da caneta e das ilustrações.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.