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segunda, 02 março 2026 18:03

CASTRO DAIRE - CANTIGAS AO DESAFIO

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CANTIGAS AO DESAFIO  (2007)

.A RTP1 tem vindo a dar destaque a uma tradição cultural portuguesa no seu programa “DOMINGO HÁ DESGARRADA”.Tenho acompanhado com gosto este PROGRAMA, ainda que, os meus “quefazeres” me não tenham permitido segui-lo todos os domingos.Seja como for é com agrado que vejo este órgão PÚBLICO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL virar o foco para o “POBO” e transmitir em direto o que vulgarmente era produzido, cantado e ouvido, em espaços locais de ROGA, FEIRA E ROMARIA.Creio, todavia,  ter-me antecipado uns bons anos a esta iniciativa da RTP1, louvada seja. É que, no longínquo ano de 2007, coloquei no mundo, v.g. no meu velho site “TRILHOS SERRANOS.COM”, o texto que se segue, migrado hoje mesmo desse espaço online morto, para este vivo com o endereço TRILHOS SERRANOS.PT, Assim:

 «Não andaremos muito longe da verdade se dissermos que o espaço de alguns dos jograis na sociedade medieval foi ocupado posteriormente pelos «cantadores  feira»«, «cantadores à desgarrada», cantadores do fado» ou, simplesmente «cantorias malicciosas».

Pois. Em tempos idos, quando a literatura oral era rainha, devido à falta de livros ou à raridade deles pela difícil manufatura e elevado preço, coube aos jograis medievais (cazurro, segrel, trovador) tal como coube os aedos gregos, transmitirem pela palavra falada as narrativas folclóricas e/ou épicas, próprias de todos os povos, de todos os tempos e lugares. Algumas, transmitidas oralmente, de geração em geração, podiam (ou não) assumir posteriormente a forma escrita. Os jograis tinham um papel importantíssimo na divulgação do saber  pois  eles eram:

 «Os intermediários culturais por excelência, insinuando-se com a gazua invisível do canto e da música, para a qual não há portas fechadas, em todas as regiões e em todos os níveis sociais.

O camponês, o burguês, o senhor, ou nas feiras e romarias, ou nos festins e banquetes, ao ar livre ou em salões, até mesmo nas naves das igrejas, entretinham-se a ver o jogral que tocava, cantava e bailava (...) Se o sacerdote tinha o prestígio do saber e entendia os mágicos sinais que enegreciam os livros, o jogral despertava a imaginação com as suas estórias de países fantásticos ou guerreiros invencíveis, com as suas canções, a desenvoltura de viajante sabedor e de aventureiro. Enquanto no clérigo se via o ministro de Deus, um guardião da porta do Céu, o jogral parecia um discípulo do Diabo, sem vergonha, sem eira nem beira, errante.(...) Por isso, durante muito tempo a Igreja e os moralistas condenaram os jograis»(1)..

 SALVADOR-REDZ-CUSTILHÃO-1Mas seguir a trajetória dos jograis através dos tempos e dos temas por eles versados não é matéria para um trabalho ligeiro. Não andaremos, porém, muito longe da verdade se dissermos que o seu lugar na sociedade foi ocupado posteriormente pelos «cantadores de feira», pelos «cantadores à desgarrada», também conhecidos por «cantadores do fado» que chegaram aos nossos dias. Estando muito mais activos nos meados do século XX, eles vão ressurgindo com algum vigor e fazendo uso das novas tecnologias divulgam o seu repertório, arte e voz através de cassetes e CDs.

Os «cantadores de feiras», andando de feira em feira, cantavam dramas passionais ou tragédias ocorridas algures. Cantavam as «desgrácias» do tempo. Os «cantadores à desgarrada» , fosse em festas de romaria, fosse em serões de ocasião, em tavernas ou simples «arruadas», cantadores do sagrado e do profano, entretinham as plateias com temas bíblicos, que iam desde Adão e Eva,  Abel e CaímSansão e Dalila, Herodes e Pilatoso Rei SalomãoJesus de Nazaré, José de Arimateia, temas alternados com a vida de figuras pátrias, como Afonso HenriquesD. DinisD. Nuno Álvares Pereira, ou mesmo gestas estrangeiras: a história do "Imperador Carlos Mago e dos Doze Pares de França", donde sobressaíam as façanhas do jovem Roldão, do audacioso Oliveiros e as bravatas do gigante Ferrabrás de Alexandria.

Gestas recheadas de matéria edificante e cristã preencheram os serões de província, divertiram e cultivaram o povo, durante as «prolixas noites de inverno». Do livro à oralidade e da oralidade ao livro quem estabelece as fronteiras entre a cultura  erudita e a cultura popular?

Atualmente, os «cantadores à desgarrada», os «cantadores do fado» das «cantorias» que subsistem nos meios rurais, desde que dois deles sejam colocados frente a frente,  se se trata de festa profana ou serão de entretenimento, travam chistosos  duelos verbais - a autêntica «tenção»  medieval. O chiste palavroso, satírico, brejeiro, obsceno e erótico é que dá conteúdo à cantoria. É que anima a malta.  Sob pena de escândalo moral não se aconselha a transcrição de muitas dessas criações populares improvisadas. A foto ao lado é a CAPA de uma «cassete» onde estão a Maria, de «Sernancelhe» e o Salvador, do Custilhão. O título é si si carregado de significado.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.