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Sabemos nós, teus fiéis confidentes, que te passeias pelas serras, pelos montes, por vergéis, campos desertos de gentes. Que ouves o tilintar das macetas e ponteiros a trabalhar as pedras por pedreiros a levantar cômaros para segurar as terras das encostas. Que bebes a água das fontes mas em redondo, perto ou longe, ninguém canta. E o silêncio e a solidão não te encanta. Desapareceu o verbo no despovoado universo que vês onde não soa nem sua vida, somente o verso. |
E fá-lo como quem ainda pensa e sente, isto é, quando sentires que deixaste de ser gente. Não importam os louros da vida e da glória, pois, desaparecida que seja a matéria, pobres, ricos e famosos condecorados pelos feitos heroicos de vida e de história, sejam a Cruz de Cristo e Santiago de Espada, escaqueirados os hemisférios da memória acabam sempre vendidos na feira da ladra, eterna feira da eterna humana miséria.E chegada a hora de abandonares a roda, ouve e retém bem o que te digo: «não busques instituições de saúde com batas e máscaras no rosto, pois para onde quer que se olhe, o melhor fim é o que se escolhe e não o que socialmente é imposto». E se nos estudos que fizeste, noite e dia, anos seguidos, ao pensamento nunca deste ócio, não precisas de ousada filosofia, nem precisas de recorrer a Sócrates para distinguires saúde de negócio e saberes a diferença entre Hipócritas e Hipócrates.Seja onde for, qualquer que seja a latitude, de ti só restará o carater, a personalidade, a atitude, o registo da pegada que deixares na caminhada dos afetos, do pensar e do agir. Mais nada. Nem semblante, nem tosco traço de caricatura. Nada que tenha peso e medida da tua criatura. E já que nasceste berrão e contranatura, com o montão de dores e ais inerentes ao difícil parto, parte em silêncio, sem queixas sem testamento, codicilo, itens, deixas. Parte livremente, segundo a tua vontade. Nesse gesto livre e de humana dignidade de partir e ser pessoa. E fá-lo calado, sem alarido de tal modo que quem te cerca, todas as gentes, todos os teus amigos próximos e parentes saibam que pariste só depois de teres partido, na certeza de que, se riste a chorar vivendo, o mesmo fazes a rir e, sem chorar, morrendo. Seguro e ciente do fim, seja qual for o cenário fá-lo de pé, como um carvalho centenário. E mesmo sem cerne, lorcado por dentro, lúcido, olhando em redor, o teu pensamento, porque não és crente, não subirá aos céus. Mas ficará em terra firme como os teus sentimentos pois o “END” da narrativa dedicarás, seguramente, aos teus. Abílio/10/06/2022 |
UM GESTO, UM OLHAR
Sentado
Pensativo
Dorido
Do dente tratado,
Neste anos de 2022 a Rússia, comandada por Putin resolveu pôr em prática a sua política de expansão imperial e daí rsultou a GUERRA com a UCRÂNIA. E como nestas coisas de formação e queda de impérios não há inocentes, sendo certo que quem mais sofre não são os seus mentores, mas as vítimas deles, eu, ao ver tanta destruição de habitações e os seus habitantes em fuga, adultos, crianças, cães e gatos, achei oportuno trazer a este meu site ativo um poema que escrevi e publiquei há muito nos jornais e no meu meu velho site desativado. Escrevi-o em Lourenço Marques, em 04 de novembro de 1974.
TESTAMENTO
Neste tempo
Em que o lúcido pensamento
Está ausente
Na cabeça de tanta gente,
Quero deixar escrito
Bem claro e dito
Enquanto tenho alento
E tino
(Espécie de testamento)
Com vigor
Sereno e vero
Que, se lutador
Fui na vida inteira
Lutador morrer quero
Ao deixar a Terra.
Nos arredores de Vila PoucaMUNDO FEITO DE MUDANÇA
Quando estava no activo
Na minha profissão docente
Usava vocabulário decente
Pois da missão era cativo.
GLÓRIA À CIÊNCIA
Década de setenta.
Século vinte.
20 de abril de 2014 ·
PÁSCOA FELIZ
Páscoa feliz
É como quem diz,
Conheço-a de vender pinhas
Pela vizinhança
Apanhadas no pinhal
Alheio, pois de herança
Não tem nada de seu.
BERETTA
De pé, na vertical ou deitada,
Inclinada,
Na horizontal que seja
NATUREZAS MORTAS
Saídas da paleta e pincéis
De artistas de nomeada
Emolduradas
Pintadas
Segundo os gostos seus
Enchem as galerias e museus
Do mundo.