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quarta, 26 agosto 2026 14:29

CASTRO DAIRE - IGREJA MATRIZ - RETÁBULO DAS ALMAS

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Os meus últimos trabalhos publicados, a propósito da FAMÍLIA AGUILAR, na tentativa de deixar um esclarecimento sobre o altar do CORAÇÃO DE JESUS, e do BRASÃO dessa FAMÍLIA, datado de 1815, que ladeou esse altar PRIVATIVO (já assim considerado em 1758) levou-me à IGREJA MATRIZ DE CASTRO DAIRE e a “mirar” e “remirar”  o singular RETÁBULO DAS ALMAS, que fica no lado oposto do ALTAR citado.

 

BRASÃO-1815Tendo visto esse RETÁBULO no tempo em que foi descrito no livro “Castro Daire”, edição da Câmara Municipal, 1986, pelo historiador Alexandre Alves (já falecido), estudioso a quem muito devo, confrontando as minhas MEMÓRIAS e o TEXTO com o estado do atual RETÁBULO ali existente (uma peça singular de Arte Sacra)  interpelei a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL fazendo duas perguntas:

PRIMEIRA: Alexandre Alves, por desconhecer o autor da pintura, interpela se não teria sido Nicolau Nasoni, pintor naquele tempo radicado no  Porto e que por Lamego  teria andado nas obras de reconstrução da velha catedral? 

SEGUNDA: Em que pontos a atual pintura de afasta ou aproxima do RETÁBULO descrito por Alexandre Alves e se eu estaria a ver a mesma obra de arte que tinha gravado em MEMÓRIA?

Juntei texto e foto e, de retorno, o esclarecimento foi rápido, eficaz e convincente. Assim:

A – TEXTO DE ALEXANDRE ALVES (que enviei)

IGREJA MATRIZ - RETÁBULO DAS ALMAS 

Alexandre Alves, in «CASTRO DAIRE», 1986

«O retábulo das almas é o mais espetacular, o mais monumental.. Vale bem a pena uma visita a esta terra montemurana  para se apreciar tão notável obra de arte.

Uma grande sanefa de talha dourada, de intradorso decorado com pinturas a óleo, abriga grandiosa máquina, recheada de pormenores escultóricos de macabro, extremo realismo:  tíbias, caveiras, bustos humanos descarnados, como que a relembrar a todos a transitoriedade desta vida. Ao centro num grande painel da pintura a óleo, já muito escurecido, destaca-se o vulto do Arcanjo e S. Miguel no ato de retirar as almas do Purgatório, com a ajuda de anjos e de santos, notadamente S. Bernardo e S. Francisco. Entre as colunas salomónicas, assentam sobre consolas as quatro belíssimas imagens de madeira, encarnadas e douradas dos grandes Patriarcas, S. Francisco de Assis, S. Bernardo, S. Bento e S. Domingos».

(Autor desconhecido)

DVDB - RESPOSTA E ESCLARECIMENTO DA IA-GOOGLE

«A sua dúvida é totalmente legítima e a resposta é direta: sim, está a ver o mesmo retábulo, mas há um pormenor crucial que justifica o seu estranhamento. O texto do historiador Alexandre Alves descreve o Retábulo das Almas na sua configuração original e histórica, enquanto a fotografia que está a contemplar reflete o estado atual da peça, que sofreu profundas alterações visuais e iconográficas ao longo do tempo (particularmente devido a restauros, repinturas ou mesmo substituições de painéis).

Para compreender onde a pintura e a estrutura se aproximam ou se afastam do texto de 1986, analise os seguintes pontos de confronto:

1. Onde a imagem se APROXIMA do texto (A Estrutura de Talha)

  • A "Grande Máquina" Barroca: A envolvência arquitetónica que descreve — a monumental sanefa de talha dourada, o intradorso e as imponentes colunas salomónicas (aquelas colunas em espiral, típicas do barroco joanino) — permanece lá.

  • O Macabro e o Realismo: Os pormenores escultóricos "macabros" de tíbias, caveiras e bustos humanos descarnados (elementos de Vanitas ou Memento Mori) fazem parte integrante da estrutura física da talha deste altar dedicado às Almas do Purgatório, servindo para lembrar os crentes da brevidade da vida.

  • Os Quatro Patriarcas: As imagens em madeira estofada e dourada de S. Francisco, S. Bernardo, S. Bento e S. Domingos continuam posicionadas nas consolas laterais entre as colunas, tal como o historiador identificou.

2. Onde a imagem se AFASTA do texto (A Pintura Central)

O grande choque visual e a razão da sua pergunta residem quase de certeza no painel de pintura central:

  • O texto de Alexandre Alves: Descreve uma pintura a óleo antiga, "já muito escurecida", onde a figura central era o Arcanjo São Miguel a resgatar ativamente as almas do Purgatório, ladeado por santos intercessores (com destaque para São Bernardo e São Francisco).

  • O que a imagem atual revela: Se a pintura que vê hoje estiver limpa, for clara ou contiver uma disposição de figuras diferente (por exemplo, focando-se mais na Virgem do Carmo, na Santíssima Trindade ou num São Miguel com outra estética), isso deve-se ao facto de o painel ter sido restaurado, limpo de forma profunda ou integralmente substituído/repintado após a escrita do texto.

  • Quando as pinturas antigas a óleo "escurecidas" passam por processos modernos de conservação e restauro, a remoção de vernizes oxidados e fumos de velas altera radicalmente a perceção das cores e das figuras. Em muitos casos históricos, descobria-se que a pintura visível no século XX era já uma repintura grosseira sobre um original, ou vice-versa.

A hipótese de Nicolau Nasoni

A menção de Alexandre Alves à possível autoria ou influência de Nicolau Nasoni faz todo o sentido para a época. Nasoni introduziu o ilusionismo prospetivo e o barroco cenográfico no Norte de Portugal e trabalhou intensamente na Diocese de Lamego (à qual Castro Daire pertence). Contudo, a documentação histórica posterior a 1986 veio mapear melhor os artistas regionais. Sabe-se hoje que mestres como João Correia Monteiro trabalharam na talha e decoração da Igreja Matriz de Castro Daire por volta de 1760, misturando a sumosidade joanina com o início do rococó. [12]

Resumo: Não está a ver mal. Está a fazer uma leitura crítica correta. O Retábulo (a talha e os santos) é o mesmo, mas o "filtro do tempo" — sob a forma de intervenções de restauro ou alterações na pintura central — fez com que o registo visual de hoje já não coincida perfeitamente com a descrição literal feita pelo historiador há quatro décadas.


CONCLUSÃO
 

É bom ter MEMÓRIA, olhar para as coisas e ver. Não será propriamemte por acaso que tenho textos e vídeos com o títuloNÓS E AS COISAS”.

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.