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sexta, 27 fevereiro 2026 13:50

CASTRO DAIRE - AS MANDAS

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CASTRO DAIRE - AS MANDAS

No meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva”, publicado em 1993, dito por vários informantes naturais da aldeia  e também pelo meu pai, deixei escrito em que consistia a “CERIMÓNIA DAS MANDAS” e a sua dramatização no LARGO DA IGREJA, em cima de uma montada, aparelhada e ajaezada para o efeito, por alturas do CARNAVAL.

1- MANDA - Cópia

No jornal “LAMEGO HOJE” escrevi sobre cerimónia similar que ainda hoje se faz em Lazarim, com a diferença de lá usarem MÁSCARAS e em CUJÓ e aldeias em redondo, não.

Também escrevi sobre a PARTILHA DO BURRO que se fazia em S. Joaninho com a fotografia de um natural da terra que trabalhava na ESCOLA SE UNDÁRIA e lá me conduziu para exemplificar, em cima do penedo que servia de palco. Disso tirei e publiquei foto. Aí, tal como em Vila Boa (MÕES) o caso passava-se noite e o “declamador” usava um funil dos grandes ou uma cabaça seca e oca para amplificar e distorcer a voz.

Afinal, então.  o que eram as MANDAS, AS DEIXAS, OS TESTAMENTOS , A LEITURA DOS CABAÇOS e/ou a PARTILHA DO BURRO?

Era uma cerimónia popular que tinha lugar nas nossas aldeias por altura do CARNAVAL e nela  se procedia à LEITURA DE UM  TEXTO semelhante ao que hoje aqui apresento, que me foi fornecido pelo meu amigo “ZÉ BRANCO”, da Relva, Monteiras,  falecido pouco tempo depois de me ter confiado esta peça singular de CULTURA POPULAR “lida” no dia 4 de fevereiro de 1940.

Bibscinhore doutoôre-REDZTexto  poético, escrito numa caligrafia “sceitável, mas  numa “rima” esgalhada  a podão, deixo aqui uma página e algumas “rimas”. Quando os seguidores desta página traduzirem as restantes, eu prometo que deixarei mais destinada ao ARQUIVO   CULTURAL do concelho, com vista a que, no futuro se saiba que, mesmo não escrevendo “escorreitamente” as ideias e os gestos se prestavam ao “entretenimento ” e “gozo”  da populaça. E não dispensava osinhôre doutöre delegado”, questionando a sua demora «donde se vem pra tanto ter demorado» . 

Creio ser um bom exemplo «linguístico» para aqueles que no torneio do NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO se batem pela vigência do VELHO ACORDO, ignorando, ou fingindo ignorar, que a LÍNGUA, ferramenta de comunicação que é, antes de ser «ESCRITA» foi «FALADA» e, nesse estado e condição, a FONÉTICA levava a melhor à ETIMOLOGIA. E, nestas condições, em 1940, o «bem falante» e «mal escrevente» procedia ao «testamento», às «deixas» e entretinha toda  a gente. 

 Vejam bem!

Biba sinhôre doutore delegado

De donde se vem pra tanto ter demorado.

Bibão meus sinhas...

 




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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.