MONUMENTO ARQUEOLÓGICO EM BALTAR DE BAIXO
Neste meu afã em defesa do nosso património e memória dos nossos antepassados que, analfabetos que eram, sem conhecerem as Leis da Física, nem terem ouvido falar nos nomes dos sábios de tal ciência, fosse por “herdamento” de gerações (hipótese mais provável), fosse resultado de uma “invenção” de momento, sem patente registada, adequada à resolução de um problema imposto pelas leis da sobrevivência, eis a PRENSA DE VARA, as suas forças e contra forças aplicadas aos lagares de azeite e de vinho.
Em 1995, no meu livro “Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura” descrevi o funcionamento das AZENHAS DE AZEITE e ilustrei o texto com um DESENHO (moinho e prensa) feito no computador Schneider, usando o rato, os lápis, os pinceis e as cores oferecidas pelo Paintbrush. A mesma ferramenta que me serviu para deixar aqui o perfil de um LAGAR DE VINHO com PRENSA DE VARA, todo ele uma peça histórica da nossa ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL VINÍCOLA. Desencantei-o, neste ANNO DOMINI 2026, no sítio onde foi implantado e exerceu a funções para que nasceu, até ficar imobilizado para sempre, ali mesmo, em Baltar de Baixo, concelho de Castro Daire.
Com a lente da câmara a deslizar sobre as peças que o constituem fiz dois vídeos a preceito. E se a peça designada por FUSO tem um orifício chamado OUVIDO onde se introduz o ferro ou panca de madeira que o faz girar (por força braçal) perdida que foi a sua função ativa, ouviu mesmo o diálogo que tive com o senhor José Matias e a Dona Maria de Fátima, ambos meus conhecidos, residentes naquela aldeia e ambos dispostos a partilharem com o mundo, através de mim, as experiências que tiveram a lidar com ele em tempos idos. Uma labuta antiga. Ambos a manifestarem a condoída sensibilidade de verem naquele corpo morto uma peça viva digna de MUSEU. Um livro fechado de saberes perdidos destinados a arder numa qualquer lareira da aldeia. Na primeira oportunidade, face ao manifesto desinteresse das entidades concelhias na salvaguarda do nosso PATRIMÓNIO.
Ora, se em 1995, falando de moinhos hidráulicos e azenhas de azeite, só dispunha da minha sensibilidade e dos meus neurónios para descrever tais engenhos, muito mais confortável me sinto hoje no desempenho de tal tarefa. É que, atualmente, eu seria pouco inteligente se, neste meu tecer de palavras e ideias, visando produzir e divulgar conhecimentos, desperdiçasse os recursos que tenho disponíveis e prontos a produzirem, em segundos, um texto que me levaria horas a pensar, a estruturar e a digitalizar.
Refiro-me à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL com a qual tenho mantido uma interação muito profícua nesta minha tarefa de ensino-aprendizagem. A ela devo o texto que se segue em itálico, respondendo a uma pergunta minha sobre um DETALHE TÉCNICO/MECÂNICO que me intrigava v.g. o acoplamento da parte inferior do FUSO à parte superior do PESO. Acoplamento que permitia o fuso rodar sobre si próprio (à força braçal) fazendo descer a vara compressora. Mas, terminada a compressão sobre os varais e adolfa, se invertesse a força e o peso fosse içado rodando, em simultâneo com o fuso, até ficar “pendurado” a fazer pressão sobre os malhais. E veio a explicação pronta e simples:
“Em termos puramente técnicos, o fenómeno explica-se porque o sistema mecânico escolhe sempre o caminho de menor resistência energética. Enquanto o bagaço está mole, é mais fácil baixar a vara do que erguer a pedra. Quando o bagaço endurece, torna-se mais fácil erguer a pedra do que baixar a vara. Ao içar a pedra, transforma-se o trabalho braçal momentâneo em energia potencial gravítica acumulada, garantindo uma prensagem constante, gradual e autónoma durante horas” (Google IA)
Não satisfeito com a explicação solicitei mais informação e ela veio, assim:
“O detalhe técnico fundamental que permite içar o bloco de granito (conhecido como "peso" ou "mó") ligado ao fuso de madeira num lagar de trave (ou lagar de vara) sem que o parafuso se desprenda da pedra baseia-se num sistema de encaixe rotativo em T (rebaixo de baioneta) ou junta de suspensão livre. [1] Este mecanismo permite ao fuso rodar continuamente sobre o seu próprio eixo enquanto levanta verticalmente o peso de granito, evitando que o cabo de madeira desenrosque ou parta a pedra” (idem)
E prossegue:
“Quando o fuso atinge a compressão máxima sobre a massa de uva, a resistência mecânica do lagar torna-se infinitamente maior do que o peso da pedra suspensa. A partir desse ponto de saturação, a força rotacional aplicada na alavanca muda o referencial do movimento: o fuso deixa de empurrar a vara para baixo e passa a usar a própria vara como teto fixo para puxar a pedra para cima, deixando-a suspensa para atuar como um contrapeso gravitacional constante” (…) Esta inversão de movimento — onde o fuso deixa de descer e passa a içar o peso do chão — explica-se mecanicamente através da Terceira Lei de Newton (Ação e Reação) e do bloqueio por fricção.“ (idem)
Dito isto, passemos ao acoplamento do fuso e do peso e do seu içamento:
A Anatomia do Encaixe
O acoplamento mecânico é feito através de componentes esculpidos e forjados que trabalham em conjunto:[1]
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A "Fêmea" no Granito (Olhal ou Caixa): No centro superior do bloco de granito, é esculpida uma cavidade vertical aberta. No fundo desta cavidade, o espaço alarga-se lateralmente (formando um perfil em forma de sino invertido ou "T").
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O "Macho" Metálico (Ferroa ou Peão): Na extremidade inferior do fuso de madeira, é cravada uma robusta peça de ferro forjado. Esta peça termina numa cabeça redonda ou numa barra transversal (cruzeta) que encaixa folgadamente dentro da cavidade da pedra.
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Chavetamento / Travamento por Rotação: A cabeça de ferro entra na ranhura da pedra numa determinada posição horizontal. Ao rodar 90 graus, a travessa de ferro fica presa sob os ressaltos internos da rocha.
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Buchas de Madeira ou Chumbo: Para evitar o desgaste direto do ferro contra o granito e eliminar folgas excessivas, o espaço restante da cavidade é preenchido com cunhas de madeira dura ou chumbo derretido, deixando apenas a folga necessária para a rotação livre do fuso.
Como Funciona a Dinâmica de Içamento
1. Aparafusamento Inicial: O fuso de madeira passa por uma porca de madeira gigante (a fêmea ou serva) fixa à extremidade da grande trave (vara).
2. Descida do Fuso: Ao rodar o fuso através das alavancas verticais (os braços), ele desce até ao chão através da porca até engatar no peso de granito.
3. Inversão e Suspensão: Quando a trave já não consegue descer mais sobre o enseiramento (as seiras com a massa de azeitona), a resistência muda. Continuando a rodar o fuso, este começa a subir na porca da trave, puxando a extremidade livre da trave para baixo.
4. O Içamento do Peso: Assim que a trave atinge a sua tensão máxima, o fuso começa a puxar o bloco de granito para cima, retirando-o do chão. O peso fica inteiramente suspenso no ar, aplicando uma força descendente contínua na trave através do princípio da alavanca. Graças ao encaixe rotativo inferior, o fuso gira suavemente na "ferroa" sem transmitir o movimento de rotação ao bloco de granito, que apenas sobe na vertical. [1]”
E mais ainda:
«PRINCIPAIS COMPONENTES VISÍVEIS
Ao observar o mecanismo lateralmente, destacam-se os seguintes elementos essenciais:
A Vara (Alavanca): Um tronco de madeira maciça de grandes dimensões (frequentemente de carvalho ou castanheiro) que atravessa o espaço horizontalmente.
O Ponto de Apoio (As Viras): Dois esteios verticais de madeira ou pedra situados numa das extremidades, onde a vara é fixada e articula verticalmente.
A Zona de Prensagem (O Alfeire ou Penal): Localizado no terço inicial da vara. É aqui que se empilham as seiras (discos de esparto com a massa) sob uma base de madeira (o cepo), recebendo a pressão direta do peso do tronco.
O Mecanismo de Tração (O Fuso e a Pedra): Na extremidade oposta ao ponto de apoio, um grande parafuso sem fim vertical (fuso de madeira ou ferro) conecta a vara a um contra-peso massivo de pedra (o lopo ou lapa). Ao rodar o fuso, a pedra eleva-se do chão, transferindo todo o seu peso para a vara e maximizando a força de esmagamento na outra ponta». (Idem)
De resto, relativamente ao “içamento do peso” e “pressão autossustentável» por gravidade, a AI conclui:
«Esta é a grande genialidade da engenharia empírica deste sistema. À medida que o tempo passa, o bagaço vai cedendo lentamente e libertando mais líquido, o que faria a pressão diminuir se o sistema fosse rígido».
Daí, os meus informantes, senhor José Matias e Dona Maria de Fátima insistirem dizendo que era na fase do peso suspenso que o vinho jorrava abundantemente da bica do lagar para a pia granítica recetora. E dali saia, em cântaros, para pipas e tonéis. (Cf. Vídeos cujos links se anexam em rodapé)
PRENSA DE VARA
JOSÉ MATIAS
https://youtu.be/H62XzgAjoQ4?si=l1xURT5VmrBnaYtS
DONA MARIA JOSÉ
https://youtu.be/id-7IbSuh6I?si=EZ2JHRvF5b1x-rAT
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NOTA: Para que os meus leitores e amigos entendam a razão por que escrevi “ANNO DOMINI 2026” e não fiquem a pensar que se tratou de um ramalhete erudito, eu mais não pretendi do que, com essa designação latina - duas palavras apenas - remeter o uso e cronologia do engenho para o tempo dos romanos, tal como no-lo diz a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, assim:
“O modelo de prensa de vara (prelum) e contrapeso de pedra (culleus) foi amplamente desenvolvido e espalhado pelo Império Romano. Escritores e agrônomos romanos (como Catão, o Velho e Plínio, o Velho) documentaram detalhadamente estas estruturas”.(Idem)
ADENDA
Após a publicação do texto remeti-o à «GOOLGE «IA» e obtive o texto que se segue para adenda:
«O texto do historiador Abílio Pereira de Carvalho sobre a prensa de vara do lagar de vinho em Baltar de Baixo (Castro Daire) foi registado. Segue a análise técnica e contextual que servirá de Adenda a esta crónica de salvaguarda do património arqueológico industrial.
1 - A Física Oculta e a Engenharia Popular da Prensa de Vara
A crónica de Abílio Pereira de Carvalho resgata uma peça fundamental da arqueologia industrial portuguesa. O engenho descrito em Baltar de Baixo sobreviveu ao tempo como testemunho de uma ciência empírica. Segue a fundamentação técnica e histórica que complementa o texto original.
2- . A Física por Trás do "Analfabetismo Científico"
Os antepassados criaram a prensa de vara baseando-se em princípios de mecânica que só mais tarde seriam codificados pela ciência moderna:
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Alavanca de Segunda Classe (Inter-resistente): A vara longa (tronco de árvore) funciona como uma alavanca. O ponto de apoio fica numa extremidade (fincado na parede ou "castelo"). A força resistente (o mosto/bagaço a ser esmagado) fica no meio. A força motriz é aplicada na outra extremidade.
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Vantagem Mecânica Multiplicada: Uma vara com 8 a 10 metros de comprimento permite que uma força humana relativamente pequena, aplicada no fuso, se transforme em toneladas de pressão sobre as uvas no lagar.3 .
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3 - Valor Patrimonial em Castro Daire
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A identificação deste lagar em Baltar de Baixo expande o inventário iniciado pelo autor em 1995 com o livro “Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura”. Enquanto os lagares de azeite com este sistema eram comuns na região devido à oliveira, a sobrevivência de um exemplar intacto dedicado exclusivamente ao vinho é uma raridade arqueológica que urge proteger, documentar e classificar a nível municipal.