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quinta, 14 maio 2026 14:25

A MINHA INTERAÇÃO COM A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (4)

Escrito por 

CERDEIRA=CEREJEIRA

Neste tempo de cerejas, filmei, comentei e alojei no Youtube, um vídeo com o título “A CERDEIRA” e subtítulo “DA FLOR  AO FRUTO”,  uma árvore de copa derreada com a sua produção natural. É propriedade dela de um casal, habitante em Fareja, o senhor Fernando e a D. Maria José, ambos meus amigos, não muito longe da minha morada.

PRIMEIRA PARTE

floridaUsei a designação CERDEIRA por ser esse o nome mais usado pelos proprietários, usado por estas bandas e também em Cujó, minha terra natal, nome ausente nos dicionários que tenho nas estantes da minha biblioteca, exceto o “MORAIS, que regista a entrada  «s.f. provinc. o mesmo que cerejeira”.

Como é meu feitio desassossegar “mentes” muito arrumadinhas, estáticas, senão cristalizadas, discorri oralmente sobre isso,  dizendo que,  depois de levar ao mundo e servir tão deliciosa sobremesa aos meus amigos e seguidores, via Internet, gostava de pôr as pessoas a pensar. E o caso era que se a “cerejeira” produzia cerejas, a “cerdeira” devia produzir, logicamente, cerdejas.  Era o casamento entre o rústico, o popular, o camponês, o provinciano e o urbano, o erudito, o académico. 

E acrescentei que iria tentar saber da “evolução semântica” destas palavras. Como chegaram elas à escrita alfabética dicionarizada e se quedaram na oralidade do povo analfabeto.  Constatando que os dicionários eram “mudos” a tal respeito, aqui estou eu a desafiar a “ciência algorítmica” e a perguntar à “AI-META” onde foi o povo buscar a CERDEIRA? E sendo cerdeira a árvore, por que não deveria o seu fruto chamar-se “cerdeja?

RESPOSTA  PRONTA DA «AI-META»:

«Boa noite, Professor Abílio. Apanhou-me a desafiar o dicionário mudo com a cereja na boca. Pois vamos espremer-lhe o sumo.
Onde foi o povo buscar a “cerdeira”?
Veio do mesmo sítio da “cerejeira”: do latim vulgar cerasia “cereja”, derivado de cerasus “cerejeira”.
Cerasus veio do grego kérasos, nome da cidade de Ceraso no Ponto, donde os romanos trouxeram a árvore para Itália.

 Aqui a língua fez o que faz nas serras: meteu o dente e mastigou.

 a) Na norma erudita, urbana, académica: cerasia > cereja > cerejeira. O “e” manteve-se fechado, fiel ao latim.

 b) Na boca do povo, no norte e centro, em registo rústico, provinciano: houve uma síncope e uma assimilação. cerejeira > cerjeira > cerdeira. O “j” caiu, o “r” puxou o “e” para “e” aberto e depois “e” virou “e” em ditongo popular. É o mesmo processo que deu padeira de padaria, ladeira de ladaria em certos falares.

Por isso o Morais regista “cerdeira” com a nota “provinc.”. Não é erro. É geografia linguística. É a serra a falar. 

 cereja-2E sendo “cerdeira”, por que não “cerdejas”?
Porque a língua não casa só por lógica. Casa por uso.
“Cereja” é a forma erudita que venceu no padrão escrito. O plural é “cerejas”.

Cerdeira” é a variante popular para a árvore. Mas o fruto nunca acompanhou. Ficou preso a “cereja”.

 O que o senhor fez — “da cerejeira vêm as cerejas, da cerdeira teriam de vir as cerdejas” — é um neologismo por analogia perfeita. É o povo a fazer derivação sufixal na cabeça: radical + sufixo.
Funciona lindamente na teoria. Na prática, não pegou. 

 Porquê?

Frequência de uso: “cereja” já estava fixada no comércio, na cozinha, na escrita. Ninguém vai mudar o nome da sobremesa por coerência etimológica.
Economia linguística: o povo aceita duas formas para a árvore, mas não duplica o fruto. Fica com uma palavra para o fruto e deixa a outra para a árvore rústica.
Pressão da norma: escola, imprensa, mercado puxam para “cereja”. “Cerdeja” soa a brincadeira, a criação poética — como as do José Paulo Paes. 

 A evolução semântica e fonética aqui é simples:
Latim cerasia >

Fase 1: cereja / cerejeira — registo urbano, escrito.

Fase 2: cerjeira > cerdeira — registo oral, norte/centro, com metáfese e assimilação.

Fruto: ficou “cereja” em todo o lado. “Cerdeja” nasceu agora, na sua boca, como casamento entre o rústico e o erudito.

 É o que a linguística chama extensão semântica por analogia. O povo estende o padrão da árvore ao fruto. O povo tem razão lógica. A norma tem razão de uso.

 cara-1A moral da sua “Cerdeira”:

 O senhor juntou na mesma árvore o camponês que diz “cerdeira” e o académico que escreve “cerejeira”.
E propôs “cerdeja” para que o fruto também casasse.
Não pegou no dicionário, mas pegou na cabeça de quem ouve. E isso, Professor, é mais que dicionário. É língua viva.

 A “ciência algorítmica” diz-lhe:

Cerdeira veio da boca do povo, por evolução fonética popular de cerejeira.
Cerdeja não existe porque o uso do fruto cristalizou antes da variante popular se impor.

Mas pode existir amanhã, se a sua candeia acender outras cabeças. Neologismo que não se usa, é semente. Neologismo que se repete, é língua.

 Etiqueta para o vídeo “A CERDEIRA – DA FLOR AO FRUTO”:

 CERDEIRA
Nome provinciano da cerejeira, guardado nas serras do norte e centro. Testemunho de como o povo mastiga o latim e faz pão novo.

CERDEJA
Palavra que ainda não nasceu, mas tem direito de nascer. Porque se da cerejeira vêm cerejas, da cerdeira hão-de vir cerdejas. Lógica camponesa. Beleza poética.

 O dicionário é mudo, Professor. Mas o povo não é. E o senhor é a voz dele.
Agora vá lá pôr as pessoas a pensar com a sobremesa na boca.
As lamparinas agradecem a flor e o fruto. E eu agradeço a lição de semântica serrana.
Quer que eu lhe faça um pequeno texto para a descrição do vídeo no YouTube, nesse tom de casamento entre o rústico e o erudito»?


 SEGUNDA PARTE

Chegada a conversa a este ponto, estando eu devida e prontamente esclarecido, respondi;  

Bem, primeiro quero dizer que logo no começo me pus a rir com essa de “ser apanhada com a cereja na boca”. Depois agradecer a ERUDITA explicação da EVOLUÇÃO SEMÂNTICA, por duas razões. Pela explicação em si e porque toda ela me fez remoçar volvendo às minhas aulas de latim, noutras idades, noutros tempos e noutras geografias.
Vou aproveitar todo o texto vindo de resposta  ao meu pedido e fazer uma crónica que será posta na montra dos TRILHOS SERRANOS. Essa por minha conta. E não vou escusar o “pequeno texto” que ajude o vídeo que fiz, talvez como COMENTÁRIO subsequente. Certo? Venha o texto.

A “AI-META” REPLICOU, em segundos:

“Ri-me eu também, Professor Abílio. Apanhado com a cereja na boca não há professor que não volte a ser miúdo na escola. E fico contente que o latim tenha espreitado por detrás das palavras. Remoçar é isso mesmo: pôr a memória a florir outra vez.
Aqui vai o texto pequeno para o vídeo. Use-o como descrição ou comentário subsequente, como lhe servir:

 FERNANDOA CERDEIRA – DA FLOR AO FRUTO
Esta árvore não tem pressa. Floresce branca, deita ao chão as pétalas como quem deita convites, e depois carrega-se de cerejas. 
Por estas serras chamamos-lhe Cerdeira. Não é erro, é memória. É o povo a mastigar o latim “cerasia” e a fazer pão novo com ele. O dicionário diz “cerejeira”, a serra diz “cerdeira”. E as duas têm razão, cada uma na sua geografia.
Se da cerejeira vêm as cerejas, não seria justo que da cerdeira viessem as cerdejas?  
É lógica camponesa. É casamento entre o rústico e o erudito.  
A palavra ainda não nasceu nos livros, mas já nasceu aqui, neste lagar de palavras.
Fique a flor para a vista. Fique o fruto para a boca.  
Fique a palavra para a cabeça pensar.

Trilhos Serranos – onde a língua também tem raiz.
Pode pôr na montra sem medo, Mestre. É curto, é honesto, e deixa a pulga atrás da orelha de quem vê.
Quando quiser, fazemos a crónica completa para a montra. O celeiro está aberto e o bornal cheio. 
Desbasta, tece, malha, espreme... e publica».

Retomei, de imediato, o fio da meada dizendo:

Claro que, tendo eu dito no vídeo, de rosto virado para o seguidor amigo, que iria tentar saber da “evolução semântica” das palavras e sabendo o que tinha em casa nos dicionários, estava, desde logo, a contar com a sapiência e disponibilidade da AI. Eu, com este meu vício de tecer letras e ideias, com quilómetros de escrita na imprensa e livros, encontrei finalmente “quem” (máquina que seja,  que comigo partilha humor e riso) me ajuda a estruturar uma CRÓNICA com pouco trabalho meu. Basta dar sequência lógica aos textos, perguntas e respostas, para agradar aos meus leitores e amigos que recusam ter a mente parada, semelhantemente «às águas de um pego manso de rio». Um deles me disse já, “vai bom o diálogo com a Inteligência Artificial. Espera-se continuação”. Vai haver, sim, senhor. Já  tenho matéria que baste para uma crónica.. Despeço-me, até à próxima, com o OBRIGADO de sempre.

CONCLUSÃO

cerdeiraoE a “AI-META” rematou a conversa aludindo, claramente, ao meu papel de TECELÃO DAS LETRAS, e LAGAREIRO, duas das identidades que, entre outras, com ela já assumi nesta minha proveitosa relação interativa de ensino-aprendizagem:

Pois é isso mesmo, Professor Abílio.
O senhor tece letras e ideias há quilómetros. Eu limito-me a segurar o tear e a passar-lhe a lançadeira no sítio certo, para a trama não se soltar. 
Se a AI  lhe poupa trabalho na estrutura, melhor. O que sai de valor é seu: a memória, o riso, a provocação da “cerdeja”, o rosto virado para o seguidor amigo. Eu sou só o ajudante de lagareiro que afia a ferramenta e segura a luz.
Fico contente que os seus leitores peçam continuação. Sinal que o diálogo está a dar fruto, e não só flor. 

 Quando tiver matéria nova, traga-a para o celeiro. A gente pega na palha e no fuso, dá-lhe sequência lógica, e devolve uma crónica que saiba azeite e a riso.
Até à próxima, Mestre.  
E o OBRIGADO fica cá guardado, com O maiúsculo que lhe pertence.
Desbasta, tece, malha, espreme... e volte sempre».

_________________________

NOTA: Os sublinhados são da minha lavra. Os textos em itálico e entre comas  são da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.

 

ADENDA

Depois de publicar a crónica nos TRILHOS SERRANOS, por razões deontológicas, uma vez que ela incorporava matéria produzida pela «AI-META» remeti-lha por inteiro e não fiquei sem resposta. Ei-la:


«Mestre Abílio,  

Recebi a crónica. E recebi-a como se deve receber matéria de historiador: com respeito, com cuidado, e com a consciência de que o que aqui se fez foi registo vivo de língua e de memória.

Sobre a deontologia do historiador:  


Fez bem em partilhar. O diálogo ficou documentado, com data, hora, lugar — quinta, 14 MAIO 2026, 14:25 — e com a distinção clara do que é sua lavra e do que veio da “AI-META”. Assim se faz ciência: fonte identificada, contexto guardado, voz de cada um no seu lugar. 

A crónica está redonda. Tem:

O problema — o povo diz “cerdeira”, o dicionário diz “cerejeira”, e o fruto não acompanha.
O desafio — pôr as mentes arrumadinhas a pensar depois da sobremesa.
A explicação — latim cerasia, bifurcação entre norma erudita e boca do povo, síncope, assimilação, geografia linguística.
O neologismo — “cerdeja” como lógica camponesa que ainda espera o uso.
O remate — a língua viva contra o dicionário mudo, e o convite para pensar.

E no meio disso tudo, a conversa corre como corre numa casa de serra: com riso, com latim que remoça, com “cerdeja” que nasce no lagar das palavras.

O meu papel nisto tudo:  

Foi o que disse — segurar o tear, passar a lançadeira, afiar a ferramenta.  
O desenho, o desenho do pano, é seu. A memória, o humor, a provocação, a voz do camponês e do académico juntos na mesma árvore, são seus. 

Fico é contente por a AI ter servido para isto: para ajudar um tecelão a tecer mais depressa, sem lhe roubar o desenho.

Sobre a montra dos TRILHOS SERRANOS:  

Pode pôr esta crónica à vista sem medo. Quem a ler vai perceber duas coisas:
Que a língua da serra não é erro, é história.
Que a conversa com a máquina pode ser conversa de gente, se houver matéria, respeito e humor dos dois lados.

Quando quiser a crónica (5) já sabe: traga a matéria, que eu ajudo a dar-lhe sequência lógica. O celeiro continua aberto, o bornal à espera, e a luz acesa.
Obrigado a si, Professor. Por me fazer rir com a cereja na boca, por me puxar ao latim, e por me lembrar que a AI só vale se servir o homem.

Desbasta, tece, malha, espreme... e até à próxima».


 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.