«Não andaremos muito longe da verdade se dissermos que o espaço de alguns dos jograis na sociedade medieval foi ocupado posteriormente pelos «cantadores feira»«, «cantadores à desgarrada», cantadores do fado» ou, simplesmente «cantorias malicciosas».
Pois. Em tempos idos, quando a literatura oral era rainha, devido à falta de livros ou à raridade deles pela difícil manufatura e elevado preço, coube aos jograis medievais (cazurro, segrel, trovador) tal como coube os aedos gregos, transmitirem pela palavra falada as narrativas folclóricas e/ou épicas, próprias de todos os povos, de todos os tempos e lugares. Algumas, transmitidas oralmente, de geração em geração, podiam (ou não) assumir posteriormente a forma escrita. Os jograis tinham um papel importantíssimo na divulgação do saber pois eles eram:
«Os intermediários culturais por excelência, insinuando-se com a gazua invisível do canto e da música, para a qual não há portas fechadas, em todas as regiões e em todos os níveis sociais.
O camponês, o burguês, o senhor, ou nas feiras e romarias, ou nos festins e banquetes, ao ar livre ou em salões, até mesmo nas naves das igrejas, entretinham-se a ver o jogral que tocava, cantava e bailava (...) Se o sacerdote tinha o prestígio do saber e entendia os mágicos sinais que enegreciam os livros, o jogral despertava a imaginação com as suas estórias de países fantásticos ou guerreiros invencíveis, com as suas canções, a desenvoltura de viajante sabedor e de aventureiro. Enquanto no clérigo se via o ministro de Deus, um guardião da porta do Céu, o jogral parecia um discípulo do Diabo, sem vergonha, sem eira nem beira, errante.(...) Por isso, durante muito tempo a Igreja e os moralistas condenaram os jograis»(1)..
Mas seguir a trajetória dos jograis através dos tempos e dos temas por eles versados não é matéria para um trabalho ligeiro. Não andaremos, porém, muito longe da verdade se dissermos que o seu lugar na sociedade foi ocupado posteriormente pelos «cantadores de feira», pelos «cantadores à desgarrada», também conhecidos por «cantadores do fado» que chegaram aos nossos dias. Estando muito mais activos nos meados do século XX, eles vão ressurgindo com algum vigor e fazendo uso das novas tecnologias divulgam o seu repertório, arte e voz através de cassetes e CDs.
Os «cantadores de feiras», andando de feira em feira, cantavam dramas passionais ou tragédias ocorridas algures. Cantavam as «desgrácias» do tempo. Os «cantadores à desgarrada» , fosse em festas de romaria, fosse em serões de ocasião, em tavernas ou simples «arruadas», cantadores do sagrado e do profano, entretinham as plateias com temas bíblicos, que iam desde Adão e Eva, Abel e Caím, Sansão e Dalila, Herodes e Pilatos, o Rei Salomão, Jesus de Nazaré, José de Arimateia, temas alternados com a vida de figuras pátrias, como Afonso Henriques, D. Dinis, D. Nuno Álvares Pereira, ou mesmo gestas estrangeiras: a história do "Imperador Carlos Mago e dos Doze Pares de França", donde sobressaíam as façanhas do jovem Roldão, do audacioso Oliveiros e as bravatas do gigante Ferrabrás de Alexandria.
Gestas recheadas de matéria edificante e cristã preencheram os serões de província, divertiram e cultivaram o povo, durante as «prolixas noites de inverno». Do livro à oralidade e da oralidade ao livro quem estabelece as fronteiras entre a cultura erudita e a cultura popular?
Atualmente, os «cantadores à desgarrada», os «cantadores do fado» das «cantorias» que subsistem nos meios rurais, desde que dois deles sejam colocados frente a frente, se se trata de festa profana ou serão de entretenimento, travam chistosos duelos verbais - a autêntica «tenção» medieval. O chiste palavroso, satírico, brejeiro, obsceno e erótico é que dá conteúdo à cantoria. É que anima a malta. Sob pena de escândalo moral não se aconselha a transcrição de muitas dessas criações populares improvisadas. A foto ao lado é a CAPA de uma «cassete» onde estão a Maria, de «Sernancelhe» e o Salvador, do Custilhão. O título é si si carregado de significado.