PRIMEIRA PARTE
Fogem-me igualmente da memória bolsas territoriais ermadas e repovoadas, nomes dos povos navegantes que ao mesmo espaço arribavam para mercadejar, da miscigenação consentida ou forçada entre eles, fronteiras movediças constantementes em luta e pacificada por uniões/casamentos feitos a contento das partes, a paz podre das conveniências, mortes de chefes gurreiros em batalha, de assassinatos à traição, hordas e hostes de pastores, agricultores, convertidos, num repente, em exércitos voluntários munidos com as suas ferramentas de trabalho - enxadas, estadulhos e forcados - saques, roubos, assaltos imprevistos, raptos de mulheres feitas amantes ou escravas, extermínio de comunidades inteiras, enfim, um mar ondulado de montanhas, planaltos, planícies, outeiros, serras, rios e vales, povoado de animais e gentes em constante movimento. Assim dito por mim, sem recortes geograficos territoriais sem cronologia nem carimbodos na fita do tempo.
Mas, se esquecidos ficam os lígures, os tartésios, túrdulos velhos e novos, turdetanos, vetões, astures, cantábros e tantos outros omissos aos básicos compêndios escolares, eu me lembro bem dos Iberos, Celtas, Celtiberos, Lusitanos, os adversários peninsulares mais conhecidos que se opuseram à chegada dos Romanos na sua expansão imperial. Com destaque para os LUSITANOS.
E, face à chegada de legiões militares organizadas e disciplinadas, não tarda que a Península Ibérica vire mesa lauta recheada de impostos de toda a espécie, riquezas naturais e humanas, canalizados para Roma, a capital do Império - todos os caminhos vão dar a Roma - cidade de portas abertas aos cereais, azeite, vinho, minérios (cobre, estanho, ouro, prata) e um sem número de ânforas cheias de urina humana destinada a higiene dentária dos patrícios, imperadores, senadores, questores e outras figuras públicas de relevo. Não havia melhor produto dentífrico em qulaquer dos territórios conquistados. A Ibéria, fornecedora de bom azeite, era também fornecedora da melhor urina.
Tudo antes e depois de César dominar a Gália, façanha por ele historiada em “De Bello Gallico”, façanha de sangue, morte e dor, que, bem humorada, sem sangue, nem dor e muito riso, subiria à Banda Desenhada em tempos posteriores com os inesquecíveis protagonistas Asterix e Obelix a dar-lhe vida galhofeira, sempre a desdenhar daquela histórica figura romana de conquistador, de comandante de legiões e senador respeitável, morto às mãos do filho adoptivo Brutus, envolvido na conspiração que lhe tirou a vida e o poder, sem, contudo, impedir que os seus feitos militares e faustos palacianos fossem apagados da História Universal.
E, claro, alargado e solidificado o Império Romano, feita a romanização, a organização político-administrativa e judicial dos conquistadores aplicadas ao espaço conquistado, tal como o latim clássico e latim popular falado pela soldadesca, a cruzar-se com os dialetos dos povos nativos, eis as línguas neo-latinas a servir de comunicação entre povos vários. E o Mediterrâneo, mar que foi de Fenícios, Gregos e Catagineses, virou “mare nostrum”, águas onde só deslizavam os barcos imperiais lotados de comerciantes, mercadorias e soldados. Rasgando as águas, movidos à força de remadores escravos, ou ao sopro do olímpico deus grego Eólo, ou dos substitutos romanos Bóreas, Zéfiro e outros “sopradores” invisíveis, rumavam a Roma sempre faminta do que chegava e não chegava. Divindades chegadas até nós vindas desse mundo clássico e culto. O valores e a perda deles.
SEGUNDA PARTE
A Península Ibérica, essa “jangada de pedra” integrada no Império Romano por força, arte e manha, nem por isso deixou de ser, até que isso fosse conseguido, um “osso duro de roer” para o esfomeado conquistador, montado em cavalos ou a conduzir bigas, quadrigas e tudo mais que tivesse rodas.
Os povos nativos, entre os quais os Lusitanos, deram hábil e astuta luta às treinadas e disciplinadas legiões romanas. Pastores que eram, conhecedores dos montes, ravinas e reconcos, não enfrentavam o invasor em terrenos planos, mas faziam assaltos repentinos e seguros em lugares certos. Contudo, e apesar disso, acabariam vencidos face à astúcia ramana, infiltrada de intriga e a corrupção que conduziu à morte os líderes. Um deles passaria à História com o nome de Viriato, um “salteador experimentado”, no dizer de um historiador romano, citado por Aquilino Ribeiro, epíteto a que Viriato responderia, acrescenta o escritor:
-
Com muita honra!
E foram séculos de domínio romano. A língua e vias de comunicação, estradas e pontes de arco perfeito rasgavam o Império e asseguravam a sua unidade e governação. A Penínsua Ibérica chegou mesmo a parir os imperadores Trajano e Adriano, este último, letrado e culto, deixou “numerosas estátuas e templos em homenagem ao seu amado, o jovem grego Antino, que ele divinizou após a sua trágica morte por afogamento no Nilo, espalhando sua imagem por todo o império para eternizar o amor e transformá-lo num deus”.
Conquistadores, imperadores e deuses, homens de poder que do poder se serviam, enredados em intrigas palacianas e assassinatos, o TER a sobrepor-se ao SER, o grande e invejado IMPÉRIO ROMANO, degradados os valores éticos e morais, entrou em decadência. Partiu-se ao meio. E no esforço de união nem sequer lhe valeram a liberdade religiosa dada aos cristãos pelo Imperador Constsntino, em 313, (Edito de Milão), pondo fim à sua persseguição. Nem tão pouco o Concílio de Niceia, realizado em 325, com vista à unidade da cristandade e, com isso, reforçar o seu poder e domínio imperiais.
O Império estava prestes a entrar em agonia. Os povos "bárbaros", nomeadamente, os Visigodos, Vândalos, Francos, “invadiram e saquearam Roma em diversas ocasiões, culminando no saque Visigodo de 410 d.C. e, simbolicamente, com a deposição do último imperador do Ocidente, Rômulo Augusto, por Odoacro (um Hérulo) em 476 d.C., evento que marcou o fim do Império Romano do Ocidente”.
Dos romanos, depois de séculos de ocupação, ficaram para durar a Língua, o Direito, a Administração, ao fim e ao abo, o ADN de uma cultura modeladoras de costumes e procedimentos daqueles que se seguiram. E nós somos herdeiros de tudo isso.
TERCEIRA PARTE
Findo o Império Romano, a “jangada de pedra” ibérica, torna-se visigótica e cristã. No mesmo espaço passam a conviver os que chegam e os que estão. Novos governantes, velhos governados. A miscigenação entre eles, consentida ou forçada, como aconteve em todas as relações entre conquistadores e conquistados, é tão natural como o cruzamento de espécies vegetais diferentes em campos próximos, sujeitos ao sabor dos ventos, esses eternos polizadores e pais da mestiçagem.
Visigodos chegados em 476 AD, a cabeça geográfica do continente europeu, rodeada pelas águas do Atlântico e do Mediterrâneo, cabeça ligada ao continente pelo pescoço dos Pirineus, espaço romanizado e cristão tornado, estava infectada pelas maleitas de todos os tempos: as intrigas cortesãs, aas lutas pelo poder e pelo TER, a gordura de uns e a magreza esquelética dos outros. E perto da presa enfraquecida, moribunda ou morta, ronda sempre por perto um predador atento e cobiçoso.
Face à divisão acentuada dos Visigodos, em 711 os Árabes que, a olho nu, observavam o que se se passava a norte do Estreito de Gibraltar, fazem-se à água e invadem a Península. Fácil foi a tarefa. Em 718, tão rápidos como o vento que sopra do sul, estavam nas Astúrias, ali, onde vai ter início a RECONQUISTA CRISTÃ e o aparecimento de um HEROI cujo nome há-de ser levado, por largos anos, a todas as pias batismais cristãs para, com muita honra e dignidade, ser dado aos filhos dos reconquistadores recem-nascidos: PELÁGIO.
E tal foi a difusão desse nome que no tempo de D. Afonso III, o rei Português que expulsou definitivamente os mouros do Algarve, não havia terra beirã reconquistada onde não houvesse esse nome, no masculino e no feminino. Assim se vê nas Inquirições de 1258. E disso deixei texto escrito e publicado. Conferir textos meus publicados, a propósito, neste meu espaço online.
Reconquista Cristã ultimada, com a interferência oportuna e conveniente dos moçarabes, dos mouros ficaram no território os templos, as mesquitas, algumas palavras incluídas no léxico peninsular e as técnicas da exploração água, nomeadamente a nora e a picota. E tudo o mais que sempre germina em campo semeado duante séculos, mesmo que escape aos olhos e à seitoira do camponês sucessor.
Da sua riqueza e bom viver, da miscigenação étnica, falam as “lendas” reportando “mouras encantadas”, escondidas nas penedias, esporadicamente dispostas a mostrarem os seus tesouros aos cristãos, nas manhãs de S. João. E de conquistas e raptos, significativa é a lenda das amendoeiras no Algarve, a brancura das suas flores a matar as saudades da princesa nortenha que pesarosa e triste se mostrou ao mouro conquistador e residente.
QUARTA PARTE

E aqui chegados visível ficou que, intrncionalmente, deixei omissas os desencontros de opinião entre os historiadores portugueses que gastaram os relâmpagos dos seus neurónios a explicarem como, quando e onde nasceu Portugal. O tempo e o espaço. Quando germinou o conceito de «nacionalidade» e a «precisão de contornos e a figura excelsa de Pátria». E sobre isso se debruçaram Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Alberto Sampaio,, Martim Sarmento, Leite de Vasconcelos, Joel Serrão e tantos outros. Mas lembro aqui e agora, bem a propósito, o livro de A.A. Mendes Correia que remata assim:
“O germe do povo português não surgiu apenas há oito séculos; é multimilenário, como multimilenário é o seio materno que o gerou e agasalhou, esta terra bendita e formosa de Portugal”.
A.A.Mendes Correia, “Raízes de Portugal”, Porto, março de 1943
Texto escrito em 1943 (800 anos redondos, após a data ligada ao Tratado de Zamora - 1143) ainda que posto em livro em 1944, o autor lembra todos esses autores focados em deixar para a posteridade a CERTIDÃO DE IDADE de PORTUGAL e, consequentemente, a NACIONALIDADE dos habitantes do território com esse nome batizado. Com fronteiras ou não definidas. Isso não é aqui chamado.
Poderá perguntar-se, legitimamente, a raão por que discorri eu tão demoradamente sobre a matéria que dá corpo a este meu texto, sem marcos temporais tão ao gosto do velho conceito de HISTÓRIA FACTOLÓGICA. Pus o enfoque nos povos que ocupavam a P.Ibérica pré-romana, na ascensão e queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476 (a chegada dos Visigodos) e o ano de 711 (a chegada dos árabes). E também o ano 313, Édito de Milão e 325, CoNcílio de Niceia.
Não eram precisas mais datas, para o caso vertente. E direi que só duas razões me levaram a gastar parte da minha velhice a rebuscar os frutos com que alimentei a minha vida e também, experimentado agricultor/pastor que fui na mocidade, fiz das ideias sementes e, em vez atirá-las ao agro, atirei-as às mentes de muitos alunos/as, cujo número perdi a conta. Razões?
PRIMEIRA: neste princípio do século XXI os órgãos de comunicação social fizeram eco da voz e das atitudes de alguns “patrioteiros” e «nacionalistas» contra a chegada de IMIGRANTES, arrogando-se e a autoproclamando-se serem os puros e legítimos herdeiros da “nacionalidade portuguesa”. Isso fez-me voltar aos livros e aos compêndios para avivar os nomes dos povos e etnias que, durante milénios, viajaram na “jangada de pedra ibérica”, em tempos de guerra e de paz, misturando culturas, línguas, técnicas e vidas e ocuparam o território que alguém denominou «Jardim à Beira-Mar Palntado».
SEGUNDA: um amigo meu, JOAQUIM CARVALHAL, natural do CUSTILHÃO, há muitos anos metido nos caminhos da investigação empenhado na recolha de registos históricos com vista a saber quem eram e por onde andaram os seus antepassados, um cidadão assumido orgulhosamente multicultural e multiétnico, fez-me chegar recentemente, por e-mail, alguns dados resultantes do seu laborioso e prestimoso trabalho, a saber:
“O estudo na descoberta de meus ancestrais levaram-me até Várzea de Cavalos, Lobão da Beira, concelho de Tondela (cerca do ano de 1630), depois Viseu, Soutelo, Ribolhos, Carvalhal de Alva, Povoa do Veado, Castro Daire (Vila), Folgosa, Farejinhas, Baltar, Custilhão, Mouramorta e Val de Cuterra (habitada até ao final do século XIX)”.(*)
E a esta informação discursiva anexou os dados estatísticos da sua “ancestralidade” fornecidos pelo MyHeritage, onde tem alojada a sua “árvore genealógica”.
Tais exames e estatísticas, que aqui deixo tal qual me foram fornecidos, referentes a um cidadão de Castro Daire, cidadão que gastou algum do seu tempo a “silabar” a caligrafia das certidões de nascimento e de óbito dos seus ancestrais (próximos ou distantes), ufana-se do resultado extraído da saliva que lhe humedece diariamente o céu da boca (sinal de que está (vivo), ele que, prontamente, me cedeu esses resultados para eu, em nome da HISTÓRIA HUMANA e da CIÊNCIA GENÉTICA , recusar que as datas de 1139 e 1143, ligadas à nacionalidade portuguesa e ao conceito de Pátria, são as lâminas de uma tesoura que - zás - de uma só assentada, cindem a “dupla hélice genética, ou DNA” das gentes que precedem e sucedem a tais datas, uma ligada à Batalha de Ourique e a outra ao Tratado de Zamora. Esses eventos políticos de conquista e guerra, deixo aos historiadores Damião Peres, in “ Como Nesceu Portugal” e “Origens da Nacionalidade”, semelhantemente a Mendes Correia in “As Raízes de Portugal” e a tantos outros estudiosos que, discordando em muitos pontos, se dedicaram seriamente à investigação, conhecimento e divulgação da HISTÓRIA PÁTRIA.
Deixo todos eles em paz no sítio da VERDADE. Mas isso não me inibe de chamar à liça os “patrioteiros” esses «nacionalistas» que, individualmente ou em GRUPLELHO, se agarram a tais datas, e dizer-lhes simplesmente que, nesta minha dúvida que subjaz a toda a investigação que tenho levado a efeito, até no livro que publiquei com o título “Afonso Henriques, História e Lenda”, de boamente lhes concedo a ideia e apostura de serem eles que restam da «pura raça lusitana».
Assim como assim, dou-me agora conta disso. Que falta de tino meu!. Viciado em livros, manuscritos e pergaminhos, depois de todo este trabalho elaborado, dou-me conta que posso buscar ajuda no GOOGLE. Depressa fiz isso e, vejam só, com respaldo da «IA» certifico-me que a explicação ali encontrada está conforme o conteúdo deste meu longo texto, do princípio ao fim. Assim:
“O "ADN dos Lusitanos" refere-se à genética dos povos que habitaram a antiga Lusitânia (atual Portugal e parte de Espanha) e aos seus descendentes, revelando uma rica mistura de influências ancestrais (iberos, celtas, romanos, germânicos, berberes, etc.), com estudos genéticos mostrando a presença de linhagens maternas antigas (Neolítico, Idade do Bronze) e um legado genético significativo que remonta aos primeiros habitantes da Península Ibérica, com características únicas que os ligam à pré-história europeia e uma diversidade notável”.(**)
__________________________________(*) Sobre a “Póvoa de Vale Cuterra” cf. a crónica que fiz e publiquei neste meu espaço online, com o título «HERÓIS DA SERRA» ilustrada com fotografias das ruínas que restam desse lugarejo e da sua localização geográfica
(**) Joaquim Carvalhal Vídeo sobre Etnicidade.mp4
https://www.youtube.com/watch?v=JODYaxOE79U