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sábado, 21 fevereiro 2026 17:45

CASTRO DAIRE E CASTRO VERDE - «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» E «INTELIGÊNCIA HUMANA» (11)

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«INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL»- E «INTELIGÊNCIA HUMANA»

O ROMEIRO

Natural do concelho de Castro Daire, por força da “descolonização”, abandonei a profissão docente que exercia  em Moçambique  e vim retomá-la na Escola Preparatória de Castro Verde,  concelho donde era natural a minha esposa MAFALDA DE BRITO MATOS LANÇA CARVALHO (nascida no Monte das Fontainhas) e ali comecei a romagem ao “TEMPLO DA INVESTIGAÇÃO E DO SABER” e ao “TEMPLO DA POLÍTICA”, fundando e organizando a célula do PARTIDO SOCIALISTA LOCAL.

 

 AUTARCAVindo a desempenhar a função de presidente da PRIMEIRA COMISSÃO POLÍTICA CONCELHIA daquela célula local, como bem deve constar nos ACTAS e em ARQUIVO  (se ARQUIVO se manteve) e, quiçá, à falta das atas, no jornal “AÇÃO SOCIALISTA” dirigido, então,  pelo Dr. Alfredo Barroso, sobrinho do Dr. Mário Soares, onde foi publicada parte de uma crónica minha escrita a propósito das ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS  de 1983/1985, cujos resultados  permitiram que o PARTIDO SOCIALISTA aumentasse o número de deputados na ASSEMBLEIA MUNICIPAL (na qual eu tive assento) e no EXECUTIVO tomasse lugar o vereador e camarada  HORÁCIO, proprietário de uma frota de carros-frio destinados a distribuir peixe no baixo Alentejo, vindo da LOTA DE PORTIMÃO, onde ele tinha espaço reservado.

Ao tempo, eleito nas listas da APU, era PRESIDENTE DA CÂMARA o cidadão FERNANDO SOUSA CAEIRO e ele, sabedor que foi do meu empenho na investigação da HISTÓRIA LOCAL deu-me carta-branca para “desencantar” o saber contido no conjunto de manuscritos, alguns deles encadernados em pele, fechados desde sempre, num BAÚ  que jaziam num dos compartimentos dos PAÇOS DO CONCELHO

Assim, devidamente sinalizado, eu podia levar para o meu domicílio o DOCUMENTO que fosse objeto da minha leitura e estudo.

De igual modo procedeu o PRIOR que, na altura, assumia o seu múnus na Paróquia e igualmente o PROVEDOR da Misericórdia, cujos nomes se me esvaíram da memória. Perdoem-me eles, pois a todos devo publicamente a PROVA DE CONFIANÇA  que em mim depositaram, permitindo o PRESIDENTE DA CÂMARA que fosse eu a primeira pessoa a converter para letra redonda o Indecifrável  GÓTICO  do   FORAL dado ao concelho por D. Manuel em 1510. Distintamente dos demais documentos este preservava-se fechado  no COFRE MUNICIPAL. Era e é a peça rara de que, comemorando os 500 anos da sua concessão, veio a ser editado um “fac-símile”  (500 exemplares) pela Câmara Municipal e Junta de Freguesia com apresentação feita pelo Dr. Alves da Costa, onde, justa e deontologicamente,  ele deixou escrito:

FORALEste foral  foi pela primeira vez transcrito em 1978, pelo então professor de História de Portugal, da Escola Preparatória Local, Dr. Abílio Pereira de Carvalho, a quem o atual Presidente da Câmara, senhor Fernando Sousa Caeiro, facultou uma fotocópia do original”.

Posto o que, nessa minha romagem, lamentando, embora,  a perda daqueles volumes que, no fundo do baú, devido à humidade acumulada durante anos, já estavam totalmente inutilizados, transformados em blocos de folhas coladas - autênticos blocos de pedra inúteis - ainda cheguei a tempo de “salvar” alguns deles no meu domicílio, cuidadosamente colocados a uma distância adequada de uma fonte de calor por forma que, muito lentamente, eu pudesse  vir a folheá-los e dar-lhes vida. E nunca me faltou o incentivo do Dr. José Francisco Colaço Guerreiro, um, então, jovem licenciado em DIREITO que viria a desempenhar a profissão de NOTÁRIO, em Almodôvar. Ele, o cidadão castrense, que sempre se tem batido pela investigação e divulgação da HISTÓRIA e CULTURA ALENTEJANA.

Vem tudo  isto a propósito de um reparo que a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL fez na LEITURA dos meus trabalhos publicados no site TRILHOS SERRANOS, relativos a CASTRO VERDE, texto publicado integralmente na c´ronia anterior. 

Com efeito, a páginas tantas da sua criteriosa, valiosa e até louvável APRECIAÇÃO, acima publicada, diz:

“Nos Trilhos Serranos, Castro Verde aparece como memória, como crónica, como história, como peça documental. Nem sempre o leitor recebe sinalização clara do que está a ler em cada momento. A transcrição pede método; a crónica pede liberdade. Quando as duas se abraçam sem aviso, ganha-se impacto, mas perde-se nitidez. Quem lê por prazer aceita o salto. Quem lê para confirmar, estudar, citar, fica a desejar referências mais constantes: arquivo, cota, edição, critério de transcrição. Não por pedantismo — por possibilidade de verificação”.

Ora, esta observação feita  pela «ciência algorítmica», sendo  ela, aparentemente,  um  “pouco misteriosa e onisciente devido à sua capacidade de processar e responder a uma grande quantidade de informações”, ciência, que se saiba,  impenetrável a “cunhas”,“amizades”  e “simpatias pessoais”, ciência que trabalha sobre “modelos” e “padrões” assimilados, na sua condição de “ máquina projetada para simular conversas e responder a perguntas de forma natural e coerente. Um programa de computador que utiliza algoritmos e dados para gerar respostas”, vista assimque coisa diferente podia ela fazer senão notar, nos meus trabalhos, a falta de algumas referências, v.g. “arquivo, cota, edição”, para posterior verificação desejada  por curiosos, estudiosos e académicos?

Eu direi: boa,  oportuna, assertiva e aceite  por mim essa «observação». Só que na gramática portuguesa, existem as adversarias, “mas,  porém, todavia, contudo” e elas me  levam a justificar aquilo que escapa aos “padrões”, aos “modelos”, aos “paradigmas” utilizados pela eloquente «ciência» que sobre os meus trabalhos se pronunciou. É que há coisas ligadas à investigação e divulgação de “saberes” que a  INTELIGÊNCIA  ARTIFICIAL, (por ser artificial) jamais poderá alcançar, seja porque «essas  coisas» não estão digitalizadas, seja porque, tendo uma existência real e objetiva, são trabalhadas com a subjetividade e a emoção humanas não alcançáveis por essa «ciência». Eu explico melhor.

CONFRARIA.-porbaseA “ciência algorítmica”, elogiando e louvando o meu trabalho, fincada nos  “padrões” académicos assimilados saídos das  BIBLIOTECAS  e ARQUIVOS organizados, ignora o MILAGRE que foi eu  “salvar” alguns desses volumes de manuscritos, guardá-los em lugar seguro, sem preocupação de qualquer tipo de CATALOGAÇÃO. Da forma como encontrei essas RELÍQUIAS do passado, manuseando-as e retirado delas o seu conteúdo, bastava-me citar o título escrito no TERMO DE ABERTURA, do livro, o número de fls, r/v e, de seguida, devolver à INSTITUIÇÃO DE PROVENIÊNCIA  o “documento”, solto ou encadernado, pois não havia ESTANTE, GAVETA, COTA, pois iso era «coisa» que não tinha ali chegado ainda.. O mais que fiz, porque recolhia a matéria que veio a ser o miolo do livro “História de Uma Confraria, 1677-1855”, (devidamente  «cotado»  na B. Nacional, como mostra o print  anexo)  foi inventariar todos os manuscritos relativos à confraria de S. Miguel. De resto, à semelhança dos demais, era lê-los e devolvê-los ao sítio onde eram preservados, fosse empilhados ou ao monte, v.g. ao baú municipal, ou ao espaço livre atrás do altar-mor da Basílica Real e da Misericórdia

E, passados tantos anos, é legítima a pergunta: todo esse recheio de manuscritos já foi devidamente inventariado, catalogado, posto em estantes ou gavetas, segundo as regras vigentes nos arquivos e bibliotecas, ou continua empilhado e em  monte, indisponível aos estudiosos?

ARQUIVO-GAVETAA muitos anos de distância os meus ARQUIVOS DOMÊSTICOS em cujas fichas só existe a “matéria transcrita”, a referência ao DOCUMENTO e as “fls r/v”, dizem-me que, mesmo sem referência a qualquer «cota» tão necessária a estudiosos e  académicos, valeu a pena  essa minha «amadora» iniciativa. Este meu “ficheiro” (ver foto ao lado)  empresta significado profundo ao ditado popular: “quem não tem cão, caça com gato”  e, claro está, tudo isto escapa aos “padrões”, aos “modelos” usados pela “ciência algorítmica”.  Pelo que, mesmo assim, a caça feita desse modo, posta que foi na mesa dos comensais, lá em CASTRO VERDE e cá, em CASTRO DAIRE, levaram a mesma “ciência tecnológica” a comparar, (noutro passo de consulta)  os meus escritos a Miguel Torga, a Manuel da Fonseca, a Vitorino Nemésio e a Aquilino Ribeiro, assim:

Aqui ficam três exemplos de autores e obras que se alinham com a tradição de prosa regionalista/etnográfica que podem ajudar a ver em que sentido os textos do Prof. Abílio Pereira de Carvalho dialogam com outros escritores portugueses:

1.    Miguel Torga (1907–1995)

Obra-base: Diário (volumes I–VIII, 1934–1973) e Gente da Beira.

Semelhanças: descrição minuciosa das aldeias e das serras de Trás-os-Montes; registo de costumes, paisagens e sensações de quem viaja pelos caminhos rurais. Diferenças: Torga faz das suas anotações um diário íntimo, pleno de reflexão existencial, enquanto Carvalho tende a enfatizar o levantamento dos topónimos, a memória coletiva e as lendas locais.

2.    Manuel da Fonseca (1911–1993)

Obra-chave: Homens sem Nome (1946), Terra da Promessa (1984).

Semelhanças: interesse pelo mundo rural e pelas gentes do interior—no caso de Fonseca, o Alentejo; em Carvalho, a serra e o Douro. Diferenças: Fonseca adota muitas vezes um tom de denúncia social e socialismo de raiz neorrealista; Carvalho mantém um enquadramento mais etnográfico e patrimonial, sem pôr tanto o foco na luta de classes.

3.    Vitorino Nemésio (1901–1978)

Obra principal: Mau Tempo no Canal (1944).

Semelhanças: mistura de romance e ensaio etnográfico, registo de tradições e do imaginário coletivo (aqui, dos Açores) .Diferenças: Nemésio recorre à ficção para dar voz a personagens açorianas e dramatizar conflitos humanos; Carvalho privilegia o ensaio de campo e a compilação toponímica, funcionando quase como um «arqueólogo» da memória serrana.

Em suma, assim como Torga, Fonseca ou Nemésio, Carvalho insere-se na tradição de valorização do Portugal rural, mas fá-lo com um olhar mais documental e toponímico, quase de etnógrafo, procurando preservar nomes de lugares, lendas e vivências do interior serrano".

EARQUIVO-CAXA  não ficou de fora, nem podia ficar,   AQUILINO RIBEIROassim:

«Abílio Pereira de Carvalho e Aquilino Ribeiro partilham uma profunda ligação à identidade regional portuguesa, mas distinguem-se pelo fôlego literário e complexidade da linguagem. 

Semelhanças: 

Enraizamento Regional: Ambos os autores focam-se na vida rural e nas tradições da Beira Alta e arredores.

Valorização do Léxico Local: Existe em ambos uma preocupação em preservar e utilizar regionalismos e expressões populares, mantendo a autenticidade das falas e dos costumes serranos.

Temática Social e Humana: Dedicam as suas obras à representação do "povo", das suas lutas diárias, da ligação à terra e das dinâmicas das comunidades rurais. 

 Diferenças:

Aquilino Ribeiro: considerado um mestre da língua portuguesa, com um estilo barroco, erudito e de extrema riqueza lexicológica.

Abílio Pereira de Carvalho: escrita  mais direta e documental, muitas vezes focada na crónica histórica e na preservação da memória local».

Posto isto, justificadas  que estão as omissões detetadas pela  INTELIGÊNCIA  ARTIFICIAL, nem por isso lhe passou despercebida a pérola que aqui transcrevo, do texto acima posto, relativo a Castro Verde: 

No fim, talvez seja isso que torna estes textos publicáveis e necessários: não prometem neutralidade. Prometem presença. Prometem que a história local pode ser uma forma de cidadania — às vezes mais elegante, outras mais impaciente — mas quase sempre animada por uma ideia simples: um concelho que não conhece o seu passado fica mais fácil de governar por rotina, e mais difícil de governar por futuro”.

Pois. E talvez seja porque quem “não conhece o seu passado fica mais fácil de governar por rotina e mais difícil de governar para o futuro”  é que o mapa de Portugal, ao sul do Tejo, ao fim da cada ato eleitoral, após o 25 de abril de 1974, mantinha a cor “vermelha”. Cor que deixou de ter muito recentemente. Simplificando: dizem que da ESQUERDA mudou para a DIREITA. A que se deveu tal mudança? Para bom entendedor...

Eu cá, em Castro Daire, nos 86 anos de idade, continuo atento ao que se passa em Castro Verde, e no resto do país. E, com esta idade, aceito muito bem a observação da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL quando diz que os meus escritos são atravessados por um certo «tom admonitório». Com efeito, ainda não perdi o jeito  de metido no miolo  da HISTÓRIA, misturar, intencionalmente, política, literatura e opinião com carga subjetiva suficiente que escapa, naturalmente, aos “padrões”  e  “modelos”  da “ciência algorítmica”.

Mas, sob pena de ser pouco INTELIGENTE ou estar a perder a lucidez  com a idade  - 86 anos - nesta minha romagem da vida, vêm mesmo a calhar as palavras deixadas por AQUILINO RIBEIRO na dedicatória que fez ao Dr. Francisco Pulido Valente, no seu livro “Quando os Lobos Uivam”,  pp. 8, com uma diferença. Até prova em contrário, o meu bornal e a minha cabacinha de romeiro, ainda  se não esgoratam de todo; Assim escreveu ele:

«(…) Nesta peregrinação a Compostela, que é a vida, esgotou-se-me o bornal de romeiro e a cabacinha, ou está por pouco. A jornada foi longa e muitos dos que tinham rompido a marcha comigo ficaram no percurso, alma em pena e clamorosa (…)”

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.