Trilhos Serranos

HISTORIA VIVA

Neste meu incansável calcorrear os trilhos serranos investigando a História Local (factos políticos, cultura, usos, costumes e gentes) tropecei numa notícia publicada no jornal «A Voz do Paiva» nº de 22 de novembro de 1908, anunciando o falecimento de ANTÓNIO PEREIRA AMADOR, seguida de um extenso elogio fúnebre assinado por Camilo José de Carvalho. Reproduzi-lo-ei mais adiante, mas, antes disso, direi que, sabendo-me eu ligado à FAMÍLIA AMADOR por parte da minha avó paterna, cujo nascimento e infância não estavam muitos bem esclarecidos na história familiar, li a notícia com avidez, sem contudo dela extrair algo que preenchesse os hiatos existentes. Retive a informação e, quando anos mais tarde, vim a saber que o meu primo Amadeu Duarte  Pereira  andava a tentar fazer a ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA,  sugeri-lhe que investigasse as origens e vida desse cidadão por me parecer que ele teria algo a ver connosco, pois tratando-se de um marceneiro com excecionais «aptidões artísticas», o associei imediatamente ao nosso tio José Tereso, nascido no Brasil, que revelava iguais «aptidões» e bem podia transportar consigo os genes do falecido. Eu explico melhor.

HISTÓRIA VIVA

 Foi, pois,  lá no outro lado do Atlântico, em terras brasileiras, que, séculos depois de Pedro Álvares Cabral as ter «descoberto»,  desembarcou, um casal de castrenses acompanhado de uma menina que rondava os dez anos de idade.  E ali, no Rio de Janeiro, como tantos outros castrenses, fizeram pela vida. Mas nada se sabe desse casal, da vida que levaram, dos trabalhos que tiveram, dificuldades que venceram. Sabe-se é que a menina cresceu, arranjou namorado e, com a idade de 18 anos, ela, e ele de 31, puseram no mundo a filha Júlia e, dois anos depois,  o irmão José.

HISTÓRIA VIVA

Bem. Com o registo de batismo lavrado nos livros da Catedral de Viseu, chegada à comunidade cristã pela porta grande,  graças às mãos do padrinho e da madrinha indicados no bilhete anónimo que integrava o enxoval de criança exposta,  Florinda Correia estava pronta a fazer a trouxa e ir aconchegar-se no colo da «ama» que fosse encontrada pela «rodeira», ambas cientes, convém repeti-lo, que receberiam «boas alvíssaras» pelo indispensável zelo cristão.

HISTÓRIA VIVA

Prosseguindo a nossa viagem, neste baloiçar próprio das carruagens da vida e da história, seja por terra ou seja por mar (ao tempo desta «estória» ainda não se viajava por ar)  registemos, em primeiro lugar, que o BILHETE, deixado dentro dos pertences encontrados junto da menina exposta (não confundir com «enjeitada») foi escrito por uma pessoa de letras grossas, pois nele deixou erros ortográficos de palmatória, a saber: escreveu duas vezes «pedeçe» em vez de «pede-se» e «alviças» em vez de "alvíssaras". Registemos também os nomes indicados para padrinho e para madrinha, pois eles nos ajudarão, mais tarde, a buscar entendimento no uso, alternado, dos apelidos escritos nos documentos de identificação da menina Florinda:  ora Correia, ora Amélia de Carvalho.

HISTÓRIA VIVA

Como deixei escrito há anos, no meu site «trilhos serranos»  e no «Notícias de Castro Daire» a primeira «caixa do correio» chegou a Cujó, no ano de 1911. O depositário dela foi João Duarte Pereira, um cujoense cujo nome e exercício de cidadania, em toda cabeça esclarecida e conhecedora da HISTÓRIA LOCAL, em todo o tempo e lugar, dignificam o nome da terra onde foi nado e criado. Eu colhi essa a notícia no jornal «O Castrense», nº 16 (I Série), de 28 de Maio de 1911, aquele que levou a novidade até todos os seus leitores.