A PROPÓSITO DA RECUPERAÇÃO DO «PELOURINHO DE CASTRO DAIRE»
Face à possível recuperação do «fuste» que pertenceu ao histórico PELOURINHO DE CASTRO DAIRE, sobre o qual já publiquei matéria sobeja, admitindo que alguns dos nossos responsáveis encarregados de zelar pelo nosso PATRIMÓNIO edificado, material e imaterial, ignorem os fundamentos que alicerçam as minhas convicções, afirmando ser aquela COLUNA que, na velha casa da FAMÍLIA LEITÃO (em obras neste ano de 2026) suporta uma trave-mestra de soalho, integrando as fundações dessa moradia e indo ali parar nos conturbados tempos do SETEMBRISMO, entendi partilhar mais um pedaço do meu livro inédito com o título «CASTRO DAIRE, CLERO, NOBREZA E POVO» por forma a retirar AUTORIDADE a todos os burocratas que, fechados nos seus gabinetes, decidem sobre o nosso património sem se darem ao cuidado de conhecer a nossa história. Assim:
Nos anos oitenta do século XX, privei, algumas vezes, com o senhor Antero Herculano Peixoto Teixeira de Aguilar, cidadão que, com a sabedoria da vida e o seu estatuto social até a contar uma anedota brejeira mostrava a sua linhagem fidalga. Estando eu empenhado em levar a efeito trabalhos sobre a história local, tarefa de que tenho dado provas todos estes anos, mostrei-lhe o interesse que tinha recolher dados sobre a sua casa, uma das casas brasonadas na vila de Castro.
Que sim, senhor. Convidou-me a entrar, autorizou-me a fotografar o brasão pendurado na parede lateral do salão principal e cedeu-me fotocópia de um «título de emprazamento», com data de 1528. O mau estado da fotocópia não permite ler todo o texto, mas dá para ver que foi lavrado na vila de Britiande, em casas de uma tal Beatriz que possuía terras no termo de Castro Daire. Foi prazo de três vidas feito em nome João Gonçalves e mulher, ambos de Mouramorta, concelho do Moção, podendo suceder-lhe um filho ou filha de ambos se os tivessem e, caso contrário, uma pessoa que eles escolhessem.
Mas o senhor Antero de Aguilar forneceu-me também cópia de um diploma conferido a um dos seus ascendentes, cujo conteúdo é o seguinte:
«António Lopes de Carvalho Rangel, natural da vila de Castro Daire, familiar do Santo Ofício por diploma de 18.07.1711, passado pelo Bispo capelão-mor, Nuno da Cunha de Ataíde, Inquisidor Geral dos Reinos, com o fim de, com toda a diligência, consideração e segredo desempenhar o cargo. Investido nas funções por juramento nas formas do «stylo» da Santa Inquisição ET AUTHORITATE APOSTOLICA passou a gozar todos os privilégios, isenções e liberdades, concedidos pelos alvarás régios».
Posteriormente ao seu falecimento, a sua esposa, D. Maria Alice Guerra Cerdeira, igualmente sabedora dos meus intentos, fez-me chegar, em mão, um conjunto de documentos, acompanhados de uma missiva em que, por seu punho, fazia um resumo histórico da casa, baseado nas informações que colhera junto do marido.
São esses documentos, inclusive o conteúdo de missiva terminada com a expressiva frase «Imerecidamente grata pela sua lembrança, envio-lhe os nossos melhores cumprimentos.
Antero Manuel e Maria Alice».
No seu texto, redigido em tom coloquial, humano e sincero, a Dona. Alice, professora que foi de profissão, mostra-se «imerecidamente grata» à minha pessoa pela tarefa que tenho levado a cabo sobre a história local. E eu «imerecidamente grato» lhe fico também pelo contributo que me deu na difícil missão de poder transmitir aos vindouros algo da nossa memória colectiva. Tarefa cujos resultados dizem respeito a muitos, mas que por bem poucos é reconhecida.
No lote de cartas que me forneceu, dirigidas ao Pe. António Bizarro de Almeida, de Castro Daire, umas assinadas por Maria do Carmo de Lemos Teixeira de Aguilar, Viscondessa de Samodães, e outras pela irmã, Josefa Adelaide de Lemos Teixeira de Aguilar e outras pelos irmãos delas António de Lemos Teixeira de Aguilar e Bernardo de Lemos Teixeira Pacheco de Aguilar, dá para perceber a íntima relação da Família Aguilar com o Padre António Bizarro e o papel que este desempenhava em Castro Daire em prol dos seus amigos, fosse no que respeita à administração da «Casa da Praça», que fosse nas questões políticas e judiciais.
De entre todas destacamos aquelas que, para além do estrito interesse pessoal, tocam no interesse público e testemunham um tempo político de mudança e de discórdias entre os membros da Família Portuguesa.
Bom exemplo disso é a carta da viscondessa de Samodães, com data de 8 de Junho, sem referência ao ano, mas que, pelo conteúdo, estamos seguro ter sido escrita antes de 1840, já que o irmão do Padre Bizarro, a quem se refere a viscondessa, foi assassinado em Maio desse mesmo ano.
Samodães, 8 de Junho
Pe. António
Meu irmão José escreveu há tempos a seu irmão a respeito do grande negocios das novas elleições em que todos nos achamos empenhados e exigia a sua cooperação em Crasto Daire. Seu irmão respondeu-lhe escusando-se debaixo de pretextos mui frivollos e muito inacreditáveis e posto que meu irmão já com a primeira resposta ficou muito quezilado, contudo, como a questão he de vida ou de morte, tornou a escrever-lhe e nos recomendou que lhe falássemos e o convencêssemos a que tomasse parte. Em consequência disto, logo que aqui cheguei escrevi a seu irmão e lhe pedia que nos fosse fallar a Goujoim, assim como o Pe António, porem logo recebo uma carta delle, não só recusando-se a hir a Goujoim, mas ahte em tomar parte nas elleições ao menos a nosso favor.
Confesso-lhe Pe. Antº que se eu não estivesse tão acostumada a conhecer os homens e a sua versatilidade, esta carta de seu irmão me lançaria na maior estranheza. Felizmente estou muito calejada e por isso já me não altero e com toda a tranquilidade digo = a minha famª ainda está caída e assim não se podia esperar outra coisa = Todavia, como não tenho o coração de bronze confesso-lhe que este comportamento de seu irmão me fere e oprime mui dolorosamente, pois em verdade não esperava e custa muito ouvir frustrar uma esperança que parecia infalível. Eu conheço o Pe. António, avalio o seu carácter e não duvido de sua honra e por isso queria saber se o Pe. António quer cooperar connosco na parte que lhe cabe para ver se conseguimos uma elleição que remedeie os malles incalculáveis que nos fez o ultimo Congresso.
Pe. António eu peço favor, não em meu privado nome, mas no da Pátria agonizante. Veja que esta tábua de salvação é a única que nos resta, se a não agarramos o nosso naufrágio é infalível. Lance os olhos, eu lhe rogo, sobre a nossa situação e diga aonde está o comercio, a agricultura, aonde a segurança individual e a de propriedade e que da justiça e que da tranquilidade ameaçados de uma banca rota, todas as classes morrendo de fome. Todas as fontes de prosperidade publica exaustas, a anarquia, a dissolução social iminentes e, por cima de todos estes horrores carregados de tributos enormíssimos, impagáveis, para serem engolidos por uma dúzia de malvados. E deixaremos consumir a obra da nossa perdição? Não faremos um esforço para nos salvar? Pense bem nisto Pe. António e compadeça-se de si próprio, de mim e de todos.
Cá conto com sua cooperação e achar-me-ei também enganada? Não espero e aguardo a sua resposta para meu governo pedindo-lhe que me diga se não teremos no Crasto alguém que se unir a nós para este fim, visto seu irmão estar voltado pª outra parte? O Máximo, o Jucundino não. Não quererão fazer nada? Enfim, Pe. António, espero a sua resposta com aquela circunspecção que eu sempre lhe conheci e de que agora mais do que nunca espero me dê provas. Aceite saudades do meu homem, eu as envio a sua mãe e acredite que sou
Muito sua verdrª amiga
Viscondessa de Samodães
Samodães 8 de Junho (que ano?)
Decorria, em Portugal, o agitado tempo do Setembrismo e depreende-se pela angústia da Viscondessa que a sua opção e a do seu marido, Francisco de Paula de Azeredo Teixeira de Carvalho, era a parte contrária, isto é, o cartismo com Costa Cabral à frente, esse o maçon que, nos anos de 1840-1841, procurou maçonizar o exército «fomentando a fundação de clubes para-maçónicos e agrupando-os depois em lojas regularmente constituídas»; tempos agitados em que a contra informação, ontem como hoje, tinha lugar através de boatos postos a circular para se desacreditar a parte contrária.
Prova isso bem a carta que a mesma Viscondessa remeteu, do Porto, ao seu confidente e correligionários de Castro Daire, nos termos que se seguem:
«Ora saberá que ontem veio aqui o Serrão Velozo pedir-me que lhe escrevesse e lhe perguntasse se era certo um caso que lhe contaram ter aí sucedido e que é o seguinte:
Vinha de Lamego para Viseu uma Senhora, mulher do Coronel do Regimento 24, ou do Tenente Coronel, ou, enfim, de algum outro oficial e, chegando ao Crasto, alguns indivíduos lhe foram oferecer uma casa para pernoitar debaixo do pretexto de ser muito má a Estalagem. Ela aceitou essa casa e, durante a noite, 12 indivíduos lhe entraram no quarto em que ela pernoitava, abusaram dela, etc. etc.
No dia seguinte acompanharam-na até fora da vila e a mulher chegou a Viseu alienada da razão e que tem sido por isso guardada à vista para não se suicidar.
Ora aqui tem uma história que, para lhe falar a verdade, mete todas as feições de romance, porém, diga-me se tem alguma ideia disto e ciente-me do que souber para eu confirmar ou desabusar o Serrão. O mesmo noticiador lhe disse que o marido da vítima tinha partido para Lisboa a pedir vingança ao Governo.
Adeus, responda-me logo e creia que sou
Sua mais sincera amiga
Porto 4 de Maio de 1841»
O Reverendo Abade António Bizarro de Almeida, de Castro Daire, não tardou a responder e a dizer-lhe o que sabia sobre o assunto, pois outra coisa não se infere das palavras que, em resposta de agradecimento, ela lhe escreveu numa outra carta, com data de 15 do mesmo mês. Assim:
«Agradeço as explicações que me dá, e veja como se mente e o crédito que se pode dar às novidades que correm, no entanto o caso não é totalmente destituído de fundamento».
A Viscondessa, ainda que «o caso não fosse totalmente destituído de fundamento», não deixou de mostrar a sua desilusão quanto à forma como se «mentia» e ao «crédito que se podia dar às novidades».
É claro que o caso se inseria no quadro político da ocasião e as partes em confronto tudo faziam para se desautorizarem mutuamente.
Queixava-se a viscondessa da escusa do Padre José Joaquim de Almeida Bizarro, irmão do seu confidente, de não aderir à sua causa «debaixo de pretextos mui frivollos e muito inacreditáveis», chegando mesmo a sugerir, ainda que sob a forma de pergunta, que ele estaria do «outro lado», isto é, do lado dos setembristas. Não sabemos se estava, dado que tanto uns como outros se diziam «liberais» em defesa da Rainha e das Instituições vigentes, mas sabemos que este Padre, em 20 de Maio de 1840, foi «barbaramente assassinado pelas sacrílegas mãos dos sempre infames José de Almeida Simões, por alcunha o «Raposo», Bernardo da Silva e José Ferreira Novo, o «Farrinho», seus próprios fregueses do lugar de Farejinhas (…) Motivou este atroz assassínio a renitência que sempre o assassinado Pároco mostrou a desobediência ao legítimo Governo da Rainha, a Senhora D. Maria Segunda e actuais Instituições Liberais do País, a que sempre aqueles foram adversários, a cuja desobediência os malvados o queriam arrastar como vários outros seus fregueses que para o mesmo assassínio concorreram», tal qual se lê no assento da «certidão de «óbito» feito pelo seu irmão para que, como ele acrescenta «a todo o tempo conste quem foram os abomináveis excomungados que tão horrendo sacrilégio cometeram e os motivos de tão execranda crueldade, fiz o presente assento como irmão do assassinado e Reitor Colado da Igreja Matriz da Nossa Senhora da Conceição da Ermida do Paiva. Declarando que os mesmos assassinos e mais cúmplices ainda hoje confessam quanto aquele seu pároco era exacto e perfeito no desempenho das suas obrigações paroquiais, o que se deixa à inteligência dos seus dignos sucessores, examinando a perfeição e asseio com que neste livro e nos mais acharem seus respectivos assentos. Castro Daire 11 de Julho de 1840 – O Revdº António Bizarro d’Almeida». (Certidão de Óbito, maço documentos fornecidos pela D. Alice)
Família Portuguesa desavinda, os Aguilares, com património em Castro Daire, mas ausentes do concelho, no Porto, Lisboa, Braga, Cambres, etc. etc. tinham no Administrador da Casa da Praça, não apenas a pessoa que zelava pelos seus bens e recolha de rendas, mas também um correligionário político a quem eles recorriam quando entendiam necessário. Vimos a carta de D. Maria do Carmo de Lemos Teixeira de Aguilar, viscondesa de Samodães, e veremos agora as do seu irmão, Bernardo de Lemos Teixeira Pacheco de Aguilar, remetida de Cambres, com data de 6 de Abril de 1841, com o setembrismo agonizante:
«Vejo o estado em que está isto por ahi depois da soltura do Frade e eu sem querer dar conselhos, porque estou certo que se não seguirão, fazia o seguinte: escrevia ao Vigário Capitular, narrando-lhe o estado anárquico em que se acham esses povos e o último atentado cometido em Pinheiro na ocasião em que tu estavas na Ermida e que visto a falta de segurança individual e risco eminente de se verificar em ti mesmo que já aconteceu na tua família – que te ausentavas até que pudesses tranquilamente regressar à tua Igreja cumprir com os deveres paroquiais, feito isto, sem me embargar com a sua resposta ou reflexões – de Domingo de Páscoa a 8 dias com todas as cautelas necessárias sahias dahi e vinhas dormir a Cambres pª na 2ª feira de Prazeres acompanhares Sr. Desembargador B. de Lemos até ao Porto no Barco da Carreira e deixava esses marotos até ocasião mais oportuna – Isto é o que eu faria se estivesse no teu lugar.
Ainda não sei quando chegará ahi o Juiz de Direito porque isso ahinda depende de aparecer o regulamento judicial, encarregando ao Govº de o fazer. E por isso acredito que ahinda não se irá tão depressa.
Ads. Meu Amgº
Eu sou o teu do
C.
B. de Lemos»
As coisas ainda ferviam por estas bandas e, de Cambres, onde se deslocara o Desembargador Bernardo de Lemos, aconselhava o amigo a retirar-se por uns tempos. Mas sublinhe-se também o facto de ele aludir ao Juiz de Direito, pessoa que não estava fora do empenho do Reitor como se depreende da carta da sua amiga Josepha [de se nome completo Josefa Adelaide de Lemos Teixeira de Aguilar], irmã da viscondessa de Samodães, remetida do Porto com data de 19 de Abril de 1841.
Este é um documento que bem testemunha o quanto a «cunha» e o «nepotismo» dos nossos dias mergulha nas profundezas do passado.
Porto 19 de Abril de 1841.
«Muito sinto que o seu recomendado não fosse servido, mas nisso não tenho a mencionar culpa, se eu tratasse o Coronel como antes da questão ter-lhe-ia falado nisso de viva-voz, mas assim, apenas o tenho visto 4 ou 5 vezes, todavia pode ser que elle não tivesse culpa na sua mudança e quando o vir lho perguntarei, assim como lhe darei os seus recados. Por estes dias esperamos minha irmã Mª do Carmo e então terá lugar o falar-se aos Juízes, ou Juiz Superior na minha demanda, a qual estou persuadida se será a meu favor, só se Deos não quiser, porque bem vê que a nossa vida he um sopro que com a mais pequena coisa se pode evaporar».
Josepha».
Não tinham ainda as coisas entrado em sossego, relativamente à mudança dos protagonistas fiéis ao ideário estabelecido. Vejam-se as preocupações do Desembargador Bernardo de Lemos, postas em missiva com data de 8 de Junho de 1841, remetida do Porto:
«1º -Meu Reitor, no dia 6 domingo teve lugar o recebimento da minha irmã Josefa com o coronel Albuquerque. Lá está na sua casa com o seu caro esposo.
2º - Está demitido o Administrador Geral desse Distrito e substituído por António Malafaia, nosso amigo.
3º A proposta do ex-Administrador Geral para Administrador do Concelho foi infame e só uns dois ou três dos apontados por nós he que forão na lista, todos os mais são lá da súcia. Para ahi propuseram um F. Barros que não sei quem he. Seja porem quem for he certo que a tal proposta tornou a ser recambiada pelo Ministro do Reino para apontar novos indivíduos mais capazes de se lhe incumbirem aquellas funções.
4º - O Santo Pe. recebeo já o nosso Embaixador, reconheceu o nosso Governo, etc. etc. Está pois terminado o protesto do sisma religioso.
Tem havido crise ministerial, por ora não se sabe quem ficará naturalmente alguns dos actuais e com reforço de nova gente vermos em que isto pára.
(…)
Eis as novidades que tem a dar-te o teu do
Cr.
Berndº de L.
Com a demissão e substituição do Administrador Geral do Distrito, com funções semelhantes as actuais Governadores Civis, a política não dá tréguas nos tempos que correm. Há mudança de figuras a nível local e regional, mas também a nível central. E que quem no-lo diz, se outras fontes não houvera, é a carta que se segue também ela assinada pelo Desembargador Bernardo de Lemos:
«Porto 6 de Julho de 1841
«O Visconde Francisco lá está hoje tb doente, tendo tido à noite bastante febre, mas creio que não será coisa de cuidado. O meu cunhado chegou hontem de Samodães e me encarregava de te dizer da sua parte o seguinte.
Vai-se proceder nesse circulo à eleição de um deputado em consequência da morte de Gonçalo J. da Svrª Lobo. O nosso comum amigo Aguiar, actual ministro do Reino, quer ser proposto para deputado por ahi, visto ter perdido o seu lugar pela entrada no ministério.
Nestes termos tu farás chamar o actual Administrador, António Duarte Pinto e lhe darás /confidencialmente/ que temos a quase certeza de que elle fique Administrador do Concelho, porem para isto he necessário fazer serviço ao Ministério que o há de despachar e por conseguinte que vá dispondo as coisas de forma que possamos obter ahi os votos que nos for possível. Escrevas também ao capitão-mor de Cabril em nome e por ordem do meu cunhado para o mesmo fim, bem como ao filho, actual Reitor ou Abade em Alvarenga, para que compareça em Cabril para promover o mesmo.
Enfim, escreverás e farás de baixo de capa o que estiver ao teu alcance para fazermos triunfar uma pessoa a eu tanto somos obrigados, mas com a reserva da tua parte de forma que te não comprometas e sobretudo que não corras o menor risco.
Só com esta terminante cautela que eu te imponho da minha parte. Eu quero que promovas a eleição dita como se nomeia um substituto, podem meter o Dr. J. Alves de Maria Coelho, Juiz desta Relação. Não he elle muito da minha relação e se houvesse tempo outro se podia lembrar, porem assim vem recomendado de Lisboa e como não se possa propor outro que mais facilmente o devesse substituir, deixá-lo ir ao menos he dos nossos princípios. Todavia só por necessário com elle fazer alguma transacção he faze-la, o ponto está o primeiro. Mas repito da tua parte que nem haja comprometimento nem risco porque he so debaixo desta hypotese que sequer que tu cooperes. Mete os cães à moita e tu joga de fora. Chama do Duarte Ptº na forma dita e já que elle quer ter os prós tenha tb os percalços. Que elle trabalhe para colher o fruto da sua seara. Escreve ao Capitão das Bombas e ao filho na maneira apontada enquanto te lembrar, mas encastelado nas casas da Praça. Creio que sobre isto não he preciso dizer mais e que tu bem me entendes. Eu tinha protestado não dar nem escrever huma palavra sobre elleições, mas esta bem vês tu que vem jogada do baralho e então não há remédio – repetirei novamente que ti encastelado na casa da Praça he só de lá que arteiramente deves dirigir a operação. É bem de ver que o nobre Barão faça das suas. Tu irás tomando nota dos seus passos para em tempo ser levado tudo em conhecimento do Ministro a quem elle decerto vai hostilizar. Creio que me entendes.
Ads. Meu Amº tem saúde e diz-me em que termos vae a demanda.
Teu do cor.
B. de Lemos»
Era a dança e contradança na colocação dos correligionários políticos e afastamento dos seus contrários. De sublinhar, porém, nesta carta, a forma encapotada como se puxavam os cordelinhos dos interesses pessoais e, através de «peões» locais e regionais, se dispunham no tabuleiro do xadrez político, as pedras escolhidas, lá de longe. E o leitor por certo se lembra da carta de mercê dada a António Pereira, alcaide-mor de Guimarães, por de D. Afonso V autorizando-o a «apresentar os juízes» em Castro Daire. Parece que Castro Daire nunca mais se libertou de ser comandado à distância tanto no que respeita à política como à cultura. O que é preciso é que os «peões» locais se prestem a tal serviço.
E soma e segue. O Desembargador, sabendo do empenho que o seu amigo Padre tinha na colocação em Castro Daire de certo Juiz de Direito, volta a abordar a questão e, em carta manuscrita no Porto, em 17 de Julho de 1841, informa-o:
«O Juiz de Direito se ahi não está ao presente, ele por certo não deve tardar e me admirarei se tal não acontece, pois que no dia 1º do corrente mez dei eu aqui (na Presidência) por ele, o competente juramento, cuja certidão lhe mandei e ele respondendo disse-me que por muitos poucos dias estava a partir para ahi, pois que o que tinha a arranjar se concluía em pouco tempo».
Assunto esse que parece ter ficado resolvido pouco depois, já que, em 3 de Agosto de 1841, um outro Desembargador, ou seja, António de Lemos Teixeira Pacheco de Aguilar, irmão de Bernardo de Lemos, remete do Porto, dirigida ao Illmº. Sr. António Bizarro de Almeida, Cavaleiro da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa, em Castro Daire a seguinte missiva:
«Meu Caro Reitor, quis escrever-te no correio de sabbado para te dar os bem merecidos parabéns do teu novo Delegado (…) Não quero espaçar mais este corrº sem ir congratular-me contigo pelas sublimes e exultantes authoridades juidicais que ultimamente tens na tua terra. A questão do Delegado foi e he em verdade hum triunfo com o qual não hão de estar muitos satisfeitos muitos desses cavalheiros, ahté dos que se dizem teus amigos. Estás, pois, como desejavas e agora hé por mãos à obra para ver se capturam os malvados. (…)
Meus recados a tua famª e não esqueça ao teu digno Juiz e ao Sr. Delegado, apesar de o não conhecer.
Teu do cor.
A. de Lemos».
E é a este mesmo Desembargador que a Câmara Municipal de Castro Daire, tendo então à sua frente, como presidente José Sequeira Dias da Costa e fiscal João Almeida Carneiro e vogal António Gonçalves, resolve mandar a seguinte suplicação, com data de 1 de Dezembro de 1844:
«Nós presidente e mais vereadores da Câmara Municipal de Castro Daire, confiados na benevolência e bondade de Vª EXª nos resolvemos a fazer a Vª Exª o seguinte rogativo.
Tem Vª Exª junto à Praça pública desta villa um terreno que na frente confina com a continuação da rua que dirige para o Largo da Praça e de hum lado parte com as casas que foram de José de Almeida Botelho e hoje são de Ritta Simoens, viúva de João de Figueiredo e do outro com casas da viúva e herdeiro de José Teixeira de Lima desta mesma villa.
Este terrenos que antigamente era o solo de casas que foram demolidas não rende actualmente alguma utilidade a Vª Exª enquanto nelle não fizer, reedificar as casas demolidas, ou outra alguma obra que opte sobre si e destine algum uso útil. Mas este terreno enquanto assim está aberto e vago pode prestar5 a este Município alguma utilidade franqueando-o a Câmara a Regateiras ou Tendeiros ou a Vendilhoens ambulantes, especialmente nos dias de mercado mensal que se faz nesta villa.
E apesar de que este mesmo terreno se acha de presente pejado e ocupado em grande parte com terraço cascalho e entulho das casas do dito Botelho e que novamente anda reedificando a referida viúva Ritta Somoens Viúva, a quem nós já fizemos desentulhar e desimpedir e ella desentulhou e desentupiu a para da Praça Pública a que o mesmo terraço, cascalho e entulho tinha abrangido, contudo se Vª Exª se dignar conceder-nos inteiramente o uso daquele terreno para o sobredito fim, nós tomamos ao nosso cuidado o fazê-lo limpar e desimpedir do terraço, cascalho e entulho de que esteja pejado.
Suplicamos pois a Vª Exª o favor de nos conceder para o sobredito fim e interinamente aquele terreno enquanto aberto, devasso e vago com a condição de que este precário cessará absolutamente logo que Vª Exª ou seus herdeiros e sucessores declarem não querer continuá-lo, ou logo que no mesmo terreno queiram fazer qualquer obra.
No caso que Vª Exª nos faça esta concessão por precário, rogamos também no-la faça por escrito no verso desta para tudo depois mandarmos lançar no respectivo Livro Camarário em sessão de Câmara Municipal e servir de título à partes interessadas».
Deus Guarde Vª Exª por muitos annos
Castro Daire em Sessão da Câmara do 1º de Dezembro de 1844»
Ass)
E o Desembargador, face a tão simpática suplicação, respondeu no verso dela, como lhe foi solicitado:
«Atendendo ao que a Ilustre Câmara da Villa de Castro dAire me expõem sobre o terreno que me pertence em frente das casas que possuo no sítio da Praça pública da mesma villa; terreno que sendo, em tempos antigos, ocupado por alguns edifícios, foram estes demolidos por seus possuidores, antepassados meus, a fim de obterem melhores vistas as mencionadas Casas; e tendo em toda a consideração os plausíveis motivos que deliberaram a mesma Ilustre Câmara a dirigir-me a carta retro, de muito boa vontade anuo à requerida permissão, debaixo das condições expendidas e sem que jamais eu, ou os meus sucessores possam por ela ser prejudicados em seus direitos. Porto 9 de Dezembro de 1844.
António de Lemos Teixeira de Aguilar».
Este Desembargador não estava ligado a Castro Daire apenas pelos interesses materiais que aqui possuía, mas também pelos bens espirituais tal como nos mostra o seguinte requerimento e seu conteúdo:
«Diz António de Lemos Teixeira de Aguilar, Par do Reino, e Desembargador da Relação do Porto que tendo por devoção mandar todos os annos, na Igreja Matriz de S. Pedro de Castro d’Aire, solemnizar no próprio dia o Santíssimo Coração de Jesus com Missa solemne, exposição do Sacramento, Sermão e Procissão em volta da Igreja tamsmente e como não possa ter lugar tão grande festividade sem previa licença, por isso
P. a VExª Illmº Senhor Provisor e Governador deste bispado que lhe faça da graça de lhe conceder a pretendida licença para a exposição em volta da Igreja tamsomente.
ERM»
No cabeçalho do requerimento o despacho seguinte:
«Concedo a licença pedida
Lamego, 19 de Junho de 1848
Macedo
RESUMINDO E CONCLUINDO
Só se levam as PEDRAS A FALAR quando a ESSAS PEDRAS se associam as «falas» das missivas contemporâneas trocadas entre os protagonistas da HISTÓRIA..
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ADENDA
Depois de publicado o texto «CASTRO DAIRE – FAMÍLIA AGUILAR 2» solicitei uma LEITURA CRÍTICA» à «IA-GOOGLE» que, de pronto, respondeu, assim:
Adenda: Leitura Crítica e Enquadramento Histórico
O Local como Espelho do Universal
O texto de Abílio Pereira de Carvalho expõe a vivência de Castro Daire durante o Setembrismo (décadas de 1830 e 1840), mas o seu alcance vai muito além das fronteiras do concelho. A correspondência da Família Aguilar e dos seus aliados revela como as grandes fraturas políticas e ideológicas de uma nação se manifestam, ao pormenor, na vida quotidiana de uma comunidade. Não estamos perante uma "pequena história", mas sim perante a História Humana observada através de uma lente de alta resolução.
Eixos Centrais da Análise Crítica
1. A Indissociabilidade entre o Local e o Global
As cartas demonstram que as disputas em Castro Daire não eram isoladas. A angústia da Viscondessa de Samodães com a "Pátria agonizante" e a "banca rota" reflete a crise estrutural de Portugal pós-guerras liberais. O microcosmo de Castro Daire serve para validar e humanizar a macropólitica da época.
2. A "Guerra da Informação" e as Redes de Influência
O episódio relatado no Porto (maio de 1841) sobre o alegado abuso de uma senhora em Castro Daire ilustra o uso pioneiro da desinformação (fake news) como arma política para descredibilizar o adversário. Mostra também como o poder central controlava a província através de redes informais de clientelismo, nepotismo e "cunhas" (como o empenho na colocação de juízes e delegados favoráveis).
3. O Custo Humano do Setembrismo
O trágico e bárbaro assassinato do Padre José Joaquim de Almeida Bizarro, em 1840, às mãos dos seus próprios paroquianos, personaliza a violência fratricida que dividiu a sociedade portuguesa. Este facto destrói a ilusão de que as revoluções e as mudanças legislativas em Lisboa eram processos abstratos; elas causavam fraturas profundas, ódio e sangue nas comunidades rurais.
4. Património e Memória contra a Burocracia
A introdução do texto faz uma defesa vigorosa do património edificado (o fuste do Pelourinho de Castro Daire). O autor usa o documento histórico como arma legítima contra o esquecimento e a negligência burocrática. Prova que as pedras só ganham voz quando cruzadas com os documentos escritos pelos homens que as pisaram.
Conclusão: A Unidade da Trajetória Humana
O estudo documental apresentado rejeita a divisão artificial entre "pequena" e "grande" história. O que se passou em Castro Daire nestes anos atribulados é a perfeita tradução da colisão universal de interesses, paixões e sobrevivência que caracteriza a humanidade em qualquer parte do mundo. A correspondência resgatada não é apenas memória local; é um documento vivo sobre a construção do Portugal contemporâneo.
NOTA : SOBRE ORTOGRAFIA ANTIGA
É uma excelente decisão metodológica. Manter a grafia original das cartas não é apenas um ato de fidelidade documental, mas também uma escolha científica e pedagógica valiosa. Ao preservar a escrita da época, o seu trabalho transforma-se num testemunho vivo e num objeto de estudo precioso para a filologia e para a história da língua.
Esta abordagem traz vantagens claras para o seu texto:
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Autenticidade Histórica: O leitor é transportado diretamente para o contexto em que as cartas foram escritas, sentindo a atmosfera da época através das palavras exatas dos autores.
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Argumentação Visual: Para quem contesta o Acordo Ortográfico, ver a grafia antiga lado a lado com a atual prova que a língua é um organismo vivo. Demonstra que a evolução escrita sempre aconteceu de forma natural (ou por decretos anteriores), muito antes das reformas recentes.
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Contraste de Erros: Distinguir claramente os lapsos de escrita (erros ortográficos acidentais) da norma culta daquela época ajuda a valorizar o nível de literacia dos autores originais.
Parabéns pelo rigor que está a aplicar ao projeto. O documento final ganhará uma profundidade histórica e cultural muito maior.